Desaprendendo o Preconceito

South African Diaries 3

Depois de toda uma odisseia eu enfim abri o mala bike. E não contive a ansiedade de então rearmar minha fiel companheira de jornada. Logo de cara já percebi que a correia tinha dado mil voltas – isso eu até conseguiria resolver! – mas uma peça importante junto com alguns raios tinham quebrado na viagem. Antes de surtar, decidi que tinha que pedir ajuda, procurar uma loja de bikes. Um atendente do hostel ainda tentou me ajudar, mas só piorou as coisas. Lá fui eu então buscar ajuda especializada. Eu confesso que  estava bem desajeitada: a bicicleta sem uma roda, meio rodando, meio no colo e era o primeiro dia que eu sairia pelas ruas de Cape Town. No meu novo hostel, voltaram a me assustar sobre os perigos da cidade: “não ande sozinha, não ande à noite”. Mal completei o primeiro quarteirão e já começou o assédio: “I’m hungry, please, give me one rand lady” (Estou faminto, me dê um rand senhorita – rand é moeda local, equivalente a 0,25 centavos de real). Na primeira abordagem eu até respondi. Depois, infelizmente, percebi que precisava ignorar para conseguir seguir meu caminho. Cheguei na loja de bikes  Revolution (esta história eu conto em “Pés no Oceano”)  deixei minha parceira e segui caminhando, sozinha. Pela primeira vez, absolutamente sozinha. Por tudo que tinham me dito desde que cheguei, eu estava assustada. Ao mesmo tempo, não parava de pensar no povo que estava me acolhendo e o quão louca era a sua história: levados para longe, como escravos, segregados no próprio lar…obrigados a falar uma língua que não é deles. Em uma loja, por exemplo, muitas vezes falavam em inglês comigo e em outro idioma com seu colega, me deixando na insegurança se estavam  gozando de mim ou apenas utilizando a língua do seu coração.
                A África do Sul tem  11 idiomas oficiais mas praticamente tudo – e isso inclui a sinalização das cidades e rótulos de alimentos – está em inglês. Entre os brancos, a língua do coração é com certeza o Africaans – uma espécie de holandês simplificado, trazido pelos “colonizadores” (Ah! Como me soa horrível esta palavra!) e entre os negros, de acordo com sua origem eles falam um ou mais dos outros 9 idiomas – eu tive mais contato com o Xhosa e o Zulu – que incluem uns estalos e chiados impossíveis de reproduzir para mim!

                Eu segui minha caminhada e cheguei ao porto, conhecido como Waterfront e senti um certo alívio ao encontrar elementos comuns da minha  terra natal, como barcos e biguás, e também outros turistas – o que não me deixava como único alvo. Foi neste lugar tão eclético que me dei conta de quantos preconceitos aprendemos e reproduzimos, como se fossem verdades. E um deles é o de achar que todo o diferente é suspeito. Eu já trabalhei em um grupo onde eu era a única de pele clara e eles mexiam comigo dizendo que eu era a “laranja branca”, ou seja: se eu fosse a uma reunião com eles, pensariam que eu era uma executiva poderosa e estava cheia de guarda-costas ao passo de que se fossem sozinhos, seriam barrados na entrada. É horrível, mas isso acontece.  Agora sozinha e em um continente por mim desconhecido, eu tinha a linda oportunidade de desaprender todo este e outros preconceitos que herdamos mesmo sem concordar e manifestamos sem nos dar conta: às vezes, em uma fração de segundo quando resolvemos trocar de calçada ou fechar o vidro do carro mais rápido porque alguém se aproxima. Me veio a lembrança de uma linda imagem com a questão:  “Qual a sua nacionalidade?” e também a resposta: “humana”.  Na minha preparação para a viagem, não estudei muito a história do país – não queria levar mais “pré-conceitos” na bagagem! -, mas me dediquei a entender o significado de sua bandeira. Resumindo, ela representa a nação arco íris, todas as riquezas naturais e os povos que passam a andar juntos (por isso aquele “Y” virado: 2 que viram 1!). Seria tão bom se todo o Mundo fosse assim – na teoria e na prática…
                Eu tive uma oportunidade linda de reciclar minha bagagem e ampliar meus horizontes por mais que racionalmente nunca tenha conseguido enxergar diferenças pela cor de pele. Estou aprendendo com os anos que o primeiro passo para desaprender um preconceito é assumir que ele existe, nem que seja lá no fundo, bem no fundinho do nosso coração. Contrariando esta aprendizagem infelizmente  na  África do Sul constatei que na prática muito do Apartheid ainda existe num discurso cuja naturalidade  é chocante, ao usar termos como White, Black e Colour – referindo-se ao conjunto de pessoas que forma o país: Brancos (colonizadores), Negros (nativos) e Coloridos (asiáticos trazidos como  força de trabalho). Como se não fossemos todos Humanos. Humanos que somos! Apenas isto, e as diferenças, não devem segregar e sim ser motivo de troca  e respeito.

                Nestes pensamentos, meus passos renderam. Acabei chegando no Cape Town Stadium  – mas isto é outra história (e será!), por que já trabalhei em um estádio e, quem diria, graças a lógica a louca sonhadora aqui novamente sentiu-se em casa. Continuei pela orla, conhecendo a geografia desta cidade linda e pura natureza chamada Cape Town,  que seria minha casa nos próximos 20 dias. Confirmei  minha matrícula na escola, desbravei um supermercado e com deliciosas framboesas assisti o Sol deitar-se suavemente no Oceano Atlântico, na direção do Brasil. Com aquele suspiro de satisfação, de quem viveu praticamente um ano em um dia, dei outro passo importante: sem ajuda, consegui chamar – e encontrar! – o primeiro Uber sem dificuldade. No caminho até em casa meu driver, Lukusa, sentado a minha direita  falou sobre os lindos caminhos tortos de Deus e como ele sempre nos coloca onde devemos estar enquanto contornávamos as montanhas rumo ao meu hostel. Tive a certeza de que eu estava onde deveria estar. E a noite acabou em pizza, com sidra – bebida muito consumida na àfrica do Sul – diários e uma frase que me acompanhou desde que cheguei na África do Sul: “Dreaming is importante for everybody. If you don’t dream that meansthat you’re not alive.
(Estar sonhando é  importante para todo mundo. Se você não sonha, isto significa que não está vivo).

Eu estou viva, bem viva, muito viva e sonho com um mundo sem fronteiras. E sem preconceitos. E por falar em preconceito, se eu falasse que Cape Town tem uma maravilhosa Piscina Pública à beira mar, com piscinas para todos os gostos, idades e aptidões, incluindo uma olímpica com raias para natação, você acreditaria? Sim, ela existe e os preços para frequentá-la são irrisórios. Welcome to South África!

P.S.: A minha “caminhadinha”, foi quase uma meia maratona! Adoro marcar no Strava (aplicativo para registrar percursos) todas as minhas andanças e explorações e olha só o que ele registrou: https://strava.app.link/hhpWIfueA1

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