Arubikeando

Sonhos não tem limites. Em 2013 fiz uma viagem incrível com a qual eu nunca tinha sonhado. Este ano troquei as férias de julho pela conclusão de um trabalho e o Universo me deu outro sonho que sonhei acordada, há milhas e milhas de meu doce lar: 2 travessias nos mares do Caribe – uma em Curaçao e outra em Aruba. E ainda ganhei a encantadora surpresa de conhecer um pouco do Panamá. E não que eu desdenhe deste conto de fadas de uma amante da natureza e esporte addict, mas estava faltando a bike…

Muito bem localizada em Otrobanda, eu admirava da janela do meu quarto a ponte móvel, mas queria muito as bicicletas que via todas as noites se juntarem ao pé da linda bandeira de Curaçao para deslizarem pelas ruelas e  mistérios de Punda, Paris, Piscadera…por esta cidade país. A cada dia a fissura aumentava… cheguei a conversar com um grupo de ciclistas, mas por mais indiretas que eu desse, nenhum deles me emprestou sua magrela. Eram colombianos. Tive o privilégio de conhecer a estrela menor da bandeira – Klein Curaçao – uma ilhota deserta e paradisíaca a 25 Km da costa. Nadei com a seleção olímpica deste encantador país quadrilingue que faz parte do Reino da Holanda. Mas, faltou a bike. Saí de lá com o coração cheio, mas com um desejo que me consumia cada vez mais…

Fomos para Aruba. Um choque cultural. Uma travessia difícil. Um inesperado 2ºlugar. Cervejas e muito camarão. E uma gripe que me impôs o game over… gripe ou seria a abstinência? No outro dia, me separei do grupo pois não me sentia em condições nem de levantar da cama. E foi lá, nas profundezas do colchão que decidi: me entregar? Jamais! Com esta determinação e o nariz escorrendo como cachoeira me arrastei para o café da manhã. De lá, para o spa. Uma hora de pedras quentes, movimentos precisos e sons mágicos e tracei os planos com clareza. Como se fosse uma nova pessoa, fui até um mercadinho, comprei vários pacotes de lenços, um suco de gengibre para arribar e comecei minha peregrinação: de em porta em busca de uma bike. Nem foi tão difícil… no terceiro resort que eu ataquei a moça simpática fez um ligação e me devolveu um papel com um endereço. Peguei um táxi e em minutos estava no paraíso: bike alugada, com pé de pato, máscara e snorkel de bônus! Comecei então a Arubaikear…

E, Arubaikeando, Aruba fui amando… sem saber que ainda podia ter mais delícias pela frente…

Fui pedalando e me surpreendendo pelos caminhos, fazendo o que tanto gosto: sentindo cheiro de mato, tomando banho de mar e de sol… turistando, agora por Orangestat…me surpreendendo com trilhos e navios, com a dança dos pelicanos, com o charme dos telhados de santa fé contrastando com o verde e turquesa dos mares…Estava tão bom que eu perdi a hora, perdi a luz…e quando cheguei para devolver a bike – que eu batizei de Malagueta – a loja já tinha fechado. Diante do inevitável, pedi para guardar a Malagueta no hotel, tomei um banho de miss e saí para jantar… e eu estava ventando pelas ruas quando eu reencontrei o grupo e perguntaram de cara se eu tinha conseguido a bike. Sim! Como sabem? – respondi e já perguntei. “Pela tua cara, estas bem melhor!” É…sou mesmo transparente…

O dia seguinte seria meu último dia em Aruba e eu já tinha um compromisso importantíssimo: devolver a Malegueta para seu dono. Mas não sem antes fazer uma despedida a altura. Eram cinco da manhã quando o despertador tocou. Pulei para dentro de um biquíni, e de lá para um vestido. Soprava uma brisa leve e o céu ainda estava todo estrelado quando deixei a Recepção do Hotel rumo ao Califórnia Lighthouse, no norte da Ilha. Minha bike clássica, sem marchas deslizava firme na madrugada deserta de Aruba e eu ia rindo sozinha… da primeira volta com rodinhas no pilotis do prédio sob a supervisão atenta de papai, até o desapego de andar sozinha na escuridão de uma ilha caribenha do Reino da Holanda rumo ao desconhecido, quantas voltas minha vida já deu…e isso é bom demais! Aos poucos, a cidade foi ficando para trás e eu mais próxima de meu objetivo. Já avistava ao longe a poética luz do Farol. Os primeiros raios de sol me transportaram para um conto de fadas… difícil discernir se tudo não passava de um sonho. Muitas fotos no caminho e no destino. Horizontes tão imensos, que nem as lentes conseguiram aprisionar. Quando venci a última lomba e cheguei ao pé do farol deixei a Malagueta ventando e respirei fundo para transbordar todas minhas células com a beleza do momento. Li a história do lugar, fiz um oração e segui viagem.  Cruzei então com os primeiros seres humanos – dois ciclistas que me deram bom dia em holandês. Minha idéia era “seguir viagem” para a próxima atração, a Capela da Alta Vista, mas uma praia me chamou. Era eu, o sol surgindo, Aruba no horizonte, pelicanos pescando o café da manhã e uma sugestiva Divi-divi (árvore símbolo do país, esculpida pelos ventos alísios) me convidando para um pit stop. Olhei no relógio e pensei que ainda havia tempo de curtir o Farol por outro ângulo… Afinal, a loja de bikes abria as 9 e eu só tinha que sair para o aeroporto as 11…

