O ar e a chuva: lições de La Paz

Voltar de uma cicloviagem é sempre difícil. Isto porque a gente se reconecta com a natureza,  passa um tempo de peito aberto, interagindo com o mundo, aprendendo na pele o sabor do vento, confiando na vida! …a gente a cada metro se convence de que é realmente necessário muito pouco para viver e que a beleza está sempre disponível para quem quiser ver…Logo, é horrível voltar para a complexidade  da vida moderna, repleta de consumismo, superficilidades e outros males…

Eu tenho um amigo que brinca, dizendo que existe a depressão pós pedal, que só é curada mediante um novo plano de cicloviagem. Eu senti muito isso quando voltei da África do Sul e da Europa. Contudo, agora no retorno da Bolívia e do Peru me sinto diferente. Como nunca senti antes. Me sinto forte. Me sinto calma. 

Numa cicloviagem a gente sempre aprende muito de logística: planejar o dia seguinte, pensar onde vai se hospedar, prover água e comida para o caminho e também, é claro, preparar a mente…

Na minha Avemtura nas Alturas, além de tudo isso, eu lidei com um novo desafio: o ar rarefeito. Por mais que eu lesse a respeito do “Mal das Alturas” eu nunca conseguia imaginar  como era. Confesso que até desdenhei..achei que não poderia ser tão dramático como estava na literatura. Mas é. E eu tenho que agradecer muito que em nenhum momento tive dor de cabeça ou naúseas – que também fazem parte dos sintomas. Eu “só” tive falta de ar.

Isso foi para mim uma grande lição: acreditar o quanto o invisível faz diferença em nosso corpo. Seja o ar (no caso!) ou mesmo os pensamentos. Com esta real limitação eu subi degraus como se fossem montanhas e comemorei cada metro. Foi uma cicloviagem em slow motion que me ensinou muito sobre o tempo. Eu que sempre fui muito ansiosa fui obrigada a ir com calma, pedalada após pedalada. Sempre que eu tentava acelerar, o coração doía – pedindo mais ar – e o corpo reclamava, ameaçando greve…Então eu fui devagar…e vi que também é bom! Vivi como nunca o presente, aproveitei a lentidão e coloquei os pensamentos em ordem como quem faz uma faxina minuciosa…e joguei tantos fora! 

O verão nos Andes também é a época das chuvas e esta foi outra lição linda maravilhosa! Lá a chuva vai  verdejando o horizonte e não é chuva demorada. Cai com intesidade e logo se vai. Na intensidade, chega até a virar granizo. Mas passa. Se na sequência não aparecer o sol, igualmente é lindo de ver a fumaça da água evaporando rapidamente, pois lá além de ser alto está relativamente próximo da linha do Equador e os raios solares tem uma incidência muito mais direta do que a que eu estou acostumada vivendo no paralelo 30. 

Até perdi a conta de quantas vezes na estrada passei pelas “divisas” de sol e chuva ou me deliciei com a sombra das nuvens nas montanhas. Era divino observar como a chuva caia em alguns lugares e outros não. Teve um dia até, que parecia que a tempestade vinha na carona da bicleta, com raios e trovões enquanto no meu horizonte havia céu azul. Isto me fez pensar que as nuvens – assim como os momentos difíceis – são um contraponto necessário em nossas vidas para que posamos valorizar o “céu de brigadeiro”. E foi justo depois deste dia do temporal que eu cruzei a fronteira do Peru de volta para a Bolívia e tinha um céu tão azul e limpo que se confundia com as águas do Titicaca. Talvez aí meu coração tenha entendido o ciclo da vida e se enchido de força, e de calma…esta diferença que percebo agora em mim. 

Depois de 17 dias longe de casa, 2 surpresas inesperadas e nada agradáveis me aguardavam: um vazamento de gás e uma infestação de pulgas. Em outras épocas – voltando de outras cicloviagens- teria surtado e caido abruptamente das nuvens para a realidade, me alquebrando toda durante a queda. Teria desperdiçado enerfia e ar à toa. Desta vez, foi diferente: respirei profundamente – agradecendo o ar que aqui abunda! – lembrei das nuvens, das subidas demoradas mas alcançadas e fiz um plano de ação. No meio do dia, já tinha tomado todas as providências e resolvido ambos problemas. E ainda pude passear de tarde e cuidar de mim. Acho que foi neste passeio que a “ficha caiu”. Sim! Estou diferente. Aprendi a respirar, valorizar o ar, e olhar o temporal com outros olhos. Olhos de quem sabe que toda a vitória é uma questão de tempo. Mas é certa. 

Te devo mais uma! Gracias La Paz! 

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