A benção do isolamento

Culinária: a arte de expressar o amor

Não sei se foi a Lua cheia de ontem a noite – que prateou meu jardim e brilhou nos meus olhos – ou se foi um “simples” passe de mágica… Mas o fato é que de repente percebi o quanto tem sido linda,  poética e cheia de aprendizagens esta minha quarentena. Quase como uma cicloviagem….só que desta vez minha aventura épica é rumo ao meu próprio coração!

Primeiro eu não levei a pandemia à sério….exato como aqueles planos loucos que eu faço de sair pelo mundo à fora pedalando! Depois – diante do fato consumado – veio o medo: muito maior do que eu. Alternei momentos de choro e letargia. Até que eu respirei fundo e percebi no íntimo que eu não tinha outro caminho senão seguir em frente. De novo, como se fosse uma cicloviagem, fui montando aos poucos a bicicleta da minha rotina e checando cada peça, como se pudessse postergar um pouco o enfrentamento e ao mesmo tempo neste imtervalo entre plano e ação eu pudesse aproveitar para checar e ter convicção de cada detalhe. Na minha vivência de cicloviajante nos primeiros 20 km ou diante do primeiro contratempo vêm sempre a pergunta: “o que eu estou fazendo aqui? Eu não tinha outra coisa para inventar?”

Nestes dias de quarentena, a resposta tem sido fácil: eu estou vivendo um dia após o outro e aprendendo  coisas incriveis sobre mim. E não, não tem outra coisa para inventar pois o mínimo que posso fazer é ficar em casa e dar minha contribuição para a humanidade que amo, sem fronteiras! Ainda mais que dentre as missões da vida, eu apenas plantei uma árvore. Talvez o livro ainda seja escrito.Eu normalmente viajo sozinha e fiquei em casa da mesma forma. Como sempre, não por opção, mas sem ressentimentos. E aí esta a linda mágica destes dias… Se eu comecei o ano com o desafio de desenvolver o amor próprio, eu tenho construído ele gentilmente nestes dias de isolamento.

Todos os dias, eu cozinho para mim – sim, a culinária é de fato a arte de expressar amor! – e não é para mais ninguém. É para mim! Com todo amor, tempero e dedicação, assim como eu fazia biscoitos para os amigos e pudim para o amor. Cada dia, penso em combinar nutrientes, explorar novos sabores e oferecer para a pessoa linda que estou descobrindo um prato igualmente lindo. E eu me presenteio com uma mesa bem posta, um cenário agradável. Incluo neste ritual, como um amigo ensinou, o desafio de “beber a comida e comer a bebida” como uma forma de valorizar cada porção e não apenas “colocar para dentro” – como tantas vezes fiz em um misto de ansiedade e descaso. Coloquei alarmes para lembrar que entre uma refeição principal e outra é importante uma pequena pausa para um lanche.

Acordo todos os dias com uma pequena oração – que me envia uma pastora ciclista – e durmo fazendo uma meditação em grupo com outras milhares de pessoas ao redor do mundo. Eu sou ecumênica e sou amor. E quero ser cada vez mais. Acho linda e vital a diversidade.Tenho criado hábitos saudáveis e falado com pessoas que me são queridas….não porque tenha algo para contar ou pedir, mas porque sinto que o carinho fortalece como suplemento nenhum é capaz de fazer!

É tempo de reforçar a imunidade…e a humanidade! Tenho revisto conceitos, diante de tantos decretos e discussões do que é ou não essencial. Assim como consigo viver plena na estrada durante 2 meses ( foi a minha viagem mais longa)  com apenas 2 alforges, tenho vivido dias lindos no isolamento do meu lar. Em plena guerra declarada ao invisível, tenho também curtido a lentidão das pequenas coisas na vida que segue ainda que seja, por um tempo, difícil de detectar. Falo aqui das sementes de pimentão, que de repente se transformam em plantas e no horizonte estarão produzindo. Falo do levain, que depois de 5 dias começou a borbulhar com volúpia, me convidando para que daqui uns dias eu amasse um pão. Ao escolher as sementes e a fermentação natural é como se eu estivesse abrindo mão do carro para chegar pedalando ao final do dia ou da tarefa.

E assim como a bicicleta, a quarentena tem me oferecido lindas recompensas. E a mais importante, eu reconheci ontem, sob a luz do luar: amor próprio. Estas palavras tem se materializado no exercício dos meus dias. Estar comigo, afinal, não é castigo nem provação: é oportunidade! Pensando em ficar o maior tempo possível em casa, comecei a “racionar” comida e tudo mais e, de repente, percebi também que não é racionamento, é valorização: evitar desperdícios e usar apenas o necessário…que é tão pouco! Estou deixando de lado caprichos e assumindo carências. Mas se por um lado eu economizo aquilo que precisa de reposição externa, tenho usado sem moderação minhas emoções, percebo que quanto mais eu “uso” os sentimentos mais eles crescem e se fortalecem! E na lista de exercícios (na qual ainda não consegui incluir os físicos) estão a prática de pequenos dons, como pintar uma parede ou revirar a terra de um canteiro. E no exercício do amor próprio é sempre bom saber que temos capacidade de desenvolver tarefas simples e necessárias. 

O isolamento tem revelado também minha paciência e minha fé no mundo. Com aquele olhar generoso e complacente de uma mãe, tenho lido as notícias de um globo doente e de como enfim a natureza recebeu uma pequena trégua e me flagro pensado entre suspiros: “é só uma fase, tudo vai ficar bem. Bem melhor do que era!”

Finalmente, voltando para aquelas perguntas iniciais da cicloturista, a resposta ao final de cada dia, acompanhada de um beijo salgado e um sorriso prongado é: eu estou vivendo e sendo feliz. E não, eu não tinha outra coisa para inventar porque fazer o que se ama e desfrutar o caminho são as melhores invenções do mundo!
P.S. Quase todos os dias, lembro também com amor e admiração da mãe de meu afilhado que precisou passar os últimos meses da gestação deitada. Ela sempre dizia: ” se é o que eu posso fazer para que meu filho venha ao mundo com saúde, vou fazer”. E ele veio, prematuro, perfeito e lindo…e recentemente completou 7 anos de idade. Ficar em casa é assim tão difícil?

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