Quando eu me preparava para deixar a praia de Arashi encontrei 2 de meus colegas do grupo, que vieram perguntar se eu queria carona. De anos de pedal, a única vez que eu não completei um percurso foi quando o voraz pit bull quis engolir minha canela. “Não, muito obrigada. Na hora marcada estarei no hotel de malas prontas”.

E assim, leve como uma pluma (a gravidade do Caribe deve ser a mesma da Lua!) fui pedalando em busca da Capela e me deliciando com a paisagem até que cheguei na primeira bifurcação e resolvi arriscar a esquerda. Só que apareceu uma nova bifurcação. Pedi informação para um senhor em frente a sua casa. E ele foi o primeiro habitante destas paragens desprovido da tecla SAP: só falava papiamento. Passado o susto, com um pouco de lógica e um tanto de ousadia deduzi a direção que deveria seguir e adiei o problema. Deu certo! Mais adiante a primeira placa e a certeza de que era só pedalar e eu estava no caminho…

A Capela Alta Vista, fica em um dos poucos morros de Aruba e ao mesmo tempo que eu diminuía a velocidade em função da subida e da ausência de marchas, corria um calafrio na espinha ao perceber que, pela primeira vez  ilha, eu observava casas cercadas e placas de cães ferozes. Eu tentava não imaginar flashbacks, mas era inevitável… mas, mesmo assim segui em frente.. e para cima! Ao final da primeira subida uma surpresa encantadora: de tanto em tanto, uma parte de uma oração – em inglês e papiamento – e assim esqueci o medo e fui rezando e me divertindo com as placas até chegar no “Amém”. A capela era linda, pequena, poética – a primeira de Aruba. A vista, divina: mar e cactos e montanhas…iluminados pelos primeiros raios de sol.  Um muro baixo cercava a capela e muitos bancos cercavam a construção, como um convite para esquecer do tempo e se perder em horizontes e pensamentos. Um lugar mágico. Deixei a bicicleta por alguns instantes e entrei… fiz uma oração no meu papiamento: mistura todos idiomas que sei um pouco…mistura de emoções…abri meu coração e deixei tudo ir…ir e vir!

Ficaria lá mais tempo, mas eu tinha um grupo e um avião me esperando… e uma bicicleta para devolver! Fui ainda devagar pois na saída as placas da estrada tinham o Pai Nosso e quando a oração acabou, larguei os freios e fui ventando a caminho do mar. O relógio começou a me pressionar e pedalei com tudo e curti demais! Dez horas e eu cheguei na beira da praia e devolvi minha amiga. Resolvi arriscar, apressei o passo e fui caminhando pela beira do mar até o hotel. E a esta altura, o sol já estava queimando e eu morrendo de sede e nada de encontrar um quiosque aberto. Depois de três negativas, quando enfim consegui, fui direto ao ponto: beer! E eu estava afoita me hidratando com o néctar precioso, quando percebi que a senhora que tinha me vendido a cerveja estava repreendendo o marido e senti que eu estava no meio  do rolo. Perguntei. Ela disse que o marido tinha comentado que eu parecia um sapo engolindo a cerveja. Não fiquei braba, pedi outra e fui tomando, com mais calma, no caminho, que engraçado… mas, com certeza ele tinha razão: tinha madrugado, pedalado pra caramba, e, no receio de me atrasar, não tinha parado no caminho para ”encher o tanque”.

Deu tudo certo. E, no final, quando avistei o hotel ia seguir em sua direção quando encontrei um colega do grupo chegando na praia que disse que eu não precisava ter pressa. Como minhas malas estavam prontas, não tive dúvida de aproveitar até o último minuto no mar maravilhoso de Aruba, e lá me fui par água, rindo sozinha das minhas Arubikeações…

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