Pés no Oceano

..é tanta emoção que não sei bem por onde começar….talvez a melhor opção sejam os infinitos 750 metros em um tempo eterno no qual eu carreguei a companheira que todos os meses me carrega pelo no menos 1000km sem reclamar (um pneu furado ou um freio gasto não conta, né?). Que vergonha senti da minha pequenez depois que o choro explodiu e caiu a ficha…

Foram 14 horas de voo – intercaladas pela troca de aeroporto e uma hora mais de onibus. Isso sem contar os 15km do day before, saindo de casa pedalando para encontrar o meu amor, por do sol e a mágica coincidência de seguir o caminho ao seu lado e com grande grupo cíclistico da cidade que nos “deixou” praticamente na porta de sua casa. Lá eu desmontei a bike e no dia seguinte um taxi com ela praticamente no colo.
Minha “única” bagagem despachada – uma grande bike e um pequeno alforge eram ambos fora do padrão: ela muito grande, ele muito pequeno. Assim tive que entregá-los em uma área especial e foi com um nó na garganta e mais lágrimas que os vi sendo engolidos por uma esteira e sumirem diante dos meus olhos….e logo em seguida seria a minha vez!
Não sei se dormi ou sonhei, mas o fato é que acordei do outro lado do Oceano Atlântico.
Novo continente, novo país, novo idioma, uma hora de trem, um taxi, um pernoite e outro taxi para então tomar o mítico trem que me deixou em estado de encantamento por 31 horas cortando um país, conhecendo sua geografia e imaginando um pouco de sua história antes de encontrar a minha. Foram dias de rios de choros e risos, além do frio na barriga de todas as incertezas do mundo.
Pois então: esta epopéia me trouxe até Cape Town, Africa do Sul para participar de uma prova de ciclismo que existe a 41 anos e é uma lenda por aqui. Na noite da minha chegada – depois de de mais um taxi que não esta listado acima – tratei de abrir a mala bike e ver em que condição estava minha parceira. Ela teve um cabo de freio quebrado e uma corrente torcida. Tive que procurar ajuda. E então descobri que tinha uma loja a 750 m do meu hostel. Quando cheguei lá, eles não consertavam meu tipo de bike. Na linguagem universal do desespero, pedi que desenhassem um mapa de onde poderia estar minha salvação. E não é que estava apenas 400 metros dali? Com uma quadra de subida, é verdade, e mais “N” pausas para tomar fôlego, respirar e chorar. Cheguei. O nome não poderia ser mais emblemático: Revolution! E a primeira “pessoa” que vi quando entrei foi o Che Guevara: um latino como eu – viva! – estou em casa.
Quando o responsável da oficina me disse que precisaria de 3 dias quase tive um treco: foi como se toda minha jornada até aqui tivesse terminado ali…mas, logo em seguida – como tantas vezes na vida veio um pouco de ar ou razão e decidi que eu não ia me entregar sem lutar. Nunca. Veio tambem a repetida fala da motorista de Uber que me levou para o trem: “You are a very strong woman”. Ela estava se referindo aos 23kg da mala bike, mas eu levei para o outro lado. E acreditei. E a very strong woman aqui teve outro rompante de choro e foi socorrida por um mecânico que trouxe um lenço para assoar meu nariz que mais parecia um lençol. Logo em seguida a redução do prazo de conserto para 2 dias. E eu me dei conta do que estava acontecendo quando a mão tremia tanto que eu quase não conseguia assinar meu nome. Mas assinei. E deixei lá a bike. E logo pensei que se não poderia pedalar, claro que eu podia fazer outro tipo de exercício para extravasar a tensão e lembrar meu corpo do desafio que o aguarda.
Caminhei então 17km, me sentindo um misto de analfabeta e de adita em recuperação – onde cada passo é uma vitória descomunal. Em um trânsito com mão inglesa fui reaprendendo a atravessar a rua (mesmo sem ter nimguém para dar a mão) e tomei coragem para atravessar a primeira avenida por uma passarela. Cheguei ao Porto – ou seria comforto? – e senti nele um pouco dos lugares pelos quais já passei e isto me fez sorrir e conversar com os amigos pássaros.
Segui adiante e cheguei ao mar. Ah! O mar…enchi os pulmões dos ares de minha terra…estremeci e me acalmei…comecei a relaxar – afinal, eu não tinha a obrigação de assimilar tudo por osmose, como em um passe de mágica…é muita emoção envolvida…
Uma placa na orla falava sobre as grandes navegacões e logo em seguida tive a oportunidade de colocar os pés no Oceano no justo no momento em que um grupo de estudantes parecia ter o seu primeiro contato com este universo líquido. Foi poesia pura. Deslumbramento. Coração disparado. Agora que coloquei os pés nas duas margens e lembrei do longo caminho que me trouxe até aqui entendo a sua grandeza e majestade. Não é o mar…é “O” Oceano Atlântico – que desafiou nações e navegadores através dos tempos e que nunca deixará de exercer seu fascínio na humana-idade (humanidade). E é aí que eu sinto a minha pequenez descrita nas primeiras linhas. Até aqui a bike me trouxe. Mais do que justo se eu a carrefo um pouco. Tudo que é mais importante na vida ela tem me ensinado: o valor da simplicidade, a graça do vento na face, o amor pelo caminho…a humildade, a parceria, a qualidade do tempo da vida vivida e suada e a gratidão dos 5 sentidos….
Então: pés no Oceano, olhos no horizonte, coração no presente…e o primeiro por do sol compartilhado e vivido com muito amor…

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