Derby de Viña del Mar

4 dias, 3 hipódromos, 1 anfitrião com 19 anos de paixão e conhecimento do turfe e uma oportunidade única de viver o Derby de Viña del Mar, um evento que em sua primeira edição, há 130 anos atrás reuniu três vezes mais pessoas que a população da própria cidade. Um evento que se mantêm vivo e pujante e este ano alcançou a incrível cifra de 150 mil pessoas e um recorde de apostas em um único evento – 2,2 milhões de dólares – e em uma única carreira – o Derby, com 313 mil dólares apostados.

Este é o Derby Day! E quem pensar que ele começa na semana anterior, com um baile de gala no qual é feito o sorteio dos boxes, ou alguns dias antes com a escolha da Miss Derby, se engana. O sonho do Derby Day começou no ano de 1882, quando a prova foi concebida, mas realizou-se apenas 3 anos depois, quando foi possível reunir um número consistente de cavalos.  Em todo Chile haviam apenas 17 psi.

Mas a Hípica Chilena cresceu muito e mostra força em seus 4  principais hipódromos, mais de 200 agencias de apostas e um turfe que paga sua própria conta: não há qualquer subvenção do governo, que, pelo contrário, cobra impostos e sobretaxa a atividade. A exemplo de outros produtos, o Chile exporta suas carreiras para EUA, França, Turquia – só para listar os principais destinos.

Voltando a organização do Derby, o sonho de ter um cavalo no Derby é acalentado desde o início da geração: a cada ano é feita uma chamada para uma inscrição antecipada, que pode garantir o ingresso do animal. E assim, a cada ano, é dada uma nova oportunidade, uma segunda e terceira chamadas, na qual o valor da inscrição cresce gradativamente. É este montante que garante uma premiação de 60 milhões de pesos chilenos ao primeiro colocado – cerca de 300 mil reais – e também paga a conta do evento. Assim, de olho na possibilidade de garantir um box no Derby de 2017, este ano os criadores  já pagam/apostam neste sonho.

Festa dos Cavalos “Fina Sangre” – como são chamados os psi no Chile- o Derby de Vina del Mar é também uma festa do povo, que faz parte da agenda cultural do país.  No dia anterior, precisamente ao meio dia, são abertos os portões do hipódromo e a esta altura já há uma grande fila de carros para a oportunidade única de acampar na bacia central da pista e garantir uma visão privilegiada do espetáculo. Barracas, trailers, guarda-sóis, banheiros químicos e três telões gigantes – além de um som impecável – garantem que todos poderão apreciar cada detalhe da festa máxima do turfe. Assim, trazer público para o Derby definitivamente não é um desafio, acontece naturalmente. De qualquer forma, na véspera do grande dia um cortejo de carros antigos liderados pela Miss Derby percorre os principais pontos turísticos ao som inesquecível do hino do evento que lembra a todos:  ” é uma dia muito especial aqui em Viña del Mar. Esta tudo preparado, é um dia familiar. (…) Se respira no ambiente só turfe é nada mais. Todos em posição, se abre o partidor, começa a emoção… “. Ao cortejo se juntam várias damas trajadas de acordo com a etiqueta do turfe, que representam todos os patrocinadores do evento e também um grupo  lindas joquetas que distribuem a todos ingressos cortesia do evento. Neste momento, cabe destacar uma situação única: lado a lado, damas da Coca Cola e da Pepsi – ambas patrocinadores do evento.  Como pode? As duas maiores rivais do mercado da Cola juntas? O Gerente Comercial me conta que após de uma briga cerrada ano após anos as marcas cansaram e consentiram em repartir o valoroso espaço do Valparaiso Sporting e os holofotes do Derby. O passeio inclui o principal o shopping da cidade, praias e termina por parar a avenida central da cidade. A cada metro, a alegria de moradores e turistas com tão animado grupo, que vai escoltado pela Polícia e duas camionetes adesivadas com a arte do Derby, munidas de poderosos alto falantes e que servem de camarote para jornalistas e fotógrafos, que registram cada momento do percurso.

