O dia em que meu coração parou nas patas de um cavalo

Ante véspera de grande prêmio. ..eu entrei correndo na pista, atravessei a pista externa correndo pois precisava chegar no meio de todas pistas para medir o disco de chegada. Na pressa de tirar medidas, quase esqueci que era dia de pareo. E aconteceu um instante mágico, que na minha memória sempre retorna em slowmotion. Tive que esperar para cruzar a pista interna, pois os cavalos que iriam disputar aquele pareo tinham acabado de entrar para fazer o passeio. O publico nas minhas costas, os auto falantes do hipódromo. A tensão do evento que se aproximava e por incrivel que pareça, naqueles instantes o tempo parou.  Eu com meus 1 e 83 me senti uma  anã diante dos gigantes que vinham, um a um, margeando a pista. Me lembro de com um olhar atento mapear cada cavalo contido por seu joquei. Fechei a boca. Achei que o coração ia sair por lá. E, por falar nele, ele batia descompassado e parece que apenas a precisão e força de cada pata do cavalo que afundava na areia parecia contê-lo, como se fossem elas – as patas – que determinassem o ritmo do meu corpo. Em uma fração de segundo lembrei do experiente joquei que quase um ano atrás havia me dito que o cavalo sabe quando vai ganhar e procurei estabelecer comunicação. Até minha  respiração parecia comandada por eles. Instantes eternos. Nos quais eu olhei dentro dos olhos de cada um – cavalo e joquei – como se quizesse que eles me segredassem quem afinal iria ganhar. Instantes eternos – nos quais eu pensei que aquela poderia ser a última vez, o último olhar, afinal o turfe é um esporte no qual o desafio ao limite da velocidade também pode ser a linha tênue que separa vida e morte. Foram tantos pensamentos em tão pouco tempo…O meu escolhido ganhou. Depois o jóquei disse que eu tinha dado sorte. Mas estou certa de que não foi sorte.Quanto mais vivo e convivo no hipódromo,  mais admiro os cavalos: vejo que não há sorte e sim treinamento duro e regrado. Existem horários e dieta alimentar. Existe determinação.  Determinação, entrega e paixão – tudo que faz de um atleta um grande atleta em todos os sentidos. Nunca tive o perfil de tiete, mas confesso que tenho meus ídolos, tenho meus heróis.  E agora há entre estes seres e saberes um de quatro patas – genérico – mas de puro sangue inglês! 

Depois deste dia em que meu coração parou mas patas de um cavalo – um cavalão – para ser mais exata dois dias depois, esqueci de tudo por breves momentos para assistir o GP Bento Gonçalves na beira da pista, saltos enterrados na areia, como se eu quizesse me conectar com meus ídolos. Lembro até hoje do amigo jornalista que assitia ao meu lado e me disse: “sei que não está entre os favoritos, mas gostei deste tordilho”. Dito e feito: o tordilho – Whoopee Maker – ficou com a taça, tendo como segundo colocado outro que não era cotado como favorito. E com a “dobradinha da superação” festejei com amigas o resultado e mais uma lição dos meus ídolos: não existe disputa perdida para quem não se entrega. Não interessa largar ou estar em primeiro…o importante é acreditar. Mais cedo ou mais tarde, cruzamos o disco da vitória! E os cavalos seguem me ensinando…hoje já percebo como eles parecem até menores do que na verdade são na reta final – como se quisessem se fundir com o ar e se tornar mais rápidos- , mas como, no entanto, se agigantam após cruzar o disco da vitória.  Para vencer, é preciso se transformar, se importar, querer muito…eles me mostram o caminho…

Quantas vezes me senti pequena diante de um desafio para depois me preencher de tanta satisfação a ponto de transbordar diante do objetivo conquistado!

Esta história começa em novembro de 2014. ( Na verdade começou muito antes, quando eu era criança e ia visitar minha dinda na Zona Sul sonhava em conhecer aquele lugar grandioso e radiante…mas esta é outra história!) Em junho de 2015 – em um dos tantos momentos intensos de convivência com meus ídolos de quatro patas – cheguei ao final do dia ( e ao final das baterias)  e percebi que tinha perdido um brinco. Nada de valor, a não ser sentimental. Pois não é que um mês depois, eu de volta a vida e completamente energizada, encontro com o fotógrafo do clube que me estende a mão fechada, abre na minha frente e pergunta: “é teu Carol?”. Sim! Era o meu brinco. Ele tinha encontrado no meio da pista. A coincidência é o brinco não ter se perdido no meio da areia, ele ter ficado lá – escondidinho?  – até eu me recuperar. Tolice ou passe de  mágica? Não importa. O fato é que a conexão está feita e eu tive esta certeza quando me flagrei aos prantos chorando a morte prematura do tordilho Whoopee Maker…

Assim, desde aquele instante eterno percebi que o meu coração bate nas patas de um cavalo…

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