Olhos. Ou o novo idioma da pandemia

Esta semana tive que sair de novo. Foi a terceira vez em mais de 40 dias. Uma verdadeira revolução para quem nos últimos 5 anos nunca ficou mais do que 2 dias seguidos em casa e comemorava pelo menos 1.000 km pedalados a cada mês. Mas eu me sinto feliz em poder dar a minha contribuição na crise da pandemia.

Cada saída – que não ultrapassa nem a casa dos 20 km – é para mim uma viagem a outro continente: muitos preparativos, frio na barriga, emoção à flor da pele e reflexões mil. Eu que amo dar bom dia – em qualquer que seja o idioma – percebi nesta última saída que terei que desenvolver uma habilidade adicional: falar com os olhos. Se na primeira saída coloquei a máscara apenas quando me aproximei do centro da cidade, desta vez já sai “mascarada” de casa e me flagrei sorrindo por baixo dela querendo saudar a vida – que segue – e confortar as pessoas – com as quais me solidarizo. Ver o catador de latinhas, o varredor de rua e mesmo o pedinte da sinaleira de máscara não me deixou dúvida: meu sorriso, nossos sorrisos, serão por muito tempo ainda velados.

Há algum tempo atrás, assisti o emocionante  filme sobre a vida do físico Stephen Hawking, que sofria de Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) e por isso tinha quase todo o seu corpo paralisado. Mas sua mente não parava. E seus olhos também não. Fiquei impressionada com a capacidade do ator que o interpretou de “dizer” tudo apenas com os olhos. E a mensagem era incrivelmente clara. De repente, o desafio da ficção pulou para a vida real. Eu quero que meus olhos – janelas da minha alma – possam dizer que meu coração pulsa, e que apesar do medo, eu não vou desistir! As palavras podem ser abafadas pela máscara, mas os sentimentos nunca!

Cheguei no Mercado Público, amarrei a bicicleta no poste habitual e fui cumprir meu objetivo: comprar os víveres, como diria minha mãe. Aliás, esta palavra, sinônimo de mantimentos, nunca foi tão precisa. Pelo menos entre os que trabalham, vi que a máscara já se tornou companheira diária. Ainda bem. E foi também  com alegria que constatei que o açougueiro me reconheceu, mesmo “mascarada”! Neste momento me dei conta que além de falar com os olhos, teremos, mais do que nunca, olhar nos olhos. E isso é bom, é maravilhoso!

Na volta para casa, pelas ruas quase desertas de uma cidade fantasma em pleno dia útil, pude exercitar meu novo idioma, saudando uma senhora idosa que me sorriu da janela. Ok, confesso que para ajudar, me curvei também em reverência. Um pouco mais adiante, passando pelo parque, parei a bicicleta para “conversar” com um carcará que observava em paz sua natureza. Cena antes impensada em plena capital gaúcha. Ele me olhou nos olhos e me contou que está feliz por poder baixar a guarda e desfrutar o meio ambiente. Foi mágico. Quando força e vida em sue olhar. Compartilhando com ele o medo do bicho homem, resolvi seguir, ainda que a conversa estivesse boa. Ele seguiu na sua paz, me acompanhando de longe, parado, enquanto eu pedalava para casa.

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