O maravilhoso lugar do outro

Desde a minha primeira aventura de bike, o caminho sempre me abençoou com visões e vivências encantadoras. Conheci gente. Conheci o mundo. Aprendi a ver com os mesmo olhos, outras coisas…ouso dizer que inclusive aprendi a ver além, pois viajando de bike o tempo é outro e ganha a companhia de todos sentidos. Para mim o caminho sempre foi tão incrível e poético que eu nunca consegui entender a angústia daqueles que me querem bem com a forma diferente que eu escolhi para contar o tempo sobre duas rodas. Sempre que elogiaram minha coragem eu  respondi dizendo que cada um tem as suas…pensando no fundo que minhas idas e vindas nada tem a ver com coragem, e sim com escolha…Recentemente aprendi mais uma importante lição da bike, e, por mais incrível que possa parecer, desta vez eu estava de onibus….Tive que subir a serra para trabalhar, e como o tempo era curto, fui de onibus e não pude acompanhar outro cicloturista que fez o mesmo percurso de bike, sozinho…como eu tantas vezes fiz! Saímos do mesmo ponto, no mesmo horário. Eu de carro, ele de bike… o sol queimava. Eu tive que passar no escritório, fiz algumas tarefas, peguei outro carro para a rodoviária, perdi o ônibus, almocei…e ele? Onde andaria? Fiz um cálculo rápido e felizmente logo em seguida recebi a mensagem que confirmou meu prognóstico: no trem. O próximo ônibus chegou e eu segui contrariada e engavetada naquele veículo cheio de rodas e sem nada de vento na cara…evitava até olhar para fora pois o dia estava lindo e era inevitável pensar nos cheiros, sabores e sensações que eu estava perdendo…isso sem mencionar aquele caldo de cana que tem um gosto especial quando chegamos pedalando para degustá-lo! E não é que neste não olhar para fora eu comecei a olhar para dentro e me dei conta? Percebi que os tempos são tão diferentes que é inevitável não sentir preocupação…Eu que no fundo achava um exagero dar boletins durante as minhas cicloviagens, já estava olhando no relógio, fazendo contas para supor o paradeiro e já tinha feito até algumas ligações para assegurar o aluguel uma bike para fazer o caminho contrário caso não chegassem notícias no tempo determinado… Felizmente, elas chegaram: ele chegou! Lição aprendida, na pele! Pode até parecer estranho, mas como é importante estar no lugar do outro! Verdadeiramente. É um exercício tão simples, tão dífícil,  e ao mesmo tão eficaz!
Nas semanas seguintes, fiz a primeira viagem de avião com o meu afilhado de 5 anos. Ele na janela e eu, Dinda coruja, ao seu lado, querendo lhe mostrar tudo…e não é que veio a consolidação da lição? Foi com alguma coisa que eu lhe mostrava insistentemente e ele não via…até que eu me dei conta: era preciso escorregar um tanto no assento e olhar no seu campo de visão para então ser compreendida. Abençoado seja o lugar do outro!
Nas cicloviagens sola que fiz após esta aprendizagem, acredito que fui mais responsável com aqueles que me querem bem. Mas a lição não se restringe a bicicleta, ela é para vida: se eu tenho medo, porque o outro não pode ter? Nunca achei – como diz o ditado – que pimenta nos olhos dos outros é colírio: mas também nunca tinha me dedicado verdadeiramente a pensar o que pode fazer bem ao olho alheio. Confesso que gostei deste exercício. Melhor que “olhar no espelho”, é estar no lugar do outro e compreender um pouco mais do mundo….

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