Carnival Trip

               Depois de uns 10 meses de trabalho praticamente escravo, sem folgas ou descanso, ganhei os dias de carnaval de “presente”. Era final de fevereiro de 2010. No dia 24 de dezembro do ano anterior, eu trabalhava pela manhã entregando panetones e um cachorro enorme veio do nada e voltou para o nada, tudo em uma questão de segundos…o detalhe é que neste meio tempo o tal cão, graças a Deus bangela, abocanhou o meu meigo pezinho 40 e fez um rasgo que rendeu-me 7 pontos… “a título de alinhavo” –  reforçou o doutor –  “mordida de animal não se costura, mas o rombo está grande meu amor!”

               Então, tive que aproveitar o feriado de Carnaval para verificar se eu ainda estava viva e podia fazer algo mais do que controlar pinguins eletrônicos, contatar lojistas, babar vips e aceitar os mandos, desmandos, e outros chiliques de um chefe que de longe, usava mito mais maquiagem do que eu…let´s go! E fui!

CARNIVAL TRIP

5h16min – Km 0 em frente a La Encantada (como eucchamo minha casa) – é novo dia mas a noite predomina…vou subindo a rua e rindo sozinha de felicidade.. como é bom correr – ou pedalar – em busca de sonhos! Os primeiros 10Km são em silêncio, escutando a magrela e os barulhos da capital que pouco tem a ver com esta condição: os quero-queros e outros passarinhos, grilos e outras delícias do meio do mato. Boa parte deste primeiro trecho é no escuro: entre o rio e a cidade, toda iluminação pública está desligada – nobareland’s – e o lado bom é que dá para curtir ainda mais a beleza das luzes na orla…o pensamento vai longe e volta ao coração a certeza de que estou cada vez mais perto de encontrar alguém para ser parceiro de aventuras e pirações…

Quando a iluminação volta, me deparo com uma convenção de cães e a primeira adrenalina forte da trip: um deles persegue a bike latindo insistentemente e chego a sentir as baforadas…eu mais rápido e ele ainda mais rápido. Medo. Medo plenamente justificado para quem teve o pé abocanhado por uma destas feras e levou 7 pontos no pé…7 pontos só para alinhavar…senão seriam 30! Graças a Deus consegui atravessar o território da fera e os caninos ficaram para trás.

Chego no centro da cidade – ainda é noite e uns desavisados voltam do carnaval tropeçando nas próprias pernas…Mercado Público imponente no horizonte e todas as sinaleiras estão fechadas. Mas a esta hora? A esta hora todos os caminhos são livres e deslizo pelo asfalto fresco até a estação central do trensurb. Bike nos ombros e em dois minutos estou no trem, rumo a São Léo, onde a mordomia termina e recomeça o desafio!

Ligo o som e caio na avenida…são seis e tanto e ainda está escuro.. Color Esperanza na trilha sonora – que alegria! Começo a encontrar foliões, mas minha farra é outra! São Leopoldo ferve e vejo de longe plumas e alegorias. Vou costeando a BR e enfim o dia começa a raiar na subida que revela Novo Hamburgo. Lembro da amiga mais velha que abanou bandeirinhas do Brasil diante do Presidente da República, na inauguração desta estrada. Sigo. Louca de vontade de tirar a roupa, mas acho que ainda não é o momento – melhor clarear mais o dia. Sigo de X reflexivo e sufocada pela camiseta….quando entrar na RS 239 tudo será diferente. Eis que ela surge e começo a me deliciar com o cheiro de mato. A estrada é como imaginei – retas e subidas, retas e descidas – não cansa…é um tesão, nem acredito que estou aqui! De repente, as nuvens abençoadas que protegem do calor transformam- se em chuva miuda…encaro! E daqui mais um pouco o obstáculo está superado…a chuva pára e até um solzinho começa a pedir passagem. Trevo de acesso a Taquara e tudo muda : ciclovia e perfume de jasmin no ladinho da estrada. Realmente sinto-me muito bem vinda na RS 115. Breve pausa para café da manhã e diário em Igrejinha. Estou muito feliz!!!!

A viagem segue no maior astral e depois de uma breve pausa para fotos na Schin…chuvarada…fazer o que? Segui de alma lavada e tudo mais também…nem arrisquei mexer no celular…fiquei encharcada, mas, tudo de bom. Comecei a me aproximar de Tres Coroas e chegou a hora de decidir: tentar subir até o Templo Budista ou não? Passei a decisão para o coração e quando chegou a hora, a chuva parou e comecei a subida…no começo paralelepípidos..não arrisquei a bike – desci e empurrei. Um visual maravilhoso…mas a canseira foi pegando…dava até vontade de desistir…mas sempre que isso acontecia vinham borboletas azuis me convidar para a subida…uma até posou para foto e me prostei de joelhos diante dela. Como a natureza de Deus é linda. Abençoadas sombras e pés de macadâmia. Quando vi a placa – Centro Budista – me enchi de folego que há tempos não tinha e entrei pedalando nos domínios de Buda! Amei o vento lá de cima!

