Pedal Punta Montevideo ou….De bike para o GP Ramírez!

O titulo de um texto sempre é importante.  O deste, é óbvio-  Pedal Punta-Montevideo – ou nem tanto, se seguir a sugestão de um amigo: De bike para o GP Ramírez. 

A verdade é que as linhas tortas da vida sempre se cruzam, até mesmo nos títulos….Assim, o que não é exatamente, também não deixa de ser…

A verdade é que aproveitei uma inusitada pausa na última semana do ano e fiz planos de ir para Punta del Este, no Uruguai,  e retormar minha rotina de atleta amadora. Acabei encaixando neste sonho a vontade de conhecer o maior grande prêmio do Uruguai, o GP Ramírez. E, juntando ainda a outra possibilidade, achei que era a ocasião perfeita para colocar mais um desafio em minha vida e desencaixotar o antigo sonho de pedalar pelos horizontes e retas sem fim do Uruguai.  E por que não me inspirar na força e persistência dos cavalos para encarar em percurso de 140km de mala e cuia na bike? A verdade, é que os 140 se transformaram em exatos 151- de porta a porta – e eu não fui exatamente de bike para o Ramírez…mas, que eu tinha os tacos e o fascinator na mochila, não posso negar. Fica como licença poética!

O dia escolhido para a façanha não poderia ser mais emblemático: 2 de janeiro  – o aniversário de 1 ano do ataque do feroz pitbull que me tirou das cicloviagens por  algum tempo, mas que só fez aumentar minha sede de viver e ser feliz.

Na véspera – o primeiro dia de um grande ano, como quem não quer nada, resolvi de mansinho testar o caminho….Não sei se foi uma boa tatica pedalar 100km para traçar minha estratégia. …mas, foi: desfrutei com alegria do vento e da Sierra de Las Animas, 1/3 do camimho do dia seguinte…

 Vento e peso: eu conhecia meus inimigos mas nunca imaginei que o primeiro seria tão intenso. Tentei usar meus conhecimentos de ex-velejadora, mas os primeiros 10km de um través intenso – quase contravento foi cruel. Achei que ia virar a bike. Foi neste momento que o peso tornou-se um aliado. A vida é mesmo surpreendente!

9 da manhã e minha primeira parada: 35 km percorridos, teoricamente um quarto da viagem. As estradas no Uruguai são bem diferentes das brasileiras: bem sinalizadas, pouco habitadas. Assim, vim controlando uma porteira para fazer o pit stop….no deserto e descampado mesmo.

Em frente a porteira que eu escolhi para parar, um portão branco, simpático: “vertiente del angel”. Sugestivo. Adoro este hábito daqui de dar nomes as casas – foi daqui que resolvi batizar minha casa. (Chamei de La Encantada)

Km 45 – resolvi tirar a mochila do lombo porque ela estava travando demais minha “bikebarco”. Alguns quilômetros depois a parte de cima do biquini começou a incomodar.  Como eu estava de corta vento, resolvi tirar e quando estava pensando onde colocar eu olhei para o banco da Flecha Venturosa, ele olhou para mim e tive a idéia: meu traseiro agradeceu.  A esta altura do campeonato o meu escore de inimigos estava assim: na liderança -disparado – o vento e na segunda posição o traseiro que não encontrava posição de conforto. O peso praticamente saiu do páreo.

O vento seguiu incansável.  Se já estava ruim de través, chegou e me pegou de frente na subida. O mais cruel de todos. 

Eu tinha pensado em parar 4 vezes apenas no trajeto, mas depois da primeira parada regulamentar nos 35Km de pedalada, resolvi arregar e parar apenas 20km depois. Foi o Olimpo, ou melhor: o peaje. Na divisa de Maldonado com Canelones pude deixar minha bike bem acomodada, me esticar em um banco…ir no toillete! O maior dos luxos para uma cicloturista! E o banheiro era tão limpinho que tinha até espelho. Passei uma água no rosto e me senti gente.  Não que eu não seja, mas durante a viagem, parece que entro em um transe de tanto engolir horizontes.  Mesmo assim, foi bom demais: me vi no espelho, vi que era real e aproveitei para repassar o protetor solar e até o baton. Segui viagem tentando chegar em um acordo comigo mesma de quanto ainda faltava pedalar: a divergência é porque a Ruta Interbalnearia tem 119Km mas eu contei 140km no mapa…assim, teoricamente o meio da estrada não é o meio da viagem.

