Uma virada dos sonhos… e um pit bull do mal

Dia 29. Eu queria muito. Mas tinha medo. Fazer o que? Que tal encarar o medo? A reposta é simples, mas a prática complexa. Decidi descomplicar: organizei as tralhas, coloquei nas cestinhas da bike e me deparei com a primeira adversidade: cadê o extensor? Buenas, sem extensor, a saída foi reduzir a bagagem e colocar a cabeça para funcionar. E não é que funcionou? Quatro da matina e tocou o despertador: hora de encarar os fantasmas! Fiz um big café da manhã, montei na Flecha e me fui! 

Claro que me enrolei um pouquinho – auto boicote?- e acabei chegando na estação do trensurb só as seis. As sete desci em Novo Hamburgo depois de presenciar uma tentativa de assalto em pleno trem, bem do meu lado. Ainda bem que escolheram uma corrente de prata e a Flecha ficou apenas de escudo entre ladrão e vítima.  Mas o medo que era para ser combatido, foi alimentado. Mesmo assim, a razão prevalece e eu agradeci a Deus pela proteção e segui meu pedal. Mal passei Taquara e o pneu furou. Perdi um tempo fresco precioso, mas fiz os reparos e segui viagem. Verão assombroso. Corrida contra o tempo e o sol levantando sem piedade. Como era eu, minha bike  e o desejo quase sexual de ter a água oxigenada das cachoeiras, decidi enfrentar a canícula – como dizia mamãe – e seguir no pedal. Parando a cada sombra – se fosse o caso – mas, milimetricamente, avançando. Foi um desafio. Divino. Avançar na paisagem e deixar a cidade para trás para integrar-se na natureza e no horizonte maravilhoso…valorizar cada quilometro que exige do corpo e me aproxima do objetivo.

Cada vez que parava nas raras sombras, me sentia uma cachoeira, isso porque o calor era tanto que no movimento evaporava o suor. E lá pelas tantas, entre curvas veio a visão magnifica: em meio ao horizonte lá estava ela – magnânima, a verdadeira cachoeira – cascata do chuvisqueiro, 76 metros de pura vida! Mas ainda faltavam uns 3km…e fui presenteada com uma chuva de verão para marcar minha chegada…foi só o tempo de parar e proteger com uma capa de chuva o “bagageiro” e já cheguei! E antes de realizar o sonho, fui direto cair n’água…beleza pura! De corpo e alma lavada, fui então procurar o responsável pelo camping e não pude deixar de entregar o jogo: “sou marinheira de primeira viagem, vim lá de Porto Alegre pedalando e não quero confusão… arruma um lugar bom e pacato para eu acampar?” Ele me arranjou. E me posicionou ao lado de uma família campista nata, que até deu umas dicas de como montar a barraca…mas tirei de letra, foi muito fácil, deu até tempo de voltar para a cascata e me deliciar com sua água gelada e oxigenada…e, por falar em gelada, fui tomar uma cervejinha e descobri que já erámos – eu e a Flecha Venturosa – as estrelas do pedaço: “você é a primeira a chegar aqui de bicicleta”. E ganhamos uma cerveja e mil outros mimos…e começou aí uma amizade…

De papo no quiosque, com a cachoeira no alcance da vista e completamente dentro do coração,  escutei uma frase que levarei comigo… por muito tempo e que talvez tenha sido o motivo de eu estar exatamente ali naquele instante: “O medo é o grande aliado da vida”. Fez sentido. Todo sentido.

A esta altura já se ia o dia…voltei para o acampamento e me encantei: minha barraca montada, a Flecha presa ao lado, o rio correndo a frente e um delicioso perfume de jasmins. Me deliciei. Sonho realizado. O primeiro. Entrei na barraca e dormi o sono dos deuses, embalada por uma chuva mansa e refrescante.

Dia 30. Acordei cedinho, fiz meu “café da manhã de astronauta” em plena barraca e lá me fui para minhas explorações, rumo ao topo da cascata.  Não sei exatamente que horas eram porque aproveitei a ausência do sinal de celular e internet em um raio de 16Km e deixei o telefone descarregar total para me conectar no ritmo da natureza e viver integralmente o dia. Foi um presente! Logo, logo me embrenhei no mato e fiz hidromassagem natural, sem roupa, sem platéia, por entre pedras e limos. De quebra, ainda encarei o medo de espiar lá para baixo, vi as pessoas formiguinhas e fiquei pensando como um fio d’água pode ganhar tamanha força na queda…será esta mais um lição para a vida? O que parece nos abater, na verdade nos fortalece!

