Vencendo Red Hill – o segundo dia

Acordei e espiei pela janela…as montanhas haviam sumido e uma chuva fina convidava à preguiça…no roteiro do dia estavam “apenas” cerca de 30 km, então me dei ao luxo de arrumar muito vagarosamente os alforjes.

No térreo um gostoso e totalmente britânico café da manhã já me aguardava: ovos mexidos, bacon, tomates, cogumelos e torradas – e Forrest me esperava embaixo da mesa, do lado da minha cadeira, deixando claro que estava aberto para partilhar.

Mais uma vez, o Universo me deu aquele empurrãozinho e quando montei a bike e fui tirar uma foto na frente da casa com Forrest,  o meu “ami-cão” tinha até um discreto sol…

Dei mais uma volta por Kommetjie e cheguei até o Farol de Slangkop. OS faróis sempre são para mim inspiração e poesia, na África do Sul, ainda mais, eles são vitais em um litoral tão dramático e desafiador para navegadores de todos os tempos. Me despedi do farol e segui, rumo a Simons Town. Conforme havia repassado com Erick no dia anterior, eu tinha duas opções para chegar ao meu destino, e é claro que eu escolhi a mais longa, selvagem e com mais montanhas!  Parando mais que pedalando eu não resistia a tirar muitas fotos da paisagem e rapidamente (em distância, não em velocidade) eu já estava mais alta que a torre do farol. Enquanto pedalava lentamente sentia com o olfato aguçado toda a minúscula beleza do fynbos – um bioma encontrado apenas na Costa Sul Africana (e dizem que também na Patagônia – vou ter que pedalar até lá para checar!) . Como estava um amanhã úmida, era possível sentir o cheiro de mel no ar, impressionantemente forte em relação ao tamanho das minúsculas flores.

Quando eu cheguei no primeiro cume, vi um horizonte que me era familiar: Misty Cliffs –  eu passei por lá no Cape Town Cycle Tour*, mas no sentido contrário. A África do Sul é tão linda, que é sempre preciso olhar de todos os ângulos, e por mais que se olhe, a beleza parece sempre se multiplicar. Como lá é mão inglesa, aproveitei que quase não tinha movimento e andei um pouco pela contramão, para ficar mais perto do Oceano…repetindo o ritmo de pedalar quase parando – parando o tempo todo para fotografar. Mais um pouco e cheguei em Scarborough e quando parei para registrar a “Mimosa Road” (adorei o nome!) esta parada se transformou na descoberta de um universo! Primeiro, achei lindo e completamente a calhar que os canteiros de flores ao invés de cascalho, tivessem restos de concha. Depois, a placa sinalizando o amor aos cliclistas, um “cyclist friedly coffe stop” e uma linda escultura de arame de um ciclista pedalando. Que dúvida que parei mais uma vez para novos registros fotográficos. Logo me enamorei de uma série de artesanatos com miçangas, modalidade muito comum na África do Sul. Como um dos motivos que me levou a este lindo país foi treinar meu inglês, não me esquivei quando o artesão veio conversar comigo. Estava em um papo com ele, contando que estava viajando de bicicleta e por isso não poderia levar suas artes comigo quando ele me confessou  que um de seus sonhos era viajar de bicicleta. Senti um arrepio na espinha. Mais uma vez, acreditei que estava no lugar exato, no momento preciso e quando desviei levemente o olhar para o lado, vi uma de suas obras que pareceu um recado do cara lá de cima para eu não esmorecer: “Faith” (fé). Nisto Venie – o artesão do Zimbabwe – contou que a linda escultura do ciclista era obra sua. Eu declarei minha admiração e mostrei a foto no meu celular. Pedi uma selfie e depois enviei para ele  por e-mail junto com uma mensagem encorajando-o a viajar de bicicleta. Paz e alegria fortalecerem meu corpo e segui adiante, sorrindo  com a beleza das linhas tortas e recados certeiros de Deus.

Mais adiante, me dei ao luxo de outra parada demorada, para conferir uma loja – na verdade, um grande jardim – de esculturas, que já tinha me chamado a atenção quando passei durante o Cape Town Cycle Tour. Aflorou meu lado jornalista e cheguei até a gravar uma entrevista com o artesão que me atendeu e me explicou com paciência todo o processo de criação e finalização de uma escultura. Coisa de meses. Aqui, uma curiosidade comprovada em todos meus papos desde que cheguei no novo continente, há quase um mês atrás: existem muitos emigrantes de outros países do continente africano na África do Sul. E grande parte dos artesãos – na minha amostra 100%! – são do Zimbabwe e neste jardim de esculturas, até as matérias prima vinham lá.