Este é o sábado que antecede o Derby e a esta altura já é possível entender porque o slogan diz – El Derby 2015, el máximo desafio – Porque para viver o Derby integralmente é preciso muita energia! No domingo, serão 28 páreos, a partir das 9h30min da manhã, culminando com o Derby, as 20 horas e com o último páreo correndo as 23h15. É claro que eu decidi ir logo no início, para não perder nenhum detalhe. Acabei me atrasando um pouco, pois os colegas jornalistas chegavam a fazer fila no café da manhã para me alertar que seria um dia muito cansativo e que eu devia me preparar. Mas eu não me amedrontei: de salto e fascinator, fui caminhando até o Hipódromo, que ficava a uma quadra do Hotel e no dobrar da esquina vi que era real: gente de todos os cantos na mesma direção que eu, fila de carros, uma multidão como poucas vezes vi na vida e, o mais encantador de tudo: tudo isso em torno dos cavalos.

Aproveitei para conhecer o Hipódromo nos primeiros páreos, já que as pessoas não paravam de chegar e depois seria impossível caminhar.

No passeio dos cavalos, outro super telão e também um carro zero, convidando todos a anteciparem suas apostas no ganhador do Derby. Sim, que promoção: uma semana antes já se podia apostar no vencedor do Derby e concorrer a uma carro O km e 5 prêmios de “consolação”: multiplicar por 50 os dividendos.

Como única brasileira no Derby, acabei me acomodando junto aos apresentadores oficiais do evento, Don Elias Gomez e Rommy Artigas e virei atração: perdi a conta de quantas entrevistas dei falando sobre o Hipódromo do Cristal e seu novo momento: investimento nas pistas, filiação a OSAF,a criação da Confraria do Chapéu, a busca constante de melhorias. E assim, falando do que eu acredito, ao contrário do que tinham me alertado, o dia passou leve.

Próximo ao deck de entrevistas, um coreto com um quinteto de músicos, davam um trilha sonora especial para cada clássico. Fora isso, no intervalo das entrevistas e dos páreos, todos os mimos possíveis: café, sucos, tortas… O cuidado era tanto que acabei almoçando duas vezes! Uma com o pessoal da TV, outra com a Diretoria doValparaiso Sporting. E o tempo estava tão doce que lá estava eu degustando um prato de frutas frescas quando meu anfitrião me perguntou se eu queria assistir o Derby da pista. Não pisquei, não pedi licença, levantei correndo e fui e aí só estando lá para entender! Fomos para o passeio, onde juntam-se proprietários, treinadores, jóqueis, imprensa. Onde é feita a foto oficial, com a Miss Derby e os jóqueis, onde os minutos que antecedem o Derby parecem intermináveis. Como disse o treinador do cavalo ganhador do Derby, Sergio Inda, em entrevista “estou tranquilo-nervoso.” Sim, ele tem razão: a esta altura do campeonato, não há mais nada que possa ser feito, mas, por outro lado, é difícil não sentir toda a vibração e expectativa que cercam estes instantes. De um lado, o grupo de cortejadores. De outro, um a um os 16 cavalos recebem montaria e vão em direção a pista. Por todos os lados gente. Gente vibrando, torcendo pelo seu favorito.  E a nossa chegada na pista foi também para lá de emocionante: “assim que passar o último cavalo, nos vamos atrás dele”- me disseram meus colegas jornalistas. E, do passeio até a pista, tivemos que passar por baixo do prédio principal e cortar um verdadeiro mar de gente com muita vontade a quase nada de delicadeza. Era assim ou não chegávamos. Mas, deu certo. E quando vislumbramos a pista, ainda pegamos de rescaldo todos os aplausos para os cavalos e jóqueis e a emoção foi imensa. Não me lembro de outra multidão tão empolgada…e a vibração só aumentou: quando a banda entrou marchando na pista de grama e executou o hino nacional não fiquei só na vontade de chorar…

