A Busca do Coração

…um dos (novos)  grandes e velhos amigos que a vida me deu dia destes que convidou para jantar. Depois de eu contar algumas as novidades e conquistas profissionais, ele pegou minhas duas mãos,  envolveu com carinho e disse: “e agora…a pergunta que não quer calar: e o coração?” Eu engasguei um pouco, mas confessei que já tive alguns amores – não correspondidos – mas que confio que no tempo certo, um dia acontecerá. Confio que o há de vir, virá. Mesmo assim, não tem como não engasgar. Todo mundo me pergunta. Eu também me pergunto. E adoraria ter uma reposta. Mas, não tenho.   Assim, enquanto não encontro respostas – ou alguém que substitua todas elas – sigo pelo mundo afora, aprendendo com a vida a acalmar o coração…

Pois foi agora, em uma destas viagens literais que no caminho lembrei de  uma das provas esportivas mais emocionantes que fiz em minha vida: Travessia do Estreito de Bósforo,  na Turquia. O desafio de nadar 6,5 km de um continente a outro em águas abertas, ao mesmo tempo que fascinava, também metia medo! Igualzinho à vida. Igualzinho à busca de um coração. Ao mesmo tempo que eu queria logo chegar, também queria que aquela profusão de sentimentos maravilhosos não acabasse nunca…e isso inclui o friozinho na barriga e o desespero de ter passado a linha de chegada e por isso ter que enfrentar com calma e persistência muitas braçadas contra a correnteza, que pareciam inglórias. 

Na ocasião, no congresso técnico que antecedeu a prova a orientação foi a de que o Estreito possuía a corrente e a contra corrente. Ou seja: poderíamos usar o movimento da água a nosso favor ou contra. E como saber? Igualzinho à vida. Igualzinho à busca de um coração. Na verdade, talvez lá  fosse um pouco mais fácil: nos avisaram que a corrente tinha águas mais geladas enquanto  que a contra corrente era morna, muito mais agradável para nadar. Recordo que em alguns momentos durante a prova eu me distraia admirando a paisagem e buscando golfinhos e o corpo relaxava em temperatura aprazível. Por ironia, nestes momentos ao invés de me aproximar de meu objetivo o que acontecia é que eu ficava um pouco mais longe da linha de chegada. Então, contra o instinto, eu tinha que “cortar” o comodismo e buscar o desconforto, buscar a água gelada que fazia lembrar as dores do corpo – e que eu era um corpo estranho naquele meio – para poder avançar. 

Percebi que a busca de um coração parceiro é bem assim como uma travessia intercontinental por águas abertas. Tudo o que eu queria era encontrar logo minha cara metade – a linha de chegada ou o ponto de partida? – mas não dá para se acomodar. É preciso buscar a corrente  – que os turcos bem ensinaram!  – não é a zona de conforto. Quantas vezes eu acreditei? Me deixei levar pelo calor das emoções….mas, infelizmente não deu. Era contra corrente… As vezes tenho também a sensação que, tal como no Bósforo, passei a linha de chegada e estou naqueles momentos eternos nadando contra uma correnteza fortíssima. Perdendo ar. E força. E quase a esperança. Lá na Turquia eu venci. E só venci porque lá pelas tantas, larguei o medo e confiei. Abandonei o pânico e vi que precisava de calma. Calma e fé para voltar atrás e superar a contra corrente. Na busca de um coração ainda não venci. E me sinto contra a corrente apesar da confiança que tenho que o meu dia chegará. Não sei exatamente em qual momento nem como, mas  na natação eu venci a batalha! Quando percebi estava subindo no pier e sendo abraçada por uma toalha fofinha que marcava a conclusão da prova, quando vi meu nome no painel da prova. Inclusive, como em  passe de mágica, parei de me sentir lutando sozinha ( e perdendo! ) e vi com espanto e admiração que atrás de mim, ainda na água, havia um verdadeiro cardume de nadadores que ainda não tinham concluído seu objetivo. E que buscavam o mesmo que eu. Espero sinceramente que estes momentos que estou vivendo sejam aqueles instantes que precedem o abraço. Estou cansada. Quero muito chegar. Quero muito encontrar. Mas tenho que lembrar de não cair na armadilha cômoda da contra corrente…

28/04/17

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