 Saí do caminho conhecido e encarei o desafio de cruzar Red Hill. Além de ser uma subida íngreme – marca registrada destas lindas terras  – a região possui uma área de moradas mais humildes e por isso fui advertida que seria perigoso passar lá. Não sei se é meu olhar cor de rosa ou meu encantamento de cicloturista,  mas as favelas na África do Sul parecem mais dignas – não é aquele amontoado de gente – as casas tem apenas um andar e parece haver mais espaço entre as moradas. A vista de Red Hill é incrível, só para variar! Um pouco mais adiante, percebi um movimento no mato e logo identifiquei um senhor colhendo frutos. Roubei uma foto. E estava louca  para roubar umas frutinhas, mas ao notar minha presença ele demonstrou certo constrangimento. Me passou pela cabeça que a bela cena de saborear frutos da terra poderia ser a única alternativa para despistar a fome. Segui. Não sem antes identificar as frutas  – são específicas de Cape Town  e se parecem muito as framboesas que eu colhia no sítio quando era criança e enchia minhas mãos de espinhos.

Ao superar Red Hill cheguei no topo e vislumbrei meu objetivo: Simons Tows. Então eu tinha conseguido, tinha dado a volta no Cabo da Boa Esperança. Que emoção! Já via de novo a encantadora Cape Town no meu horizonte. Meu coração disparou. Mais adiante, tinha uma espécie de belvedere e tentei fazer uma selfie, mas era tanta beleza no cenário que faltou mão. E, para minha surpresa, uma senhora parou o carro próxima a mim e se ofereceu para tirar uma foto. Aceitei. Ela desceu do carro e disse que me viu de longe e quis ajudar…e também  saciar sua curiosidade. Contei brevemente para ela minha história até que um tipo com cara de poucos amigos começou a se aproximar à pé e decidimos ambas não arriscar e seguir viagem.

De repente, a estrada sumiu. Constatei que para chegar em meu destino teria que descer muuuuito. E para  minha felicidade e também para prolongar o prazer do visual, não era uma descida reta e íngreme e sim uma sequência de muitas e muitas curvas completamente fechadas, parecia mais uma pista de fórmula 1, na qual eu pedalava em uma reta, olhava para o lado e via, alguns metros abaixo a continuação da estrada. Um zig zag incrível, ou joelhos, como costumo dizer. Deslizei suavemente e quando vi que me aproximava do nível do mar, reduzi mais ainda. Em um trecho, havia muitos eucaliptos, com um cheiro que eu identifiquei das minhas pedaladas pelo Uruguai. Especulei que o clima frio deve ser o responsável por este aroma que eu não identifico aqui no Brasil, afinal, a África do Sul e o Uruguai estão mais ou menos no mesmo paralelo.

Cheguei. Na verdade, cheguei no nível do mar, agora o desafio era encontrar a casa dos meus hospedeiros. Algumas voltas, muitas brigas com o GPS e eu comecei a subir de novo.  Quando olhei mais uma vez para checar o endereço, vi que não tinha erro. Realmente teria um paredão para “escalar” então me caiu a ficha do porque do “Heights” (alturas) no endereço. Não, não era figura de linguagem. Óbvio que empurrei a bicicleta e, confesso, até mesmo para empurrar foi duro. Duríssimo na verdade.

Não me lembro se toquei a campainha ou minha presença foi percebida e logo um portão se abriu. Mais subida! Mas desta vez, a bicicleta  ficou no térreo. Conheci Johan. E os dogs: Jasper, Zita, Gina e Dona. A sintonia foi instantânea. Assunto não ia faltar. Ele me mostrou a casa e eu confessei que adoraria ir conhecer os famosos pinguins sul africanos. Para ele não é novidade, pois faz parte de suas caminhadas diárias no nascer do sol com os cachorros. Mas Johan prontamente me convidou para uma caminhada e obviamente eu aceitei. Mais subidas e descidas… porém  à pé é mais fácil. Foi demais o a caminhada. Porque os pinguins são meio frustrantes. São realmente animais muito diferentes e que parecem não ter a menor curiosidade para interagir com os humanos. Eu bem que tentei, mas não tive retorno.  Voltamos a casa. Conheci então Elmarie e a empatia foi novamente automática. Me convidaram para a sacada e começaram a preparar um brai – o churrasco sul africano  que lembra bastante a parrija argentina, pois é feito sobre brasas. O visual era de tirar o fôlego. A casa tinha três andares e estava em um lugar alto (Heights!), voltada para o mar. Conversamos, comemos, brindamos: foram momentos inesquecíveis de troca e afinidade. Eles me perguntaram sobre meus planos e começaram a abrir mapas e viajar comigo. Me deram sugestões de lugares imperdíveis e acionaram contatos que pudessem me receber no caminho. Rapidamente, eram novos velhos amigos e futuros anjos da guarda. Falavam inglês, mas percebi que o Afrikaans era a língua do coração. E por falar em coração, Johan, Elmarie (e os dogs) entram no meu coração para ficar. E dormi feliz pois este sentimento parecia recíproco.

*Cape Town Cycle Tour é considerada a maior prova cronometrada de bike do mundo. São maravilhosos 109km ao redor de Cape Town que devem ser percorridas em 7 horas. Esta prova foi a “isca” que eu mordi e me levou para a África do Sul.

**Neste dia foram “apenas” 26,1 km percorridos, um ganho de elevação de 482 metros, e quase 4 horas de pedal. Ficou um tema de casa: rever minhas metas diárias de quilometragem no decorrer da cicloviagem…Confira minha atividade no Strava: https://strava.app.link/vbeYjkRrh5

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