Irmanadas pela Coca

Eu queria muito saber o nome dela. Mas eu não perguntei. E quando voltei ao hostel e contei o “causo” e mostrei a foto “roubada” para meus hospedeiros e eles não tiveram a menor dúvida: “é a esposa de D. Júlio”. E contaram vários outros causos exemplificando a força e bravura desta mulher. Mas não lembravam seu nome. Falaram inclusive que ela era a força motriz do casal – era ela que fazia o tal D. Júlio sair para trabalhar… Talvez por isso eu nunca tenha casado. Não por querer glórias, mas por querer ser, com minha própria identidade…

Bem, ainda que seja válida esta reflexão, a ideia do meu texto era outra…Segundo dia da minha “Aventura nas Alturas” e eu aprendi com os pedreiros da ampliação do meu hostel como mascar as  folhas de coca para vencer o mal das alturas e lá me fui eu passear pelo povoado de São Pedro de Tiquina providenciar os mantimentos para seguir viagem, entre eles, as folhas de coca e a lejía- um misto de ervas que combinadas com as folhas de coca potencializam seu efeito. Na primeira vendinha, quando pedi as folhas de coca, tudo tranquilo. Porém quando pedi a lejía a senhora perguntou se era isso mesmo que eu queria, como se eu estivesse fazendo alguma contravenção. Eu confirmei e ela disse que não tinha. Segui com esta falta em minha lista e um bando de pulgas atrás de minha orelha.

Segui caminhando pelas ruas repletas de poesia deste belo lugarejo as margens do Titicaca. Até que me deparei com uma portinha sugestiva e a esposa de D. Júlio (queria muito saber seu nome! ). Primeiro pedi uma garrafa de água e quando ela estava me trazendo, perguntei pela lejía. Com surpresa, ela se virou para mim e perguntou: “tu  coqueas?” Diante da minha resposta afirmativa, esta mulher de transformou. Se aproximou. Me fez perguntas sobre a cicloviagem e comentou o meu percurso. Deu dicas, riu comigo. Foi lindo. Tudo bem que era apenas meu segundo dia na Bolívia, mas até então nenhuma boliviana indígena tinha me dado papo. E isso que sou de puxar conversa….

Desfrutando a proximidade e a conversa, me dei conta que devia isso a Coca. Foi ela que nos aproximou, que nos irmanou. Suponho que deixei de ser gringa no exato momento em  que me abri para um costume local – mascar folhas de coca com lejía – e deixei de apenas tirar fotos de um local lindo e sagrado. Levei isso na bagagem para o restante da viagem. E também ficará no coração paras as próximas explorações: o foco que nos une, e não nas diferenças! Quantos pré-conceitos temos com aquilo que não conhecemos. Qual o sentido de viajar senão para conhecer o diferente e irmanar-se no que nos aproxima? Fronteiras são invenções para criar mais instâncias de poder. Isso não me interessa. Muito pelo contrário: ao viajar quero colocar abaixo as distâncias do desentendimento. Quero me sentir humana, simples assim. 

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