Caminhei pela redondeza e fui saudada por um tucano lindo e barulhento…fiquei viajando e pensando o quanto amo a natureza e como os sonhos tem que ser compartilhados, pensei o quanto gostaria de encontrar um amor que me levasse para o mato…e nem precisa ser pedalando – ponderei lá pelas tantas – pode ser até alguém que me encontre no destino, de jipe, quem sabe…e nisso escuto um barulho forte de motor e logo em seguida fui cumprimentada por uma buzinada e ultrapassada por um jipe todo embarrado. Confesso que as pernas bambearam… é, assim como as águas, os pensamentos tem força…

O dia estava só começando. Até que na outra curva da estrada recebi um convite para um bife na chapa ao pé de outra cascata da região, mas como cautela e caldo de galinha natural não fazem mal à ninguém, preferi uns dedos de prosa com meus novos amigos do Chuvisqueiro, mais uma cervejinha e infinitas braçadas no lago da cascata e deixei os jipeiros seguirem seu caminho. Depois, achei uma pedra de acesso restrito e visão privilegiada da cascata e fiquei lagarteando… cada vez que o calor do sol apertava, vinha o chuvisqueiro me refrescar, e na umidade se formava um arco íris, um arco-íris particular. Quer luxo e bênção maior? O barulho da água, assistindo uma cascata de camarote, rodeada de borboletas e pássaros, sentindo o tempo da vida com todos os seus segundos… Adormeci… Quando acordei o sol já ia se despedindo e olhei com gratidão para as dezenas de pessoas que da prainha, como eu, assistiam o espetáculo da natureza, reverenciando toda sua magnitude. Só sentimentos bons. Fiz uma oração para meus amigos agradecendo sua presença amorosa em minha vida.

Dia 31. Flashs de civilização…resolvi dar uma pedalada pelas redondezas, vi um movimento em torno de um buteco e acabei parando na beira da estrada pra espiar a telinha: Bom Dia Brasil. Assisti algumas notícias e de quebra ainda a São Silvestre e logo em seguida segui o pedal antes que o sol se “embrabecesse”… Por entre morros, descobri um atalho para o topo da cascata e horizontes incríveis. De novo, surpreendi um “natural da terra” ao perguntar: “moço, até onde vai esta estrada?”. Vinte o poucos quilômetros, um pouco mais de entendimento sobre a geografia e hidrografia da região e voltamos para o camping. A esta altura, eu e a Flecha já éramos quase celebridades… ganhamos até duas champas para a virada e vários convites para o “Reveillon”, mas, fui fiel, preferi meus primeiros amigos nestas paragens, com vista panorâmica para a cascata.

Como o dia rende no meio a natureza! Ainda tive tempo de conhecer a cascata das Três Quedas, me esgueirando por uma trilha além do camping Paraíso, pelo meio do mato. Depois teve temporal de verão, com direito a rios e trovoadas. E minha querida barraquinha se manteve intacta, sem um pingo d’água no interior. E ainda pude comer um milho cozido e gastar as energias nadando…

Prosa e banho. Coloquei minha camiseta de dinda superpoderosa e agora sim…’bora realizar mais um sonho…afinal pedalei 104km com uma champanhota na bagagem e  um desejo: colocar a bichinha para gelar na cachoeira…o vizinho até ofereceu o freezer…mas eu agradeci: obrigada, mas preciso realizar sonho…e me fui para a curva do rio…embaixo de uma arvore bonita, com som da água que me hipinotiza…me encanta, me fascina… Amarrei a garrafa na cordinha emprestada da barraca e deixei correr rio abaixo… Sentei na lage da curva do rio, pés dentro d’água  e tempos depois, fiz a pescaria premeditada e estourei a última champa de 2013…fiquei pensando que a natureza ensina muito, e que os amigos são a bênção maior! Com sua diversidade nos mostram que a vida é infinita em dias possibilidades… e surpresas!

