À bordo do Shosholoza

South African Diaries 2

Inspirada por um casal querido de cicloviajantes holandeses que recebi em minha casa (e em meu coração) que não tinham tempo suficiente para percorrer o Brasil de bike e decidiram fazer o trecho Salvador – Porto Alegre de ônibus, fiz algo parecido na África do Sul. Confesso que sempre amei experimentar – e integrar modais – bike, avião, barco…e por que não o trem? A ideia me pareceu 100% sedutora, mas comecei a pesquisar e não fazia muito sentido um trem cinco estrelas para uma cicloviajante. Até que descobri um trem popular e lento. Um trem colorido e com a  cara da África do Sul – não aquela que se mostra nos cartões postais…. Nas avaliações, a pontualidade não era o forte dele, mas tempo eu tinha de sobra e decidi encarar. Foi assim que eu embarquei no mítico Shosholoza Meyl em um ensolarado domingo de Carnaval. Roots, mas nem tanto, decidi comprar uma passagem – ou melhor,  2 – na cabine e viajar na companhia da minha bicicleta com total privacidade. Foram 31 horas vendo a paisagem mudar e tentando acreditar que eu estava de fato onde eu estava.

Eu já tinha comprado as passagens no Brasil, e depois de alguma conversa jogada fora, consegui enfim achar o guichê para retirá-las e chegar a bordo. O sistema é um pouco confuso, como a Liliam ( Uber driver que me levou na estação) mesmo comentou: ”Não te preocupes, não é simples nem para mim que moro aqui”. Estas palavras dela me serviram de consolo, mas com certeza, as que ela me disse no caminho, ficarão sempre no coração: “You are a strong woman”. Tradução: você é uma mulher forte. Nunca vou saber se ela estava se referindo a minha capacidade de viajar levando a bike a tiracolo ou aos desafios que já enfrentei na minha vida e por alto comentei com ela durante o trajeto, respondendo as sua curiosidade sobre a minha opção pela África do Sul e pelo Shosholoza. Foi o que eu precisava ouvir para seguir. Nos dias seguintes – que foram os mais difíceis – esta fala ecoava na minha memória e me movia.
                Novamente sozinha, no caminho do guichê onde retirei as passagens até o meu vagão, recebi várias ofertas de ajuda, mas gentilmente recusei todas, lembrando a fala de um amigo querido que me ensinou que sempre devemos viajar apenas com aquilo que podemos carregar. E não é que é mesmo?

Deixei a bike na cabine  – C, parecia ter sido feita para mim – e fui explorar pelo lado de fora….meu ímpeto era ver a “cara” do Shosholoza….mas, o trem parecia interminável e eu desisti. Afinal de contas, depois acabei ficando bem feliz de não ter visto! Quando cheguei no meu destino, vi e quase não acreditei que aquela máquina franzina e alquebrada tinha puxado tantos vagões riscando o mapa da África do Sul de leste a oeste. Johannesburg – Cape Town com todas as voltas possíveis e uma diversidade de encantar qualquer mortal. Vi cidades, campos, savanas, montanhas, vinhedos, bandeiras. Vi a poesia das crianças tentando alcançar o trem, vi a resignação dos passageiros do meio do caminho que nada podiam fazer senão esperar. Vi trilhos sendo desmanchados e comecei a lamentar que talvez uma aventura como a que fiz possa ter dias contados.
O serviço do trem, ao contrário do que os comentários que eu tinha lido, era muito bom. Funcionários atenciosos e opções boas e baratas de comida e bebida, servida na própria cabine sem custo extra. Eu comecei aceitando o delivery, mas depois me aventurei a percorrer o trem e fiz um memorável café da manhã a bordo do vagão restaurante.
Lá pelas tantas, um senhor extremamente educado bateu em minha cabine, se apresentou como o Chefe do Trem e com a maior naturalidade avisou que teríamos um pequeno atraso de 5 horas na chegada em Cape Town e perguntou como eu pensava em sair da estação. Quando eu falei que pensava chamar um Uber, ele recomendou a melhor saída para fazer o pedido. Contudo, eram os meus primeiros dias em solo africano e eu ainda não tinha ativado a minha tecla “SAP”. Assim, meio sem jeito avisei o senhor que não tinha entendido bem e pedi que ele desenhasse para mim. Prontamente, ele fez o mapa da mina, marcando onde o trem iria parar e quais as direções eu devia tomar. Eu estava ali para aprender. Não tinha porque não confessar minha dificuldade.
                Confesso que não me assustei quando ele falou no atraso de 5 horas. Sou uma pessoa ansiosa e estou sempre lutando para desarmar minha ansiedade e  este foi um exercício em tanto. Felizmente, eu já estava com um chip local no celular, 100% conectada e o tempo passou muito divertido. Em uma estação, cheguei até a arriscar sair do trem, esticar as pernas e fazer uma vídeo chamada para dividir com o amor aquele novo mundo. A tecnologia tem isso de bom: faz uma distância real parecer fruto da imaginação…