E, por falar em meio, na metade presumida decidi parar e tomar um cervejinha sem culpa – para 

abastecer a máquina. Paradores são raros no caminho, e é melhor não abusar da sorte.  Este era um lugar muito simpático, em São Luís, com uma pequena sacada que possibilitou que eu não me separasse da Flecha Ventura. Resolvi comer algo mais consistente, mas, depois da segunda negativa das minhas escolhas – nhoque e depois sanduíche – acabei aceitando a  sugestão do garçon: chivito ao prato com fritas. Ou seja: chutada de balde federal! O ciclista na mesa ao lado que tomava um suco de laranja e um lanche básico chegou a ficar constrangido com minha escolha….mais tarde na estrada passei por ele comprovando minha teoria de que o importante é  ser feliz!

Enquanto degustava meu chivito e derrubava uma cerveja de litro fiz planos de não me enrolar muito, e calculei que com a força do vento – contra! – na melhor das hipóteses até as onze da noite eu estaria em Montevideo. A entrada na cidade me causava certa apreensão, pois no mapa tudo sempre parece mais fácil…. Segui viagem. E o vento também seguiu, indomável! Ventava tanto que o caminho vai ficar na memória com a lembrança de um chão que parecia em movimento: rajado com as nuvens que iam e vinham passando pelo sol. A estrada, sempre muito bem sinalizada, ia servindo de consolo com a quilometragem até a capital uruguaia diminuindo pouco a pouco…na pedalada lenta fui me distraindo com o nome das praias no caminho e os detalhes da vegetação, viajando em pensamentos… Já pertinho de Atlântida,  quando me bateu um certo marasmo, resolvi usar uma arma secreta: saquei de meu super alforje uma mini caixa de som que saltou para a cestinha da frente da bike e sonorizou meu caminho com uma seleção de salsas em espanhol. E assim, cantarolando e treinando o idioma, quando percebi já estava no abençoado “peaje” que marca a fronteira de Canelones com Montevideo! Era hora de se sentir gente de novo e “assuntar” a entrada na cidade. Como não senti firmeza na primeira pessoa que questionei, acabei refazendo o questionamento para o Caminero que, este sim, me convenceu! Como havia muito vento, me desaconselhou a ir pela rambla como era meu plano inicial e disse que o mais seguro era mesmo ir pela Interbalnearia – com acostamento e segurança. Depois, ainda me ofereceu água gelada enquanto repassava todas as coordenadas de como chegar em Montevideo e evitar as avenidas de transito mais tumultuado. Segui viagem. Viagem dura: ao mesmo tempo que tinha a ilusão de estar quase e a excitação de ver a capital no horizonte, o sol seguia implacável, sugando minhas forças. Aumentei a quantidade de fotos no caminho…multipliquei os pit stops para lanche. Sempre de olho no relógio. Quando vi o aeroporto me empolguei….era o gás que precisava! E fui seguindo as orientações do guarda e me realizando ao ver que elas davam certo! Quando fiz a rotonda e entrei em uma avenida ampla e larga, toda arbotizada e vi uma placa indicando enfim o centro da cidade, fui aos céus.  Mais algumas voltas e eu vi o mar…Mar del Plata….eram 20 para as oito da noite e eu estava na rambla, em Carrasco. Cheguei até fazer foto e ia até fazer graça, quando me dei conta que ali era apenas a ponta do iceberg e, voltando assim a terra, vi a placa que indicava a distância da rambla até o marco da cidade: 22km. Sim, euforias à parte, cheguei na capital uruguaia mas, até o meu hostel, pertinho do ponto zero de Montevideo ainda tinha um bom chão.  E, em camera lenta, eu fui pedalando pela orla, já cansada de lutar com o vento, e simplesmente me deleitando com o espetáculo de despedida do sol e chegada da lua… cheia! Um pouquinho antes das 11 já estava na rua do meu hostel. Uma quadra antes, já olhando para ele, parei em uma vendinha para comprar condicionador e, claro, uma boa cerveja! Sim, eu precisava me hidratar e não imaginava ter forças para mais nada após um justo e merecido banho de miss…e não é que consegui? O dia -longo e feliz! – ainda terminou com uma pequena volta pelas ruas de Montevideo, alguns suspiros na Fonte dos Cadeados, duas húngaras com queijo e um bem servido chopp no La Pasiva…

Nos dias seguintes dei uma folga para a Flecha Venturosa – que ficou divando no hall do hostel – e me dediquei ao turfe. Fui, enfim, ao Ramírez. Não de bike, mas com a experiência de um Centauro, na qual eu fui o joquei e minha bike o cavalo, por uma reta – ruta – sem fim que roubou-me as energias mas me deu força… A força de acreditar, cada vez mais nos meus sonhos!

P.S.: 7 de janeiro, dia de juntar as tralhas, equilibrar a bike e  pedalar para a Rodoviária e se despedir do Uruguai.  7 de janeiro, Terminal Tres Cruces, 261.21km pedalados. É, 2015 começou bem!

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