Ladys Day e o nó na garganta – workaholic

Eu sou um mostro. E um dos que ajudou a criar este monstro foi um chefe que tive que disse: “a Carol é coração”. Na ocasião não sabia se era bom ou ruim, mas o fato é que ele acertou na mosca. E, como de uns tempos para cá resolvi ser exatamente o que sou, sem máscaras ou a cobrança de ser como a maioria é.  Esta foi uma decisão libertadora, mas que me deixou ilhada, pois são poucas pessoas que têm a coragem de lutar pelos seus sonhos custe o que custar e viver pelas guias de seu coração. 

O que eu sonho? Ser feliz a cada momento, seja no trabalho ou na vida pessoal. Quero viver, fazer meu melhor, superar limites…quero compartilhar coisas boas…

Nos últimos dias, vivi um dos maiores desafios da minha vida: vencer com a cabeça os estragos que o coração fez no corpo. O coração resolveu “me detonar” pois estava dilascerado pela falta de comprometimento de algumas pessoas diante de uma grande festa chamada “Ladies Day” e seu pensamento medíocre de apenas fazer, ou fazer por fazer,  quando tínhamos na mão um verdadeiro diamante em busca de lapidação. Assim, há pouco menos de 10 dias do evento me vi golpeada pela somatização e fui parar na emergência com um diagnóstico concreto: “sua musculatura está tão contraída que a coluna está sem a curvutura natural”. Raio X, injeções,  muitos remédios e a indicação de ficar de molho até o final de semana. Mas era apenas quarta-feira e o evento cada vez mais próximo.  Na quinta ignorei a orientação médica e não consegui ficar sentada mais do que uma hora e tive que voltar para casa. Contrariada e com dor, peguei o note e tentei trabalhar em casa. Adiantou um pouco, mas não o suficiente, uma vez que a medicação me dava sono na tentativa de deacontrair a musculatura. 

Fui aos trancos e barrancos…pensei em desistir, afinal, que pode valer mais do que minha saúde? Não.  Nada neste mundo vale. Foi quase quando eu estava jogando a toalha que resolvi: se a mente criou, vai ter que resolver!!!

Na segunda-feira tive a idéia maravilhosa de levar meu saco de dormir para neve e colocá-lo na cadeira do escritório,  como se fosse um bolsa de água quente gigante. Ajudou. Segui na linha de que a guerra era entre corpo e mente e tentei imaginar uma espécie de chave seletora que separasse a dor. Ela podia continuar judiando meu corpo, eu só não queria mais sentí-la tão intensamente. Fui abstraindo e parecia que a mente, enfim,  estava ganhando um round. Fluiu….nisso nem percebi e virei a noite fazendo o que tinha que ser feito. Recuperei um pouco o atraso e completei uma jornada de 36 horas non stop. Fui para casa e no dia seguinte acordei sem pressa e quando a dor começou a abrir o berreiro recebi a mensagem do amigo peruano dizendo que a delegação já estava a caminho do Jockey. Mais um round para a mente: a sensação de ser parte do mundo, de estar inserida em uma paixão que extrapola barreiras geográficas ou idiomáticas,  é para mim um energético potente. 

Cheguei no Hipódromo e na minha sala já estavam as joquetas de 4 países – Canadá,  Equador, EUA e Peru – junto com um de nossos jóqueis, proprietários e jornalistas, estudando as corridas e os cavalos. Chorei de emoção e alívio. Estava em vantagem. E o dia seguiu com agenda intensa. No jantar de confraternização descobri que no dia seguinte – a esta altura já o grande dia do evento – o grupo de joquetas de língua espanhola queria ir pela manhã trabalhar os cavalos. Mas estavam sem ninguém qe fizesse o meio de campo. Não tive dúvida e decidi que estaria lá para recepcioná-los. Palavra dada, compromisso assumido e me lembrei que ainda havia trabalho para fazer. Paciência.  Resolvi que seguiria até quando meu corpo aguentasse. Eram 4 da matina quando terminei de fazer o mínimo que tinha que ser feito. Depois gastei mais meia hora buscar no closet um vestido que servisse, já que estou completamente acima do peso. Feito! Depois gastei outra meia hora escaldando a coluna em um banho quente e neste relax já fiz o cálculo que não haveria tempo para domir, já que o motorista da van me pegaria as 5h45. Estendi um cobertor no chão, deitei e coloquei as pernas em cima do banco do meu escritório,  tentando ao menos relaxar e fazer com que mente ordenasse que este ainda não era o momento de se entregar. Logo logo a van chegou, buscamos a delegação no hotel e fomos para o Hipódromo.  Estava amanhecendo um lindo e colorido dia. A está altura a mente já tinha perdido qualquer compostura e dito para o corpo: foda-se! Eu saltitava de um lado para o outro e os treinadores só rindo se a minha “duracell” iria aguentar até o final do evento. E mal sabiam eles que eu estava virada. Otimista, eu até tinha levado um cobertor – o saco de dormir já estava lá – mas, não deu tempo.

Foi gincana. Corri tanto que já nem sabia meu nome. Mas também não podia parar senão desabaria. No meio da manhã – o primeiro choro de raiva, pela petulância, falta de comprometimento e descaso com o próximo.  Queria bater – mas resolvi correr (espaço é o que não falta no hipódromo) e aproveitei para arrumar as bandeiras.

