A Revolução das Rodas

Leva um tempo, mas a gente aprende…ou melhor: entende!
Como se não bastasse eu – filha da razão e da emoção – descobrir que o pai engenheiro era o coração e a mãe artista era a razão hoje percebo que – ao contrário do meu pai – não nasci para construir. Parece que nasci para quebrar tudo, para desconstruir. Não, não sou uma terrorista. Muito pelo contrário: quebrando pré-conceitos nasce a paz. Pura. Genuína. E esta missão semea amor, traz sorrisos iluminados, gera contentamento transbordante… Que delícia desconstruir pré-conceitos…que liberdade!!! Talvez o Criador – ou meus progenitores? – tenham olhado para mim, pequenina, chorando com a força e rebeldia de um animal inquieto e me conferiram esta missão. Mamãe sempre dizia que eu era rebelde. Chorava com ganas. Era. Sou. Agora assumo minha natureza intensa. 

Há um ano atrás me deparei com o desejo desafiante de ir para o trabalho a 17km distante de casa de bike. Era um sonho, mas era improvável: ir de sul a norte, de norte a sul; dividir as vias com trânsito pesado; cruzar por dentro de vilas. No primeiro dia, lembro que meu receio era furar o pneu com as sucatas pelo chão. 
Mas eu fui. E com o passar dos dias fui percebendo quanto preconceito se aprende sem querer. Quantos medos inúteis acumulamos no dia a dia. Ao cruzar as vilas, fui aprendendo a enxergar os invisíveis e ver a diferença maravilhosa que faz um simples “bom dia”. Devagar e sempre – com sorrisos! – fui fazendo a minha revolução amorosa ao sabor do vento. Sem força – apenas de vontade! – fui cumprindo minha missão.

No longo percurso diário aprendi a poesia dos detalhes e como a ignorância distorce a verdade. Me senti mais humana do que nunca ao me colocar inteira diante da realidade nua e crua. E também entendi que umas das maiores e mais necessárias rebeldias é a de exercer nosso direito a liberdade de ir e vir. Não podemos deixar de viver e nos tornar reféns do medo. Todas manhãs compartilhava o sofrimento e a dignidade de gente muito humilde, muitas vezes chamada de bicho. Dizem que as vilas tem bandidos. Podem até ter.(Particularmente, acho que o Congresso Nacional tem mais e mais perigosos). Mas tem muita gente que trabalha, que batalha, que se esforça para seguir mesmo quando tudo parece desfavorável. Quantas vezes ouvi que o povo da Vila era “porco”….mas o que via na prática eram caminhões descarregando lixo no meio da rua, no meio das tentativas de casas de gente à margem, e vi carrões atirando papéis pela janela. Vi a gente simples tentando dar um fim (adequado!) à toda imundice dos “bacanas”. Vi crianças indo para escola, o carinho com animais. Me encantei tantas vezes com os cenários…. com as pequenas e e esperançosas delicadezas. Com a retribuição tímida aos sorrisos que espalhei. Quantas vezes também no caminho meu coração apertou e lembrei da canção Kirie Eleison: pelas dores deste mundo ó senhor, imploramos piedade. Eu gostaria de fazer algo concreto pela gente do caminho. Por hora, apenas renovo-lhes a esperança dando a certeza de que existem, pois para mim não são mais invisíveis. 

Dentro desta revolução silenciosa e avassaladora, outro trecho inesquecível desta travessia e igualmente repleto de preconceitos são os túneis que passam por cima dos trilhos do trem e conduzem à ponte e a auto estrada. E meu coração batia mais forte ainda quando eu cruzava com o trem. Olhava para frente, um avião rasgava os céus. Nos anéis viários, caminhões, ônibus, carros….todos os tipos de motores em um triste ir e vir. Lá no fundo, a torre da Igreja e a chaminé de uma antiga tecelagem…o cidadão puxando o carrinho de reciclagem, eu na minha bicicletinha. Qual a emoção de tudo isso? Na inclusão! Na imagem que traduz a convivência dos diferentes….o respeito a todas as posições. A fé na vida. A esperança de um mundo inclusivo de verdade.

E no movimento de “quebrar tudo” confesso que também mil vezes me quebrei…E é por isso que gosto de me sentir pequena em um abraço…porque diariamente tenho que ser o gigante que não sou. O pequenino grão de areia respira fundo e se transveste em armadura de aço para enfrentar carros e horizontes limitados…na imaginação me sinto como em um desenho animado no qual o personagem incha e se transforma….talvez eu me transforme em um barco, com uma vela gigante movida por sonhos, no qual o respeito existe e os espaços são compartilhados…o fato é que depois de cruzar um viaduto complexo e ter que seguir pela esquerda em uma via rápida me sinto uma heroína! Justamente porque consigo fazer a revolução mais ou menos como Desmon Tutu ensinou: “se você tiver que aumentar a voz, está na hora de trocar os argumentos” . Eu não uso motor, nem berro. Sigo de vestido, com saltinho, visto um colete de motoboy e na distração de outro condutor, apenas apito….

Esta é a minha revolução: sem gritos, no compasso dos pedais vou imprimindo uma nova possibilidade. Vou inspirando, suspirando e sendo a mudança que quero para o mundo: um compartilhar real onde cada um pode acreditar e viver seus sonhos.

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