Os feminicídios “nossos” de cada dia


Recentemente foi “comemorado” o Dia da Violência contra a Mulher e muitos falaram – com razão! – que chega de feminicídio. Por definição Feminicídio é o ato de perseguir e assassinar uma mulher pelo “simples” fato de ser mulher. De fato, mortes com esta motivação são absurdas. Mas e quando te matam aos poucos? Como  se chama quando vão matando nossa esperança e vontade de lutar lentamente? Vão matando com assédio, abuso, piadinhas, a pré histórica diferenciação no trabalho e cantadas conpletamente fora de contexto. Imputamos neste crime de asfixia e morte lenta também os estereótipos e padrões que as mulheres devem seguir para ter um pouquinho mais de respeito – como por exemplo ser casada? Pois bem. Eu com certeza já escrevi em outra ocasião que até bem pouco tempo adotava como tática engolir em seco os preconceitos sofridos, considerando que assim eles não ganhariam força. Quer saber? Engasguei, fiquei intoxicada. E mudei de ideia: cansei  de ficar brincando de Polyana. Eu já sofri muito preconceito e não quero mais! Acho que chegou a hora de compartilhar alguns, nem que seja apenas uma pequena amostra do que vivi na minha vida profissional.Iniciativa Privada, Poder Público, Terceiro Setor. Infelizmente os criminosos estão em todas esferas, sem moderação. Um exemplo gritante foi quando trabalhei em uma instituição do Terceiro Setor, onde devia espalhar a igualdade e tive que escutar que só tinha “ganho” aquele cargo porque usava saia e era bonita. Eu persisti. Ao final de um curso que ministrei um senhor veio falar comigo para dar um elogio e uma crítica: “o curso estava maravilhoso, mas você deveria usar uma roupa que mostrasse mais seu corpo, para que eu pudesse contemplar. E nem se preocupe, pois eu sou velho demais para fazer alguma coisa.” . Tive que aturar mão no peito de figurão (com a desculpa de querer um pin igual ao meu) acompanhada de bilhetinho abusado. Até que vieram os comentários que o meu “problema” era ser solteira. Este trabalho passou. Muitos trabalhos passaram. Já tive que ficar me segurando, quase um mês sem receber pois o rapaz do Financeiro ( que tinha levado uma cortada minha) esqueceu meu pagamento. Coincidências da vida.Outro ambiente e mais uma vez tive que empurrar goela abaixo um padrão que segundo meu chefe me “ajudaria a não causar confusão”: sempre de preto, cabelos presos. Nada contra uniformes – aliás, acho eles muito práticos e facilitam um montão a vida – mas era só para mim, mulher, alta, que poderia chamar à atenção. E eu aceitei. Era isso ou nada. Me acostumei. Na ocasião me lembro que chegaram a perguntar se eu era dark. Na época eu até dei risadas, afinal tinha outra postura. E isso que eu não contei nem um décimo das minhas mazelas. Já teve beijo roubado e demissão sem justa causa. Então volto na data do Combate à Violência contra mulher. Como a gente pode aceitar?Como eu pude aceitar? Pois bem, aceitei. Não sem sofrimento e mal estar. Hoje vejo que eu tive que mudar tantas vezes os caminhos da minha vida e no entanto os “abusadores” seguiram seu curso a espera da próxima vítima. Infelizmente é assim: a gente aceita. Porque faz como eu fazia e não leva à sério, não acredita que aquilo pode estar acontecendo. E as pequenas coisas ficam grandes. E os arranhões viram cortes profundos. E a gente aceita porque precisa seguir adiante, precisa trabalhar, precisa permanecer no sistema para tentar mudá-lo. Só que isso dói. Punhalada seguida de punhalada, assédio após assédio, cansa. Mata aos poucos. Ou seja, praticamente um “Feminicídio” em slow motion. Como condenar este batalhão de criminosos?O que passou, já passou. Mas para mim já basta. Acredito que temos que começar a abrir bem os olhos. E abrir a boca. Não deixar chegar no irreversível. Tentar nos libertar da culpa de denunciar. Culpa? Sim! Porque o preconceito está tão arraigado na sociedade que no fundo ao sofrermos pequenos abusos, acabamos inconscientemente acreditando que aconteceu porque somos fracas, porque a falha é nossa, por não ter colocado claramente limites. Mas não. Nós so precisamos sair da zona de conforto e denunciar. 

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