A Coca e o Coração

2019 foi um dos anos mais incríveis da minha vida. Ano sabático. Corajosamente parei tudo para planejar os próximos passos. Só não parei de viver….e vivi linda e intensamente. Vivi 2 meses na África do Sul.

Voltei cheia de vida e planos. Era recém maio e eu já tinha ganho o ano! De repente, surgiu um proposta inesperada: meu amor estava de férias e me convidou para pedalar na Europa. E mais: disse que tudo bem se eu ficasse mais um pouco para encontrar minha família. Pedalamos juntos de Paris a Frankfurt, atravessando a Bélgica e os Países Baixos. Foi uma cicloviagem dos sonhos. E eu segui sozinha Alemanha a fora, terra dos meus ancestrais. Passei pela Áustria, Suiça e voltei a Paris em cima de uma bicicleta! 

Até que no início de dezembro meu amor se foi…eu sentia que ele estava estranho, pressionei e ele disse que estava cansado – não de mim, espero! – mas do ir e vir para Porto Alegre. E simples assim, como quem vai a feira, ele antecipou sua passagem para São Paulo e se foi. Sumiu da minha vida e deixou suas roupas secando no varal…e eu chorando…Devo ter chorado mais ou menos uma semana, pensando em tudo de lindo que tínhamos vivido e não entendendo este fim abrupto. Foi como de repente, ficar sem chão. Eu tenho uma memória muito fotográfica e a cada foto, ao olhar nos meus próprios olhos lembrava os pensamentos que estava devotando a ele naquele exato instante. Foi difícil aceitar que ele significava para mim muito mais que eu para ele. Mas, como diz Schopenhauer, o amor é sempre assim, desigual, torturador. 

Eu estava neste misto de estado de choque e apatia quando me dei conta que para sair da letargia eu precisaria fazer algo lindo….por mim! E foi assim, que em plena aula de espanhol me veio o insight: Titicaca. Sim, o místico e sagrado lago mais alto do mundo, meu sonho desde a adolescência. Ideias loucas me visitam com frequencia..a minha diferença é que eu muitas vezes dou bola para elas e as convido para virar realidade….E assim, em menos de uma semana, já estava com o primeiro roteiro da cicloviagem e as passagens compradas para viajar na véspera de Natal e evitar mais “chororo”…

Faltava uma semana para a viagem e resolvi fazer um boa ação – doar sangue – e para minha surpresa, pela primeira vez em 25 anos que sou doadora fui negada. O veredito? Heritrócitos baixos, trocando em miúdos: poucos glóbulos vermelhos – justo os que eu mais iria precisar para pedalar na altitude! Pronto! Só faltou eu comer prego…..fiz uma intensiva na alimentação. Cudei como nunca de mim. E comecei a chorar menos. 

Na véspera da viagem, outro fato marcante: o quadro da bicicleta que eu levaria quebrou. Seria isso outro indício que eu deveria abortar os meus planos? Como sempre, procurei encontrar a versão boa: o cara lá de cima estava me protegendo – me alertando para cuidar da saúde e agora também da bike. Deu o tempo certo de preparar a outra bicicleta para embarcar!

Chegou a hora de partir…e eu sempre atenta  aos sinais pelo caminho..a gente vê tantas coisas, mas algumas parecem “plantadas” exatamente para nós. Eu estava aguardando o embarque e chega uma família. A menina usa um abrigo que tem escrito bem grande na perna: “clear your mind”. Baita dica. Difícil de executar….mas eu estou tentando! 
A viagem aconteceu e foi – está sendo! – linda. No final da primeira semana visitei o Museu da Coca e lá encontrei uma frase que fez todo sentido para mim: “E o Deus Andino disse: guarde com amor suas folhas e quando sinta dor em seu coração, fome em seu corpo ou obscuridade em sua mente, leve a sua boca estas folhas sagradas e encontrarás: amor para tua dor, alimento para o teu corpo e luz para a tua mente” 

Então não é que eu vim ao ligar certo? E não é que foi bem assim? Preocupada com o coração que batia acelerado pedindo mais ar e folhas de Coca, fui descobrindo devagarinho que a vida está em mim, que eu sou luz independente de ter ou não alguém para dividir comigo o caminho…E eu que pensava que tudo de lindo que tinha vivido na África do Sul e na Europa era apenas porque estava levando alguém em meu coração.

Ledo engano. Assim, a cada dia e quilômetro pedalado fui recuperando minhas memórias. E o brilho dos meus olhos. Fui entendendo e aceitando que quem perdeu não fui eu. Não foi fácil chegar a esta conclusão, mas com certeza ela é libertadora. E lá vou eu de novo, recorrer a Fernando Pessoa e a precisão e sabedoria de suas palavras: “Para realizar um sonho, é preciso esquecê-lo, distrair dele a atenção. Por isso realizar é não realizar”. E assim, meu sonho de sanar o coração, tornou-se realidade. E assim curou-se a dor…Salve a Coca e o Lago Titicaca! 

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