Uma ultramaratona em minha vida

Minha  mãe: nós éramos muito parecidas e por isso tínhamos nossas diferenças. Eu falo pouco dela, mas dentre as tantas coisas que ela fez por mim, tem algo que hoje vejo o quanto fez diferença na minha vida. Quando eu tinha 12 anos aconteceram grandes rupturas e mudanças na minha vida: minha avó materna faleceu (erámos muito agarradas e ela morava no mesmo prédio) e eu saí de uma escola pública e fui para uma particular.

Foi nesta época que minha mãe me pegou pela mão e me levou na Sogipa – um grande clube desportivo aqui do sul – e fomos percorrendo uma a uma as escolinhas de esporte. Ela disse que eu deveria escolher uma modalidade. E assim foi. Na Ginástica Olímpica, a piscina de espuma parecia sedutora, mas achei que não teria força (de vontade) para o restante. Na Ginástica Rítmica, com meu jeitão estabanado de ser, previ grandes acidentes. Fomos no Judo, Tenis, Esgrima, Volei….e eu me colocando defeitos para desculpar a falta de empatia com cada uma das modalidades que me foram apresentadas. Até que chegamos na piscina – a tradicional, de água mesmo! – e eu não tive dúvidas. Eu só tinha boas lembranças de quando eu era bem pequena e minha avó materna – Ilza Alice – me levava para o “país das maravilhas” – uma piscina térmica onde aprendi o amor pela água e me divertia imensamente com as atividades lúdicas que me ensinaram a nadar.

Inscrita então na aula de natação, nunca mais parei. Ou melhor… confesso que em determinado momento da minha vida larguei as raias e senti na pele e no meu desânimo a falta do esporte. Mesmo que o foco fosse a natação, no ambiente do Clube comecei a conviver com esportistas e atletas e compartilhar a emoção que o suor e a adrenalina trazem para nossa vida. É um mundo melhor – de disciplina e cooperação, de solidariedade e ação. De desafio e superação.

No final do mês passado trabalhei em uma Ultramaratona. Eram 82km. Minha função na chegada era entregar uma medalha e uma camiseta especial para os atletas que cumprissem sozinhos com o desafio de correr toda esta distância com um ingrediente dificultador a mais: o percurso era na beira do mar…com areia fofa, ondas, veranistas e tudo mais. Para mim, de difícil apenas identificar entre os tantos que chegavam, quais tinham feito a proeza em equipe, quais tinham feito sozinhos. Rapidinho,  comecei a reparar a diferença da cor no número de peito e assim que eu via um dos “meus” superatletas se aproximando, ia em busca de sua camiseta e o chamava pelo nome.

O que era para ser uma simples entrega, passou a ser para mim uma grande festa. Eu confesso que nunca fui muito da corrida, mas já fiz na bicicleta e na natação algumas atividades que poderiam se equiparar a uma ultramaratona. Assim, me veio na cabeça todo um filme: a decisão de realizar, a descrença de muitos que nos chamam de loucos, a preparação, os treinos, o friozinho na barriga quando chega a tão sonhada hora. E logo que a gente começa a se movimentar, iniciando o tão sonhado desafio, respira fundo e quase não acredita que enfim chegou o dia. E o exercício segue. No começo, os músculos respondem com facilidade….mas os quilometros vão passando e precisa entrar em campo o coração com todas as doces memórias que nos fazem fortes para seguir e bravos para querer vencer. O treino foi feito. As condições físicas avalizadas pelo treinador. Mas chega uma hora em que argumentos racionais não fazem a menor diferença. Saber que podemos não basta. É preciso avançar e tornar o sonho, realidade! A emoção nos carrega.

Lembrei de tudo isso enquanto gritava aqueles nomes de desconhecidos guerreiros. Me vi neles. Quando venço um desafio, demora um tempo para acreditar que é verdade….se a gente não sente nem bem o corpo, como é que vai acreditar que comseguiu? Por isso  eu chamava o nome deles com força. E com coração. Repetia que tinham sim conseguido. Recebi sorrisos inteiros, abraços salgados e beijos emocionados. Mal sabem eles o quanto a alegria de seus rostos cansados estava me enchendo de energias. Para mim, mais uma vez, a confirmação da teoria de que não se deve dar para receber, e sim pelo prazer de dar. Uma ultramaratona “passou” em minha vida, e eu lhe dei todo o amor que nutri pelo esporte desde aquele dia, longe no meu tempo, em que minha mãe me pegou pela mão e me apresentou um novo mundo…Uma ultramaratona “passou” em minha vida, e me mostrou que a própria vida é uma ultramaratona. 

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s