Creio que tive uma oportunidade única: se o Derby já é normalmente pura emoção, este ano teve um ingrediente a mais: o cavalo favorito e que venceu por 9 corpos e um quarto a prova máxima do turfe chileno é de um jogador de futebol, Arturo Vidal, hoje no Juventus. Assim, duas paixões se somaram: cavalos e futebol e o resultado foi ainda mais mobilização e comoção do público que via no cavalo um duplo ídolo. Aliás, nos vencedores, do cavalo ao proprietário – histórias de superação que formam verdadeiros campeões. E o nome do cavalo não poderia ser melhor: Il Campione. Um cavalo que poderia ser o novo tríplice coroado chileno se não tivesse rodado na partida do St. Leger. Mas, que mesmo assim, quebrou o tabu de que um vencedor da Copa Jackson não ganha o Derby e que espera também fazer história, ao vencer o Latinoamericano, em março, na Argentina.

Eu tentei deixar a câmera filmando a reta final do Derby, mas a euforia estragou a filmagem. Contudo, ainda deu tempo de fazer uma foto, que parecia não ser a dos segundos finais de uma prova tão eletrizante quanto o Derby, afinal, Il Campione estava sozinho no disco, de tanta a vantagem, quase de lado, como se saudasse o público. Inesquecível.  

Mas, as emoções do Derby não param por aqui: todos envolvidos na vitória tomaram conta da pista e entre choros, gritos e uma visível falta de ar, como se fosse necessário tomar fôlego para acreditar na conquista, formou-se uma “bagunça organizada”. Sim, no Chile tudo é organizado – com cavalos e cachorros, os oficiais já estavam perfilados na pista, resguardando o acesso ao pódio localizado no interior da pista. Um tapete vermelho cobria a raia de areia para que ninguém tivesse contratempos para acessar a premiação. A corte de damas representando os patrocinadores já estavam perfiladas. Uma chuva interminável de papel picado e os aplausos do público consagraram os vencedores do Derby. E, como a influência britânica não esta apenas presente na arquitetura do Hipódromo mas também na pontualidade e respeito aos horários, o próximo páreo já se preparava para largar e todos deixaram o pódio para se dirigir a uma tenda ao lado, onde, na saborosa companhia das taças e fotos da vitória, foi concedida uma coletiva de imprensa. Dentre as diversas perguntas, a que mais me chamou atenção foi uma destinada ao joquei Hector Berrios, sobre o momento em que ele sentiu que o páreo estava ganho. O surpreendente em sua resposta foi a afirmação de não ter forçado Il Campione em função da grande vantagem. Se correndo “solto” ele obteve 9 corpos e ¼, imagine forçando?!

Ainda foram disputados mais seis páreos e, de uma das lindas salas do Diretório, vimos as últimas disputas enquanto a multidão, silenciosa e pacificamente deixava o Hipódromo. Dividindo a mesa, o Gerente do Hipódromo e os oficiais da Polícia Chilena – os Carabineiros – que justamente comentavam como o turfe é capaz de mobilizar tanta gente sem nenhum episódio de briga ou qualquer espécie de transtorno.

Depois do último páreo, ainda fui a TV e um dos locutores me contou empolgado que nem parecia que ele tinha ficado falando 14 horas: “é tão emocionante que eu não sinto o cansaço…vou dirigindo agora para Santiago (1 hora e meia de carro) e chegando em casa ainda me custa dormir”. O entusiasmo contamina a toda equipe do Sporting Valparaíso – em nenhum momento da longa jornada presenciei qualquer reclamação… só encantamento! E o entusiasmo me contaminou também, que volto com o desafio de fazer com que cada vez mais pessoas – a exemplo de Viña del Mar – possam desfrutar do ambiente inegualável do Hipódromo e se divertir com toda a emoção das corridas de cavalos.

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