Sentei no morro recebendo no rosto o vento dos mantras e orações..agradeci muito por toda minha vida..poderia ficar lá horas, mas decidi circular para conhecer o lugar e depois assistir a celebração de Ano Novo…me encantei com  o picadeiro de mantras…acho que fiquei quase hipnotizada pelo vento e o barulho das bandeirolas…graça! God in your grace transform the world!

Ventos de temporal..o céu enegreceu e quando eu estava conhecendo outro templo fiquei deliciosamente ilhada pela chuvarada. Mas eu sabia que ia passar. E passou. Voltei para a tenda onde seria feita a cerimônia e vi que havia outra casa de rodas de oração aberta e não hesitei: dei várias voltas no sentido horário para lembrar de todos meus queridos. Pedi mais uma vez do fundo do meu coração o que quero para mim. Depois, fui para a celebração e a curiosidade deu lugar a emoção. O som tocou minha alma, meu coração…vieram as danças sagradas e chorei…choro leve e sublime… Procurei um lugar e sentei no chão, quase do lado do Rinpoche. Quem disse que não dá para chegar atrasada e sentar na janelinha? Adorei também que entendi o inglês dele explicando as danças…e para que explicação se meu coração tinha sentido exatamente o que ele falou?

Hora de voltar…

Na descida sorriso extravasando o rosto. Sorriso de quem está feliz. E para melhorar, o sol e uma escolta de borboletas azuis..duas, três, uma porção delas… e numa curva cheia de jasmins pedi licença ao criador e adentrei no mato, para me refrescar numa cachoeira…deixei a magrela só observando! Delícia, delícia! A água oxigenada da montanha lavou também minh’alma! Vontade de tirar os tênis, encostar na rocha..mas a trip segue!

Dei uma rateada já quase no asfalto e vislumbrando a RS que me custou um arranhão…mas tudo bem..é tudo festa!

Os próximos quilometros foram de superação: eu sonhando com a curvinha da Famastil e da Mein Garten, sinal de que tinha chegado,  mas nada dela! Só subidas e mais subidas e quando eu achava que ia ter uma folga vinha a placa: início da 3 faixa – indício de subida íngreme e longa. Mas ainda tive mais surpresas – chuvarada e nem ela refrescava – desviei de uma mega cobra verde que resistia a água no asfalto. Zoológico a 5Km – me enchi de esperança, mas logo que passei pelo zoo a real: Gramado a 7Km. Só quatro voltas no Shopping…barbada! Eu vou conseguir!

E consegui! No limite da exaustão mas com um ânimo inesgotável que só a perspectiva de auto superação alimenta! E chovia aos cântaros quanto finalmente cheguei na curvinha da Famastil. Chuva, frio e uma vontade torturante de ir ao banheiro…e bem na curva avistei uma parada de ônibus: Deus atendeu minhas preces…foi lá mesmo – alívio e uma pequena trégua para espiar a chuva e tomar fôlego. Depois a chuva parou novamente…era chuva de verão. Os últimos quilômetros parecem ser os piores…pois a ansiedade domina: a gente está quase lá, mas não está…

E quase não acreditei quando vi o pórtico de Gramado..sim, é real..cheguei! E ainda tive a sorte de encontrar uma família e pedi uma foto para registrar o feito.
Cheguei no centrinho de Gramado e pus à prova todo meu batalhão de anjos da guarda: não é que consegui vaga na primeira pousada simpática que encontrei? A última! Salve!

Depois de um banho longo, sem a menor consciência ecológica, lá me fui eu, turistar por Gramado….parei em uma pizzaria e ao fazer o pedido: uma pizza grande e uma cerveja de litro, o garçom me alertou que era muito….como ele insistiu tive que ser direta: “vim pedalando do Porto Alegre, preciso repor as energias!” Apesar do espanto, ele compreendeu! Aos pouquinhos, fui saboreando o pedido e organizando as memórias…Depois, chocolate quente com rum flambado e gemada na Velha Bruxa…para dar energia! Sentei numa mesinha na rua para ver o movimento e me deparei com a torre da igreja linda, iluminada, me cuidando! Pedi a conta e o garçon me perguntou como estava. Deslumbrante eu disse. Daqui um pouco ele voltou com o troco, pediu licença e disse que deslumbrante era eu…agradeci e sai me rindo…aos 33, é bom chegar de bike em Gramado e ainda ganhar elogio.

                                                           P.S: Na ocasião, não escrevi o final da história, mas ele foi feliz: o tempo virou e a previsão era de chuva nos próximos 3 dias…então, se tem que ser, para que adiar? Me levantei no dia seguinte, montei na bike e voltei pedalando para Porto, debaixo de chuva…o tempo todo, chuva forte, daquelas que lavam, enxaguam e centrifugam a alma.

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