O fato é que perdi a noção do tempo. E isto foi maravilhoso. Vi o primeiro por do sol a bordo do trem com um brilho que entrou pelos meus olhos e me encheu o coração. Foi também à bordo do Shosholoza que vi os primeiros avestruzes correndo livres…e os primeiros Kudus, os Springsboks….vi até umas zebras…mas não sei se estas últimas contam pois estavam presas… Logo veio a noite, eu abri a cama, o Shosholoza parou no meio do nada e eu adormeci com os melhores pensamentos e uma coberta de céu estrelada do tirar o fôlego. Raiou o novo dia e com ele uma nova paisagem – montanhas gigantes, áridas, “plantações” sem fim de placas solares. Em alguns momentos, o bravo trem passou por dentro das rochas, fazendo voltar a noite, agora sem estrelas. O caminho teve sol, chuva…e de repente ao pé das montanhas começaram a aparecer muitas plantações de frutas e vinhedos…muita água e muito verde. Agora não havia dúvida que eu estava próxima do meu destino: na costa o clima é sempre mais ameno.
Quando enfim o grande Shosholoza embrenhou-se na cidade e o Chefe do Trem veio despedir-se e confirmou que estávamos chegando em Cape Town o meu coração disparou. Era o meu segundo pôr do sol, agora dourando os capins entre os trilhos e as montanhas de cartão postal. Chorei. Sorri. Cantei. Olhei para o lado e em dois prédios muito altos vi a imagem de  Desmond Tutu e Nelson Mandela – dois nobels da paz sul africanos, dois exemplos de vida. Me emocionei ao pensar que tive a honra de conhecer e entrevistar o primeiro, quando esteve em Porto Alegre para a Assembleia do Conselho Mundial de Igrejas. Desmond Tutu é uma daquelas pessoas de presença amorosa, que irradiam paz e cuidado. Que passa carinho e colo em cada palavra.  Na ocasião ele compartilhou uma aprendizagem transmitida por seu pai: “em uma discussão, quando você tiver que levantar a voz, está na hora de rever os argumentos”. Nunca esqueci. De certa forma, é a busca de novos argumentos que me trouxe até aqui. Considerei aquela visão e as lembranças decorrentes, um ótimo presságio!

Voltando à terra, ou melhor: Cape Town, segui as instruções do meu mapa e chamei um Uber. Mas na rua, parecia tudo diferente, a começar pela mão inglesa. E foi uma eternidade até que o motorista me encontrasse. Nesse meio tempo e entre uma e outra mensagem trocada com o motorista, fui abordada por pedintes e tomando como parâmetro o Brasil, confesso que fiquei assustada. Já estava quase desistindo e entrando novamente em um táxi antes que a noite caísse de vez quando chegou meu salvador: John. Sim. Minha vida é um filme, o nome tinha que ser bíblico. John surgiu de não se onde, me resgatou e me levou para o hostel. Fiquei tão feliz que ele não desistiu de mim. Nos primeiros dias – 3 para ser mais exata – meus “melhores amigos” na África do Sul foram os  motoristas de Uber: eu os chamava pelo nome e tinha conversas amenas que me faziam recordar porque eu estava ali.

Cheguei no hostel e apaguei. Foram dias de pouco exercício, mas muita emoção. Difícil acreditar que já tinha vencido dois importantes trajetos: Porto Alegre – Johannesburg e Johannesburg – Cape Town. E amanhã será outro dia. Dia de enfim libertar da mala a minha bike e fiel escudeira.

P.S.: A palavra Shosholoza é uma onomatopéia que imita o barulho do trem e segundo ouvi por lá, era o canto dos trabalhadores das minas no longo caminho de volta para suas casas. Ela é usada nas torcidas organizadas e escutei muitas vezes pelas ruas. É algo como: “não desista, siga em frente, no ritmo que puder e você chega lá. Fez todo o sentido para mim. Eu não poderia ter escolhido melhor forma de chegar em Cape Town!

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