De pernas para o ar

O mundo está de pernas para ar. Que espetacular! Porque acredito do fundo do meu coração que nada como umas boas chacoalhadas para a gente perceber que não existe apenas um ângulo e ver as coisas sempre da mesma posição nos torna egoístas e funcionalmente cegos. 

A gente reclama na feira de preços de 1 dígito e compra smartphones de 4 sem pechinchar. Os produtos de 1 são “feitos” em uma parceria do homem com a natureza, tem um tempo longo de espera, resultado incerto e variáveis incontroláveis, como o clima. Viva o agro, que nunca pára e nos alimenta – literalmente. Enquanto isso o gadget que custa 4 dígitos é feito em série, em ambiente controlado e a produção está assegurada por processos altamente controlados. Não questiono aqui a tecnologia, mas os nossos valores. Por que este instinto de valorizar mais o que custa mais caro em dinheiro? E, a propósito, dinheiro se come? Como então vivem os pássaros e os animais no campo?

Nesta pandemia ganhamos a oportunidade um novo olhar para o que é essencial. Os profissionais de saúde, ok: são incontestáveis. Mas você diria que um gari, um motoboy ou um atendente de supermercado – muito provavelmente apenas com formação básica – são? Sim. Eles são. E nós, com nossos diplomas e voltas ao mundo, podemos rever nossas rotinas e ficar em casa. Eles não. Se ficarem, nós estamos encurralados. E os líderes religiosos, em que grupo se encontram? As reuniões foram suspensas mas eles têm feito um trabalho importantíssimo e muitas vezes tão invisível quanto o vírus de apoiar os que sofrem e se angustiam com toda esta situação. Se pode parecer pouco, eu discordo completamente pois sinto que as palavras são um abraço, quando os braços não podem nos alcançar. Eu, particularmente, quando ia ao culto, ia muito mais pela vivência em comunidade, pelas trocas e carinhos. Afinal, Deus é onipresente e não podemos esperar o Domingo de manhã para rezar. E que mal pergunte, quem cuida os cuidadores? Não são eles tão humanos quanto nós e neste momento com a responsabilidade extra de acalmar nossos corações?

O mundo está de pernas para ar. E chacoalhou também a nossa rotina. O tempo outrora tão escasso virou, como diria o Menino Maluquinho de Ziraldo, um amigão! Com o tempo que “perdíamos” em deslocamento, filas e outras burocracias podemos agora cultivar relações. Podemos semear carinho, interesse, escuta. Podemos enfim enxergar, deste novo ângulo, que o mundo não se move ao nosso entorno. Bem pelo contrário, somos uma pecinha minúscula em uma engrenagem global que desconhece fronteiras.

Temos aí, os ingredientes para um novo essencial, com mais essência. O mundo está de pernas para ar, mas, quem sabe, essa não é a oportunidade para o nosso coração ficar mais perto da Terra? E nesta proximidade, que tal aprender a pulsar no ritmo da natureza e não no frenesi do mercado de falsas necessidades?

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