Lembrei de amores que se foram sem nunca ter sido e diante da natureza fiz juras ao amor que Deus me trará…cedo ou tarde…se tiver que ser… Passar alguns dias no Chuvisqueiro é aprender sobre o amor: olhar todos os dias a mesma cachoeira e sempre interromper os pensamentos com um suspiro – tão linda, quantos detalhes passam despercebido… Acho que o amor verdadeiro é isso olhar todos os dias pra o ser amado, como que dissecando e encontrar sempre motivos para seguir com o sentimento…para admirar, cuidar, querer bem…

E eu não podia terminar de forma melhor o ano…que nada mais é que um bom artifício para contar as boas histórias da vida, que, assim como a água das cachoeiras, tem lá as suas quedas…mas é nestas quedas que ganha força…
Foi uma virada dos sonhos…dos sonhos realizados!

 O Pit bull

Ano Novo, pedal novo. Acordei as 5 da manhã e enquanto alguns “foliões” ainda festejavam, eu desmontei a barraca, carreguei  a Flecha e peguei a estrada. Vi o dia raiar por entre montes e montanhas, por entre córregos e milharais. Com a chuvarada, a poeira assentou na estrada e ainda ganhei como companhia o perfume do mato. Eu era só sorrisos. Sete horas da manhã e eu cheguei na cidade de Rolante e no único posto aberto nas redondezas, comprei bastante água para a viagem, caibrei os pneus  e ainda me diverti com o senhor que procurava qualquer jornal do dia, no que o frentista respondeu: “não, não há nada novo…vá para casa ler a Bíblia, que até o culto é mais tarde hoje”.

Já tendo como destino Porto Alegre, via Santo Antônio da Patrulha, segui o conselho dos meus amigos do camping e experimentei um atalho pelo Morro da Figueira. Economizei 10Km de asfalto e ganhei estradas de chão e subidas de tirar o fôlego com uma das vistas mais lindas que já vi! E o sol, que já estava bem forte passou a se tornar “fichinha”, quando comecei a acalentar o primeiro sonho de 2014: comer um sonho, daqueles gigantes, em Santo Antônio. Uns 30 quilômetros depois realizei este sonho… e enquanto o saboreava, fiz planos: decidi no caminho de volta visitar uma família de amigos em um Haras. Já tinha pedalado exatos 75Km e decidi aceitar o convite de dormir lá. E eu, que estava rodeada de pessoas queridas e animais amorosos, mal podia imaginar a surpresa que o dia seguinte me traria…

