BraUyAr: uma mulher, três países e a vitória da vida

Podia ser o Caminho dos Faróis – ou da luz! – mas resolvi  batizar de BraUyAr: as iniciais dos 3 países que sonhei (ousei) cruzar. Brasil, Uruguay e Argentina.

Foram 2 fronteiras geopolitícas e infinitas outras que não estão no mapa…Comecei por vencer o medo da morte. Vi um farol – desta vez de carro – escutei a buzinada e fechei os olhos. Me entreguei ao criador para a passagem… mas não sem antes praguejar que seria “O” fracasso de minha vida morrer desta forma, contrariado tudo que acredito. Beijando o asfalto – de cotovelo e joelho – e segurando forte a magrela senti o tranco e depois o alívio. Abri os olhos e ainda estava ali. Consegui levantar, e só havia sangue….os ossos estavam todos ali, inteiros! Chegou a hora de levantar a bici – imaginei que ela não teria a mesma sorte. Mas foi menos pior do que eu imaginava: a roda dianteira se transformou em um 8 – simbolo do infinito – e mesmo com dificuldade, ela ainda correspondia a sua natureza: o movimento. Como eram os primeiros quilômetros do primeiro dia de viagem eu decidi que não poderíamos parar, senão acordaríamos abruptamente do sonho transvestido de pesadelo. Ignorando a chuva, o sangue e a razão boleei a perna e subi na bici. Enquanto eu tentava completar um Pai Nosso para buscar o equilíbrio, identifiquei que o barulho da roda torta batendo no disco do freio me dizia alternadamente: “Tá bem? Tô bem!” – como se ela me perguntasse e ao mesmo respondesse. Uns quilômetros adiante – ainda sem ter conseguido chegar no “amém” vi um posto de combustível e resolvi perguntar se havia uma borracharia, na esperança de melhorar um pouco aquela situação. Não tinha. Mas na saída um senhor ofereceu para colocar as bicis na sua Kombi e me levar até a borracharia. Aceitei. Chegando na borracharia e vendo que ela estava fechada o senhor disse que não gostava de ver ninguém empenhado e se propôs a nos levar até o local do pernoite. Era um homem simples, coração gigante e nome de flor: Valdelírio. Acomodada na Pousada Renascer  – o nome não poderia ser mais preciso – fui tomar um banho para limpar os machucados e tentar sair do estado de choque. Quando sai, meu companheiro de viagem tinha deixado uma lata de cerveja e um copo de cachaça para que eu “me a acalmasse”. Eu não estava nervosa, eu estava ainda sem entender o que tinha acontecido…mas estava viva!!! Mais tarde, na janta, o pessoal da pousada perguntou o que tinha acontecido e o meu parceiro se apressou em dizer que “nós tinhamos mosqueado”. A resposta dele me incomodou….acho que eu estava voltando a razão.  Felizmente comsegui dormir e com algums pulos a roda ficou menos “8” e mais um “S”  e deixou de perguntar  e responder. Acordei no segundo dia da Cicloviagem ainda meio perturbada e pensei com quem eu poderia conversar para acalmar meu coração e seguir viagem. Pensei em amigos de alma, amigos com larga experiência em cicloviagem…mas acabei optando pelo amigo jóquei que do outro lado do mundo desafia a vida a cada corrida e que muita vezes viu a morte de perto como eu.  E lá estava eu, no povoado de Bacupari, interior do interior do Rio Grande do Sul, conversando com Singapura…mais uma vez encontrando nos cavalos e cavaleiros a inspiração para seguir. Deu certo! E, para evitar o medo decidi que precisávamos seguir pela beira da praia, pelo menos até eu arrumar a roda ou recuperar a confiança. Meu companheiro de viagem não gostou muito da minha escolha e também de que com todas estas minhas buscas tardamos a sair. Contudo, a esta altura pouco me importava o que ele pensava pois eu já estava quase recuperada do choque e já tinha me dado conta que o causador