Quebrando o protocolo

O dia começou no hospital e terminou feliz. Quem poderia imaginar? A única regra desta vida é que não existem regras… A gente cresce ouvindo que tem eu ser assim ou assado para ser aceita e sem perceber esta orientação que quer nos proteger, nos traz, como se normal fosse, uma vida de auto mutilação: deixamos de ser quem somos para ser o que a sociedade quer – ou  tem mais facilidade para entender…

Pois é… eu vinha há um tempo com uma dor chata na coluna e no sábado chuvoso acordei sem conseguir me mexer. Tomei coragem e fui para a emergência. Me passaram direto para o raio-x, fiz uma infiltração, o médico me encheu de remédios, mandou procurar um especialista assim que possível. Apesar disso tudo, disse que não precisava me preocupar pois “este tipo de lesão é comum em ex-atletas.” EX-ATLETA? Como assim? Passei o dia tentando engavetar lágrimas, tentando não me abater, afinal, uma verdadeira atleta também é feita de duras provações. Do Hospital fui para uma loja de esportes comprar uns equipamentos que faltavam para a aventura esportiva programada para minhas férias daqui 2 semanas – sim! – a esperança é a última que morre!  Peguei um fim de feira e fui para o Mercado Público comprar minhas deliciosas excentricidades. Na espera, um de meus amigos da banca veio papear comigo perguntou como eu estava, me elogiou e eu agradeci, com os olhos cheios d´água… e, diante de uma constrangedora brecha, eu segui: estou mal, há um ano atrás eu estava nadando de um continente para o outro, como pode agora um médico me falar que sou ex-atleta? “Ele foi teu amigo de verdade. Toda dor que estás sentido vai te ajudar a virar o jogo”. Meu Deus? O que faz este anjo vendendo bacalhau? E, pasmem: ele contou que esteve de aniversário esta semana… casualmente, o mesmo dia do meu pai…Ele foi autêntico: xingou o cachorro que me mordeu, perguntou há quanto tempo eu estava parada e disse que percebia a diferença, que eu estava mais gordinha, que não estava tão mal…mas que eu não podia relaxar!

 Ele, assim como o médico, falou o que eu precisava ouvir. Chega de colocar a culpa no Pit-bull que me colocou minha vida de ponta cabeça ao me confundir com carne no açougue. Cadê a minha determinação? Cadê minha alma de eterna atleta que o médico não viu? Já não basta um corpo no qual eu ao me reconheço? Cadê a coragem de ser o que sou e não o que os outros esperam de mim: vítima, frágil, dependente, mulherzinha…

Não. Não sou o que querem. Sou o que sou. Acredito em sonhos que sonho acordada e exercito no dia a dia. Quero viver a poesia na vida e não nos livros. Sou GUERREIRA. Guerreira que quer muito encontrar um parceiro, que tenha coragem de discordar, de dizer coisas desagradáveis quando necessário, que construa em conjunto novos sonhos e que nunca me peça para deixar de ser quem eu sou. Eu farei o mesmo.

E o que tem a ver meus sonhos românticos com tudo isso? Eles são mais uma prova de que as fórmulas não existem. Quando fiz tudo como dizem as regras que deve ser, não deu em nada. Coleciono fracassos por silêncios, meias palavras e desejos velados… E a frase mais sincera e cafajeste que eu já disse para um homem em toda minha vida me rendeu bons momentos e uma amizade descompromissada que apesar da distância já dura alguns anos.

Por que eu não posso ser aparentemente contraditória se sou assim? Amar o silêncio e o anonimato da multidão; fazer barulho para buscar a paz; ser esportista e patricinha; ser natureba e ter meus luxos; ter fé em Deus e ter fé na vida? …por que eu deveria me enquadrar em um ou outro estereótipo, se me sinto (bem!) um mix de mundo? Assim como quem tem a pretensão de fazer tudo não faz nada direito, também quem dança conforme a música, querendo ser tudo, não é nada. Eu fui a mesma pessoa nos trabalhos de base no meio da favela e na cúpula do Conselho Mundial de Igrejas em Genebra. Porque, apesar das expectativas, eu sou só uma. Porque tudo se vai, todo tempo é precioso demais para tentarmos adivinhar como os outros pensam, para ouvirmos só o que todos têm coragem de dizer…

Melhor solidificar nossa essência e, quem sabe –  e sem explicações –  se transformar em imã… viver autenticamente, alimentando afinidades, cultivando valores que nos fazem bem, aprendendo diariamente o amor próprio com o respeito e vivência do que nos faz únicos? Sem medo de pagar mico, sem medo da verdade ou da ignorância dos fracos que seguem a boiada!

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