Esse tal de turfe

Depois de uma certa idade, confesso que fiquei ainda mais chata. Sim, me dei ao luxo de quebrar regras e seguir sonhos. De escolher viver e fazer apenas aquilo que me faz feliz e, deste modo, deixei também de trabalhar.  Tenho que admitir, não é de hoje minha paixão pelos cavalos de duas rodas e quatro patas. E é o máximo quando consigo  unir meus “bem quereres”…  e isso aconteceu mas uma vez agora, em meados de julho, quando fui convidada a refazer – de bicicleta, o meu cavalo de duas rodas – os caminhos do Imperador D. Pedro II, da foz aos cânions do Rio São Francisco, em uma gostosa e suada costura entre os estados de Alagoas e Sergipe.

À medida que a gaúcha aqui foi se afastando do litoral – e assumindo o pseudônimo de galega – as cidades escasseando e o agreste virando sertão, maior foi meu encantamento com o amor latente pelos cavalos que dividiam a estrada comigo em tantos momentos. E vieram também as mulas, os jegues, todo o tipo de equinos, muares e asininos – para ser mais exata. E, se me diziam que os gaúchos amam os cavalos, precisei ganhar um pouco mais de mundo para ter a certeza que este não é um privilégio dos sulistas. Falta pouco para ter certeza de que esta é uma paixão universal! Foi lindo ver o orgulho de um povo sofrido tocando seus animais pela estrada.  Ver tudo que eles representam: meio de transporte, ferramenta de trabalho, instrumento de diversão, sinônimo de liberdade…ou libertação?!  Numa das tantas curvas da estrada, não resisti ao apelo daquele animal pequenino e orelhudo e montei no jegue! Foi uma experiência única: entre tensão e encantamento, coloquei  o pé no estribo e me fui…realizei o sonho de  – apenas com um bolear de perna – completar a montaria. Fiquei viajando na sensação maravilhosa que deve ser montar um cavalo de corrida e disparar mais que o vento… ah, que coragem tens os jóqueis… Mas, para os medrosos – como eu – bem que o jegue faria sucesso em um de nossos hipódromos, como atração para as crianças crescidinhas como eu! Já tratei de “assuntar”…  Enfim, os sonhos ainda são grátis!
Mais adiante cruzei com um cavalo branco em disparada na contramão e ao procurar pelo príncipe encantado (não, não foi desta vez!) vi que ele estava sendo “tocado” por uma moto… cena para lá de inusitada, e tão a cara daquele pedaço iluminado de chão.   Em outro trecho da pedalada, cruzei com um grupo de cavaleiros  com os seus animais todos enfeitados e um deles viu meu encantamento e até parou para o  foto. Em uma região onde nem água tem, enfeitar o cavalo, me parece um luxo, uma daquelas loucuras que só mesmo que ama é capaz.

                Nos muitos quilômetros seguintes de ladeiras, sertão e horizontes  fiquei tentando imaginar como seria ter um templo de adoração dos cavalos – um hipódromo – naquela região tão inóspita. Só me vieram  bons pensamentos. Pensei na economia movimentando, na paixão multiplicada, nos horizontes ampliados… pensei nos sonhos que poderiam ser semeados no coração de toda gente  e lembrei do amigo jóquei filho daquelas terras que atravessou continentes e  foi coroado no além mar. Quantas crianças seu exemplo poderia inspirar?  E, para coroar as idéias que lancei para o universo, no último dia de pedal, já em carreira solo, em um pit stop nas margens do majestoso São Francisco, encontrei audiência para falar do esporte dos reis. “Então é esse tal de turfe?” Me perguntou o Excelência – meu novo amigo filho legítimo de Canindé de São Francisco – que me presenteou  com um chaveiro em forma de sela. Logo depois – para minha surpresa, fez outra pergunta: “Na Gávea, não é?”. Claro que seria demais imaginar que ele conhecesse o “meu” hipódromo… mas saber o nome de um, foi o máximo! Foi como mais um sinal para que eu siga sendo chata e me dedicando apenas aquilo que eu acredito. Pronto! Já imaginei uma grande tela ali em Canindé mesmo, ao lado de Lampião e Maria Bonita, mostrando as corridas de cavalo – esse tal de turfe – e o povo todo chegando: de jegue, de  burrico, ou cavalo de duas rodas, como eu!

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