do meu acidente tinha sido ele, ao desviar de uma cobra no asfalto e tocar sua bicicleta para cima da minha como se não houvessem carros (era “apenas” a temida BR 101, também conhecida como Estrada do Inferno). Era 24 de dezembro de 2017. Pedalamos entre dunas com um chuvisqueiro fino até chegar no mar e o horizonte era devastador: vento forte e contra, beira da praia deserta e repleta de animais mortos. Vi uma tartaruga que mais parecia um sofá  de tão grande. Morta, começando a se deteriorar. Por mais desolador que parecesse o cenário, o vento que me cortava parecia também limpar aquela memória ruim do dia anterior. A esta altura meu “parceiro” estava com a cara mais amarrada que o tempo, tomou dianteira e eu atrás só pensando como eu o avisaria que ele não podia seguir comigo. Esta viagem era meu sonho de anos eu não poderia coloca-lá em risco por um marinheiro de primeira viagem. Eu seguia pedalando esperando que a bike me desse as respostas….eu olhava a quantidade de bichos mortos na orla e só conseguia pensar que eu era uma privilegiada por ter sobrevivido ao acidente do dia anterior. Lá pelas tantas passei por uma tartaruga virada e percebi que ela mexeu. Voltei. Deixei a bici de lado e em um momento de extrema emoção peguei-a nos braços e a levei para dentro do mar. Ela voltou trazida pelas ondas. Na hora não raciocinei que ela sabia caminhar e nadar e que bastaria desvirá-la. Peguei ela de novo e levei bem no fundo do mar….até que ela tomou o rumo do oceano. Chorei. De felicidade, de alívio. Estávamos unidas no quase morte, seguido de muita vida. Devo ter soltado um sorriso de orelha a orelha e naquele momento me senti feliz ao poder proporcionar a um ser vivo a mesma chance de seguir que eu tinha recebido na vespéra.  Nisso olhei em frente e vi que meu parceiro me esperava. Fui empolgada até ele contar  e antes que eu pudesse  seguir a narrativa ele me cortou cético e disse: “vi o que fizestes, ela não vai sobreviver”. Neste exato momento terminou a viagem para ele. Eu não  viajo para chegar. Eu viajo para viver o caminho e celebrar a vida! Ainda bem que os carros que pararam para não passar por cima de mim – depois daquele que me atropelou – não me senteciaram antes. Ainda bem que o Seu Valdelírio me doou seu tempo, gasolina e coração para me levar adiante….O vento seguia forte e contra  e dos 120km previstos para o segundo dia da cicloviagem completamos pouco mais de 35km até chegar a um vilarejo que mais tarde descobri que se chamava Farol da Solidão. Um carro com a carcaça rosa, de madeira e lindos girassóis me chamaram a atenção em uma casa encaixada nas dunas e com uma simpatica cerquinha baixa. Eu fui lá tirar uma foto quando do outro lado vi um senhor e perguntei onde estávamos. Ele me respondeu convidando para um café. Nisto chegou a nuvem que me acompanhava – a quem foi estendido o convite – mas ele negou. Eu aceitei. Comecei um prosa gostosa e antes que eu percebesse estava ali chorando e contando todas mazelas que eu havia passado. Nisto me ofereceram um pastel de marisco que foi – e sempre será! – o melhor que comi em minha vida. Poder falar – e ter quem me ouvisse com o coração  foi o mais lindo presente de Natal que recebi em minha vida.  