Dia 2 – O dia seguinte chegou e eu me despedi e peguei a estrada. Mas tinha pedalado a primeira dezena de quilômetros quando um cachorro miudinho, de dentro de uma casa veio latindo na minha direção. Eu vinha a pouco mais de 20Km/h e segui no mesmo ritmo, esperando, como tantas outras vezes no caminho que os latidos ficariam para trás. Me lembro que ainda vi de relance que havia um cachorro maior que no entanto não seguiu o menor. Mas, em uma fração de segundo, olhei para frente e vi o tal cachorro maior vindo de frente, em minha direção…lembro dele pulando uma cerca e em seguida um valão como se tivesse molas nas quatro patas…acho que ele deu duas latidas e a terceira já ficou incompleta, abafada na minha perna. Lembro da cara atarracada do cão e da expressão de maldade dele, como se quisesse colocar toda a força do mundo naquela mordida. Deste momento, minhas memórias são confusas. Lembro de urrar de dor e voltar a terra com uma buzinada longa de carro. Olhei em frente e vi a placa que identificava: parada 134. Pensei em parar, em pedir ajuda, em fotografar a fera, mas estava tudo deserto. Continuei pedalando e chorando, sem coragem de olhar para baixo…algum tempo depois criei coragem e olhei para minha perna. Vi muito sangue e um furo. Pensei que estava perdida, mas também pensei que devia tentar me acalmar e pensar o que fazer. Olhei de novo para minha perna e vi que por trás também havia muito sangue e outros furos. Pensei em seguir até Porto Alegre, mas ponderei que ao menos devia limpar o ferimento. E segui chorando e pedalando… sem coragem de olhar novamente e encontrar mais sangue ou indícios de destruição maiores na minha perna. Passou uma infinidade de maus pensamento e tentei afastá-los. Nisso, entrei no perímetro urbano de Glorinha – eu vinha pedalando pela RS 030 – e logo em seguida pessoas em uma parada de ônibus. Parei e perguntei sobre um posto de saúde, que eu tinha impressão de ter visto em outras pedaladas por aquelas bandas. Graças a Deus me disseram que era logo adiante. Parada 129 e lá estava ele: minha salvação. Encostei a Flecha na frente e entrei. Me pediram eu retirasse uma senha – 840. E a dor parecia cada vez maior. Chamaram a senha 814. E, mesmo alterada acho que fiz as contas de quanto tempo ainda teria que aguardar e desabei. Vi tudo prateado ao meu redor e sentei no chão, pois o local estava cheio e não havia nenhuma cadeira livre. Neste movimento recobrei um pouco a razão e lembrei que tinha que prender a bike e fui para a rua tratar disso. Mas cheguei na rua e uma moça já me pediu o documento. Me ofereceu seu braço como apoio e me levou para dentro, pediu que desocupassem uma cadeira e quando me dei conta, já estava em uma maca, com luzes fortes nos meus olhos e uma senhora toda de branco lamentando o estado na minha perna e pensando como fazer para ter a dimensão exata do estrago. “Corta, pode cortar” – eu disse, me referindo à calça, claro. O que eu queria era tirar, o quanto antes, aquela sangüeira do meu possível campo de visão. E assim foi feito. E logo veio a médica e disse: “teremos que suturar. As mordidas foram muito profundas, não podemos deixar tão aberto”. Desta sala fui para outra, fazer medicação na veia para a dor.
Eu chorava de dor e medo. Cada vez que fechava os olhos, vinha na mente a imagem daquele ser diabólico pulando na minha direção. Os funcionários do posto ainda contavam as histórias do reveillon, sem dar muita trela para mim. Até que uma enfermeira muito doce me perguntou quem da minha família poderia ser avisado para que me buscassem lá e eu pedi então que buscasse meu celular na bike e guardasse ela. Pensei em resolver tudo sozinha, mas tive coragem e humildade para pedir ajuda. Na mesma hora meu amigo estava lá, antes mesmo de acabar o soro, a enfermeira já tinha dado a boa notícia: eu não estava mais sozinha. A verdade é que nunca estive.

Terminou a medicação e fui para a sala de suturas. O procedimento começou descontraído – eu era maior que a maca – e durou mais de hora. Eu tive sorte que a médica que me atendeu era cirurgiã e parecia dominar com maestria os procedimentos. Ela ficava até explicando que tipo de pontos daria por dentro, por fora… foram mais de 12… e eu ali, em uma posição constrangedora, urrando de dor e medo, mas agradecendo – a cada fala da médica – pois, afinal, eu tinha tido muita sorte, escapado por pouco de uma fratura exposta.

Limpa e costurada, fui para a parte das vacinas e até consegui fazer graça com o médico, mostrando minha carteirinha de vacinação e dizendo que ao contrário do monstro que havia me atacado, eu tinha todas vacinas em dia. Fiz a anti-rábica mas precisaria ir a Porto Alegre fazer o soro. Meu amigo-anjo da guarda não teve dúvida: colocou minha bike no carro e me trouxe para a capital, me levou pra fazer o soro – mais duas injeções enormes de 10ml em cada nádega – pegar a medicação, almoçar e depois me deixou em casa. Paulo: serei eternamente grata.

Agora estou de molho, perna para cima, tentando reaprender a andar. Economizando movimentos. Ontem ganhei do pastor muletas e aulas de como usá-las. Em breve já estarei pedalando de novo e enquanto este tempo não chega, fico imaginando que tipo de mecanismo vou desenvolver para me proteger de donos irresponsáveis como este que deixou uma fera solta capaz de pular cercas e valões, para fazer os 100 metros rasos e atacar uma ciclista feliz, que vinha sorrindo de orelha orelha e agradecendo cada instante da vida.

Não vou guardar rancor. Cada vez que conto esta história, só encontro motivos para agradecer. E assim, segue a vida. E eu, que não tenho o menor fascínio por tatuagem, acabo com uma caneleira desenhada pela ira de um pit bull do mal…

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