Felizmente chorei de felicidade um tempo depois, ao ver os sonhos tornando-se realidade com a saída das joquetas pelo túnel de mão com as mini-joquetinhas ao som de Pretty Woman. E, bem na frente a pequena Olivia com a bandeirinha do Jockey que eu tinha feito para me acompanhar no pedal Maceió-Recife. Que momento!

Mas….não há tempo de sentimentalismos: felizmente desta vez tínhamos um cerimonial! E eu fazia parte dele: peguei duas mini-joquetinhas pela mão,  pegamos duas bandeiras – Equador e Eua – e com elas estendidas saimos nos três a cumprir o cerimomial seguida pelas outras gerentes….Enquanto dei a volta de mão com as crianças pelo pelo padock e pavilhão social, me senti um pouco leve pois naqueles imstantes eu era parte da poesia que foi este Ladies Day. Quando chegamos em frente ao pavilhão social e vi os gramados repletos de crianças,  com famílias fazendo piquenique,  chorei mais uma vez por encontrar outro sonho transformado em realidade.

E seguiu o “baile”. Eu já nem lembrava que tinha coluna, musculatura ou qualquer outra coisa assim.

Novos momentos de sonhos realizados se sucederam, como ver as crianças pintando desenhos de cavalos ou um páreo só de proprietárias mulheres sendo recebidas com rosas de nossos canteiros e uma interpretação ao vivo da música “Por una cabeza” – quase um hino de paixão ao turfe. Ver nossas joquetas brilhando a cada páreo,  ver as pessoas se encantando com o mundo maravilhoso da corrida de cavalos….tudo isso foi me dando energia para seguir em frente.

No meio tempo, ainda tinha que dar alguma entrevista – em português e espanhol – e fazer as vezes de RP.

Quando finalmente consegui subir a Tribuna VIP para apresentar o cerimonial e o presidente disse que meu ex chefe estava a minha procura – aquele que tinha dito que eu era coração – foi um estímulo poder dar-lhe um abraço e cochicar em seu ouvido: “criastes um monstro. Mas eu te amo”. 

E este dia infinito, de emoção e glória encaminhou-se para o fim quando eu ataquei um garçom e pedi algo para comer lembrando que eu estava só com uma banana que uma colega felizmente me deu e me obrigou a comer pela manhã. 

Realizamos deferência as mulheres homenageadas no Ladies Day e um pouco depois a premiação do IV Torneio Internacional de Joquetas. 

Fim de festa. 

Ou melhor, quase. Ainda fui me despedir da delegação estrangeira e tive o último choro de raiva do dia pelo mesmo motivo do outro: incompetência e descaso com as pessoas. Pessoas que aceitaram nosso convite e vieram de muito longe para abrilhantar nosso evento. Isso meu coração não aceita. 

Tive que ser grossa e incisiva para chamar à responsabilidade a colega negligente. Resolvido.

Agora sim. Fim de festa. Fui para meu escritório,  tirei o fascinator, coloquei a jaqueta e chamei o táxi: “Para onde senhora?” “Para a emergência do Hospital Mãe de Deus” disse eu para surpresa do motorista. 

Foi sentar no táxi que o choro recomeçou – agora um misto de alívio, exaustão e dor. Sim, depois de mais uma jornada de 36 horas non stop a cabeça perdeu este round e a coluna uivava e a lombar estava tão cheia de nós que pareci que eu tinha a couve-flor sobre as nádegas.  Mas, a escolha foi minha. Sou coração – que bombeia sangue – e nunca saberia viver e agir como uma sapo, esperando um pontapé para ir adiante.

Graças a Deus a emergência era só minha. Mesmo assim ainda esperei uns minutos – que me deram a oportunidade de saborear um carinhoso chocolate quente de máquina.  O médico chamou, me sentou na maca e perguntou o que tinha acontecido.  Foi eu abrir a boca que já virei uma cachoeira. O enfermeiro segurou minha mão e quanto mais eu falava, mais eu chorava. O médico foi pegar um lenço para mim e enquanto eu tentava me recompor ele disse que eu estava no limite da exaustão, que precisava parar. Ou… Examinou o local das dores e a esta altura pareci que ele estava enfiando pregos  minha lombar. Ele olhou o raio-X e foi lá fazer as prescrições.  Enquanto isso o enfermeiro seguia apertando minha mão para tentar estancar meu choro. Não tive coragem de contar que estava sem dormir e, o pior,  que nem sequer tinha sono.

Mas, acho que o médico era um pouco bruxo e sentiu toda a batalha que eu tonha travado nos últimos dias e além de duas injeções bem dadas e doloridas, me receitou remédios mais fortes do que os da semana passada e incluiu um tarja preta, para que eu dormisse. Na hora de me liberar, me deu um abraço apertado e demorado, como se com ele quizesse suavisar todos meu males e pediu uma vez mais que eu não fizesse mais isso e buscasse um pouco de descanso na companhia de amigos. Cheguei até a ficar envergonhada pois eles estavam com pena de mim e ninguém me obrigou a nada…só fiz o que o meu coração mandou. É por isso que admito que sou um montro.

Sai do Hospital, atravessei a rua e fui no postinho comprar a medicação.  Aproveitei para comer uma pizza e um mega calórico chocolate até que enfim peguei um táxi rumo a minha casa. 

No dia seguinte acordei melhor e em estado de alerta: vou ter que me cuidar. Nesta “brincadeira” perdi 5 kg em 2 dias – o que eu até preciso, mas, não assim.   Por 2×1 a mente venceu. Mas, até quando? 

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