Lá  pelas tantas, a nuvem berrou lá  fora meu nome e eu hesitei em atender ao chamado, mas o velho pescador me disse com calma e carinho: vai minha filha. Fui. O pseudo parceiro me olhou e disse: a viagem acabou, não? Serenamente eu respondi: para você! Ele devolveu minha barraca e evaporou…Voltei para a prosa e meu salvador perguntou o que eu queria fazer. Eu de fato não  sabia e aceitei o convite de conhecer a casa. Este pescador me mostrou sua casa e como estava recebendo também outro pescador cuja casa tinha incendiado recentemente. Ele tinha um coração gigante. Me convidou para pernoitar. Eu hesitei. Mas não tinha nem cabeça, nem pernas para continuar. Então, fiz a contra proposta: se o senhor me deixar dormir na rede, eu fico. E assim foi. Linda e inesquecível Noite de Natal com a brisa agora suave, o barulho do mar e a luz do farol que ia e  vinha em um doce pulsar. Ali embalei infinitos sonhos…me senti na manjedoura, enfim leve e feliz…pronta para a viagem. Ali deixei de ser uma ciclista e me transformei numa cicloturista de verdade, de alma e coração. No dia seguinte sai cedo, o vento virou a meu favor, o sol me beijava suavemente e eu segui pelo “espelhinho” como me indicou o pescador, evitando olhar para a roda dianteira que seguia torta e parecia que ia cair. As vezes me via no meio de uma nuvem de aves das mais variadas cores, formas e cantos…nossas sombras se misturavam na areia e eu me pegava rindo sozinha. Me sentia em um filme da Cinderela, quando as aves ajudam a menina sonhadora a se arrumar e lhe traziam presentes. O caminho foi repleto de dádivas. Cada dia mais maravilhoso que outro. Cheio  de aves, cheio de vida, cheio de gente com brilho nos olhos, de anjos da guarda…Cada dia parecia uma vida….boa….intensa! No segundo dia foram 100 km até ser novamente carinhosamente acolhida em uma pousada em Tavares. A cada cidade, tentavam arrumar minha roda mas não haviam recursos….e cada um dava uma pisadinha a mais. Intenções valiosas e animadoras, mas o fato é que eu só consegui de fato uma roda nova 350km depois do acidente e ainda estranhei que no dia seguinte ao conserto quando eu achava ter feito uns 50 km já tinha percorrido mais de 90! O restante da viagem com certeza daria um livro e me renderá ainda muitos textos…mas escolhi começar por este trecho pois eu, que há mais de 8 anos viajo de bike na maioria das vezes sozinha já cansei de escutar que isto é um perigo para uma mulher. E mais, quando compartilhei com amigos meus planos de BraUyAr e dizia que não  iria sozinha me incomodava o suspiro de alívio da quase maioria absoluta das pessoas que dizia: que bom, teu amigo irá te proteger. Ninguém perguntava se o tal amigo tinha alguma experiência em cicloviagem ou mesmo sabia trocar um pneu. Eu sei. Ele não. Ele quase me matou por pensar que era o único na estrada e que todos deviam respeitá-lo por estar “vestido de ciclista”. Eu pedalo de vestido, de salto…e até  de tênis! Mas sei que o desafio é conviver com carros, animais, pedestres, outros ciclistas. É preciso pensar no próximo  e olhar o horizonte com atenção e humildade. Aliás, é como sempre digo para meus amigos que querem começar a cicloviajar: se abra para o caminho que ele se abrirá para você. Eu acredito nisto. Peço licença para a mãe natureza para ser parte dela: uma parte minúscula de um universo infinito. E esta irmandade me faz forte. Eu pedalei imensidões para descobrir que não tinha vazios. Que sou capaz de me deliciar com a (minha) natureza nos locais mais inóspitos e pulsar com uma força divina. Foram 20 dias e pouco mais de 1000km. 3 países. Todos os dias, o Universo lia meus pensamentos e tornava meus sonhos realidade. Aliás, nesta viagem aprendi também que se o caminho é mágico é  porque nós somos a varinha que tudo transforma! 
Roteiro da Cicloviagem: saí pedalando de Capivarí, RS, segui quase sempre pela beira da praia até São José do Norte. De lá balsa para Rio Grande e segui o pedal até Montevidéo. De lá ferry boat para Buenos Aires onde segui  com as explorações  cicloturísticas pela geande Buenos Aires.  

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