A Guerra das Coisas

Um amigo chegou em minha casa, observou o cenário é perguntou: “estas de partida Carol?” Eram sacolas por todos os cantos, coisas e mais coisas para doação…a casa foi ficando vazia e eu mais cheia…de energia!
Na verdade (tenho que confessar!), antes largar coisas e pegar bons sentimentos, eu andava fazendo o contrário. Até que de repente, engasguei: era tanta coisa ao meu redor, todas elas com tantas histórias, tanto peso e tanta quilometragem que parecia não haver mais horizonte para mim. Elas estavam roubando o meu chão. E o meu ar.

Que ironia. Como foi acontecer justamente comigo? Justo comigo que tenho a convicção da felicidade plena nas viagens sob duas rodas, levando quase nada e voltando extasiada de horizontes, sorrisos e novas emoções…. Que armadilha para alguém que acredita que o que mais vale nesta vida é o que ninguém pode roubar… para alguém que ama a natureza e tenta aprender com ela que tudo tem o tempo certo de acontecer…

E, por falar em natureza, chegou o meu tempo. Me dei conta que desde pequenos aprendemos a valorizar as coisas e neste apego, ficamos presos. Por “coisas” não viajamos pois elas podem correr perigo…..Por “coisas” não  olhamos o horizonte pois “temos” tudo o que precisamos…. Para que sair? Para que mudar? Para que experimentar o novo? Os espaços estão preenchidos.

E, na decoração da casa é a mesma coisa: deve estar tudo ao alcance da mão, para minimizar o esforço. Como se não fossemos capazes de nos mover para buscar o que verdadeiramente precisamos. Na ilusão das coisas, a necessidade de organização é transformada em posse… E, “possuídos” – ou “empossados”? – ficamos prostrados sem coragem de mudar – nem que seja de posição…

Lembro do primeiro poeta que amei – Mario Quintana – ele morava em um quarto de hotel, no centro da cidade. O local mais tarde foi transformado em uma Casa de Cultura e tive a oportunidade de conhecer o exato espaço onde meu muso se inspirava. Eu imaginava uma vista de tirar o fôlego, com muito horizonte e por do sol. Que nada! O quarto dele era minúsculo, tinha uma única janela para um fosso de luz. É, definitivamente, a beleza não  está nas coisas, e sim nas pessoas e na capacidade que elas tem de desapegar e sonhar….como se não  houvesse amanhã!!!

Aliás, existe um outro autor do.qual gosto muito – o petropolitano Raul de Leoni – que escreveu que “se as coisas tem alma, a alma das coisas somos nós”. Agora estou certa disso. E daqui para frente vou fazer como me disse o amigo do início da história: “descarte as coisas como se você tivesse morrido e outra pessoa viesse “limpar” seu ambiente. As coisas só tem sentido para a gente”. E estou convencida mesmo que o sentido deve estar no coração e na atitude e as coisas são para os fracos que precisam preencher  vazios. O que não ficar no coração, não precisa ficar na prateleira. As coisas que estão anos há espera de uma oportunidade nossa para ter mais sentido, podem fazer falta – quem sabe?  – mas com certeza, também podem fazer outra pessoa feliz…E, vamos admitir, que fazer falta pode ser bom: pode dar saudades, pode nos fazer enxergar…foi sempre a falta que fez a humanidade seguir em frente. E as coisas – ora bolas!!!! – são apenas coisas! Elas dependem de nós, e não ao contrário!

Sim, as coisas são coisas… ganham de nós sentido. Mesmo assim, ingratas, as coisas são ardilosas e travam conosco uma verdadeira guerra, na qual, ao final de cada batalha, na hora da derradeira despedida lançam o golpe de misericórdia, tentando nos convencer que se elas se forem levarão consigo nossas melhores lembranças. Cada vez que cedemos, perdemos um pouco da nossa liberdade. Consentimos que as coisas sejam nossas bengalas, como se não fossemos capazes de andar sozinhos.
Pois é, eu resolvi andar…sozinha! Resolvi aprender – tardiamente e de uma vez por todas – que nada pode tirar o meu valor e não preciso de provas, não preciso de amarras, não preciso de coisas…bendito seja o desapego!

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