Família Hípica


Quando vim trabalhar no Hipódromo só faltou eu receber pêsames. Era nítida a lástima das pessoas pela minha escolha… algumas pareciam até ter pena de eu vir trabalhar em “um antro da perdição” com jogo e pessoas de índole duvidosa – como alguns disseram. A reação positiva veio apenas dos amigos mais “viajados”… a destacar um pastor que lembrava com emoção uma corrida de cavalos que assistiu na Austrália e que, logo depois de expressar sua alegria com minha nova ocupação, perguntou entusiasmado: “Posso ir um dia no hipódromo? É lindo demais!”
Passados um ano e meio do início de minha carreira no Jockey – ou seria campanha – só consigo enxergar coisas boas e valores louváveis no meio hípico, aqui encontro boa parte das coisas que prezo na vida: esporte, natureza, gente com histórias de vida, desafio. Possibilidades infinitas de fazer mais e fazer melhor. Isso sem contar o constante contato com o mundo, com diferentes mundos, o que me encanta.  Em nenhum outro trabalho, com exceção do período que estive em Genebra, eu fui exigida constantemente a pensar em 3 idiomas…Gosto disso. Me faz querer ser melhor.
E, cada vez mais, percebo que o tal “antro” é na verdade uma grande família, a Família Hípica. Tomo a liberdade de me apropriar deste termo, utilizado por uma colega jornalista peruano. Depois de conhecê-lo durante o Grande Premio Carlos Pellegrini, na Argentina, encontrei-o no Hipódromo de Las Piedras, no Uruguai, às vésperas do Grande Prêmio Ramirez. Ele comentou como sentia-se a vontade em qualquer hipódromo do mundo pela afinidade com a corrida de cavalos e com a gente que faz o espetáculo acontecer. Momentos de silêncio, os cavalos cruzam o disco e fica a certeza: a emoção da corrida de cavalos é universal!
Como eu estava de visitante – curiosa e interessada – em Las Piedras, mas me sentindo completamente em casa, minutos depois eu já apresentava o hipódromo ao peruano e falava do encantador modelo uruguaio no qual o turfe tem papel importante no desenvolvimento da sociedade e é vivido em todas as suas dimensões: esportiva, cultural, social, econômica. Um pouco depois, minhas amigas uruguaias estavam dando entrevista.  Não resta dúvida: juntos fazemos um turfe melhor e a definição de família é a mais exata:  torna o turfe um modo de vida, no qual cada um divide sonhos e todos trabalham em sintonia e vencem desafios com união, inclusive as diferenças deste universo tão eclético. Família, não importa o tamanho nem a distância sempre faz a diferença pois dá a segurança necessária para avançarmos. Ainda não conheço muitos Hipódromos, mas quanto mais conheço fortaleço a crença de que este é o caminho a ser perseguido. Assim, me sinto a vontade para desbravar novos horizontes pois sei que estarei sempre em casa. 
E, quanto ao jogo, aí está outro preconceito que vai por água abaixo: quanto mais assumo e vivo meu papel na família hípica, mais tenho o convicção de que não existe azar: existe falta de preparo e dedicação. O turfe, não é sorte, é técnica. A velha história de que apenas no dicionário o sucesso vem antes do trabalho. Treinadores madrugam para preparar seus cavalos. Joqueis estudam percurso e oponentes. Proprietários buscam o que há de melhor para seu plantel. Empregados da hípica brigam para ter um espetáculo cada vez melhor. E, no final, todos se abraçam, alguns chegam a encher os olhos de lágrimas. No final, todos comemoram e querem trazer seus entes queridos para o hipódromo para sentir toda a grandiosidade e emoção que tem o esporte dos reis. Para levar adiante uma paixão…e, assim, a família cresce!

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