Guerra das Coisas – a batalha final da triologia


Este texto estava na minha cabeça há algum tempo mas eu esperei para ver se poderia de fato escrevê-lo. Neste meio tempo, ao reorganizar meu blog, percebi que ele é o desfecho de uma triologia – comecei escrevendo sobre “o sentido das coisas“, evolui para “o desafio de abrir espaços e poros” e então me deparei com a “guerra das coisas“! Eles contam o caminho de buscar o que verdadeiramente importa e vencer a ilusão que que precisamos de muito – material – para viver plenamente a felicidade. A bicicleta me ajudou muito neste processo, me fazendo repensar processos e viver momentos que nenhuma coisa seria capaz de proporcionar.

Recentemente passei 2 meses na Africa do Sul e mais de metade viajando de bike com a “casa” nas costas – ou melhor: no bagageiro. Não me faltou roupa, alimento, material de higiene, nada mesmo. Pelo contrario: tiveram coisas que eu nem usei e ainda sobrou muito sorriso, brilho nos olhos, gentileza, felicidade para compartilhar sem moderação…. e no caminho recebi tanto carinho de gente até então desconhecida que fez meu coração transbordar. Com o corpo exposto sobre aquela (frágil!) e singela mas engenhosa estrutura de metal eu me sentia amparada como em uma forteleza e mesmo levando meus amores apenas no pensamento, me sentia forte para encarar um leão, com força para vencer as lindas montanhas de tirar o fôlego da Afeica do Sul. E venci. Deus e meus amores sabem que não foi fácil, mas com certeza foi o golpe final para eu desapegar das coisas. Das lembranças. Dos pesos.
Voltei para casa – ou melhor: para o meu Porto e o reencontro foi arrebatador! Para elas – as coisas – que foram desalojadas com uma rapidez incrivel. Mas desta vez eu fui além, porqie não basta trocar seis ppr meia dúzia. Me lembro a estranhez com a qual percorri pela primeira vez o centro da cidade. Eu observava – como se fosse de outro planeta – a gana das pessoas em acumular sacolas, a ironia das promoções que oferecem 3 pelo preço de 2 e muitas vezes nos fazem pagar por quatro. Para que tanta coisa? Para que gastar energia e dinheiro no que apenas importa para quem não importa?
Nem preciso forçar muito na memória para lembrar que na maioria dos melhores momentos da minha vida eu estava sem nenhuma ou com pouca roupa, sem internet, sem espelho, sem tirar fotos, apenas sentindo, cem por cento conectada com a vida! Vivendo uma beleza pura que eu saberia descrever nos mínimos detalhes…
Então! Depois deste tempo longe, conquistando sem raízes ou aparências e nem por isso brilhando menos eu voltei e comecei a remexer fundo no fundo dos baús…tirar lembranças – apenas coisas! – que hoje tenho certeza que já estão em mim, pois não preciso de mais nenhuma “bengala material”. Pedalando, aprendi a andar sozinha! É como o último cartão de aniversário que meu pai me escreveu, com seus mandamentos para que eu tivesse uma vida feliz…faz sentido guardar um papel mofado e quase inelegível pela ação do tempo se eu já incorporei seus ensinamentos? Não! É papel….só papel! Assim como as roupas, as louças, os livros, coisas mil que para mim são um item a mais para ocupar espaço e juntar pó e que poderiam estar com outra pessoa, aquecendo, fazendo feliz, abrindo outros caminhos…
Mais uma vez – e de uma vez por todas! – o que importa de verdade, ou está no coração ou não está!
…mas, afinal, por que eu não podia escrever este texto antes? Porque mesmo vivendo esta experiência libertadora, na última hora, me preparando para voltar ao Brasil, quase caí na armadilha das coisas, hesitando ao deixar para trás a cestinha de cipó que fez mais de mil quilmetros pela Africa do Sul comigo. Porque para ser sincera, eu me contradice e ainda trouxe bastante bagagem desta viagem…
Felizmente – e como sempre – o Universo me deu mais uma chance! Enfim, nada como o tempo: cá estou eu cruzando o oceano novamente para outros mil e tantos quilômetros e levando apenas uma bagagem…”Míseros” 10kg que poderiam ser até bagagem de mão….mas eu despachei e preferi deixá-las livres para abraçar este mundo que eu amo! Mundo este que definitivamente não é o mundo das coisas e sim dos sentimentos!
Viva! Consegui. Posso escrever, posso viver! Desculpem coisas, mas esta batalha vocês perderam!
P.S.: ….e, sobre a cestinha, ela ficou com minha última anfitriã, em Port Elizabeth. Uma senhora de idade, com olhos azuis brilhantes chamada Linda. Ela ficou feliz e honrada com o presente e disse que ia colocar no jardim encantado dela e encher de flores. Coisas são apenas coisas…mas não dá para negar que esta teve um final bem feliz!

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