tributo ao homem que me ensinou a andar com as mãos

O homem que me ensinou a andar com as mãos me foi apresentado pelo homem que me ensinou a respirar fundo diante das adversidades. Eu queria subir na Pedra da Gávea e o segundo disse que ia me apresentar um amigo que era super atleta que poderia me conduzir. Achei que era linguagem figurada…independente disso, fiz contato. Fui para o local marcado e fomos de táxi até quase a boca do mato. Em uma padaria ele me instruiu a levar bastante água e indicou um lanche – que comemos mais tarde com uma das mais maravilhosas vistas do Rio de Janeiro. 

Durante toda a trilha – caminho longo e desafiador – o silencio predominou, como se pedissemos, em uma oração, permissão para adentrar na floresta. Contudo, ao ouvir algum som da natureza, eu perguntava e ele sempre sabia dizer de onde vinha, de qual animal “saia”… Ele valorizava cada detalhe da natureza.

O homem que me ensinou a andar com as mãos,  andava pela íngreme trilha como se fosse uma passarela, com aaior naturalidade,  como se fosse simples e fácil. Foi ele que me ensinou que antes de dar o passo seguinte é preciso saber se o pé está firme. Foi ele que me ensinou a usar as mãos para ir adiante, para ter segurança.  Reforçou a lição de que é preciso calar o coração para escutar a música da natureza. Missão cumprida. Topo da Pedra da Gávea conquistado. Depois de flagrar gaviões e saguis e congelar na carrasqueira, o que parecia mais ameaçador de tudo era ficar trancada em um congestiomento dentro do túnel,  na “terra dos homens”, de volta para casa.

O homem que me ensinou a andar com as mãos me deixou em casa e quando eu agradeci aquela experiência mágica, me retribuiu com um convite para conhecer uma cachoeira no dia seguinte.  É obvio que aceitei. Fui pedalando e um pouquinho depois da hora marcada o encontrei. Pelo meu atraso, tivemos que mudar o roteiro. Pedalamos mais um pouco,  prendemos as bikes na mata, e já com o sol se pondo e a lua cheia se impondo – majestosa – começamos a subir. Usando as mãos.  Ele disse que não havia perigo, que ele tinha trazido luzes de cabeça caso fosse necessário e que o pior poderia acontecer era eu colocar a mão em um sapo ao me agarrar nas raízes. Morro de medo de sapos!  Mas me lembro que na ocasião ponderei que era eu que estava “invadiando” a casa deles e não o contrário e que se acontecesse de eu colocar a mão em um desses pegajosos, não iria gritar. A concentração foi total. Por sorte não encontrei nenhum frog no caminho. Mas me deliciei com um banho de cachoeira…e de lua, em plena Floresta da Tijuca! Enquanto boiava zen na água viva da cachoeira, me lembro de olhar os pedaços de céu por entre as folhas das árvores e lembrar do alerta de minha falecida mãe: “minha filha, nunca converse com estranhos”. O que ela diria de eu estar tomando banho de cachoeira com um? Ri sozinha. Mas afinal, ele não era um estranho. Se conhece muito do outro pelo seu silêncio e sua relação com a natureza. 

Destes momentos, levei muito comigo. E só hoje percebo o quanto! Fiz várias trilhas sozinhas, até a que leva do Parque Lage ao Cristo Redentor, considerada por muitos um desafio entanto. Fiz esta e tantas outras trilhas, sempre com a pretensão de ter aprendido um pouco com este meu guia super atleta. 

Se passaram quase 4 anos e hoje em uma trilha belíssima na capital catarinense me flagrei tão íntima da floresta e lembrei dele: o homem que me ensinou a andar com as mãos. Sim, foi ele!^  E me enchi de gratidão pela oportunidade de suas lições.  Resolvi escrever, uma vez mais agradecer. Fiz uma trilha de pés descalços,  no meio da floresta…

Parei para estabelecer comunicação com um bamdo de macacos prego. Me senti 100% conectada. Andei com as mãos: senti a natureza e todas suas texturas. Um pouco depois do meio do caminho, em um pequeno vilarejo no meio da trilha, parei para fotografar um barco entalhado na madeira. Enquanto eu procurava o enquadramento um senhor me perguntou o que eu fazia e quando lhe respondi ele se encheu de orgulho e me contou que era ele  que havia feito aquela obra de arte. Me convidou para entrar jardim adentro e conhecer outra de suas obras. Era um restaurante e uma pousadinha muito simpáticos,  com um trapiche na beira da Lagoa. O senhor me mostrou suas obras e diante do meu encantamento, me apontou uma parede onde estavam quadros con matérias de jornal – sobre ele. Tirei um tempo para lê-las…

Lá havia uma citação de Vitor Hugo, dizendo que o “mais alto grau de intelecto é a simplicidade.” 

Tudo isso mexeu comigo. Lembrei muito do homem que me ensinou a andar com as mãos.  Fiquei um tempo por ali. Comi e bebi. Conversei com gaivotas. Veio a chuva e a chuva engrossou. Lá pelas tantas, vi que ela tinha vindo para ficar e decidi seguir viagem, afinal eu estava no ponto 13 e ainda pretendia seguir até o 20. Estava com o celular na bolsa da capa de chuva, mas resolvi pedir uma sacola plastica para a esposa do artista.  Qual não foi minha surpresa ao ver o nome do homem que me ensinou a andar com as mãos.  Ri sozinha e vi que não havia o que temer. Eram sinais. Voltei pro mato no meio da chuva e foi tudo de bom. Quando estava quase no fim cruzei com a família que ia no sentido contrário e enquanto eles se afastavam ouvi o comentário: “ela está de pés descalços…que delícia!”. Missão cumprida: aprendi com meu Mestre, devo estar na passando aos outros um pouco da calma e sincronia com a natureza que eu aprendi com ele. 

Ouvi um barulho de motor, vi o barco se afastando. Era o meu fim da linha: ponto 20 do barco. Senti a água da Lagoa, parecia que me convidava para um banho… Nisso saiu do trapiche um senhor que olhou para mim com estranheza, perguntou meu nome e disse o seu. Aproveitei a deixa e perguntei do próximo barco. Ele disse que em meia hora passaria outro. Perguntei se podia tomar banho. Ele disse que sim e falou algo que não entendi. Fiz ele repetir – duas vezes – na terceira,  quase morri de vergonha ao constatar que ele tinha me oferecido um fumo ilegal….Quando eu neguei,  ele deve ter ficado constrangido também e se retirou.  Que bom – fiquei com o trapiche e a Lagoa só para mim. Deixei as coisas de lado e dei um mergulho…de novo ri sozinha como aquela vez na cachoeira. Como tantas vezes fiz…feliz da vida por mais uma vez ter superado todas minhas expectativas…

De alma lavada, me vesti e, comportada esperei o próximo barco, agradecendo a Deus pelas pessoas que ele coloca em minha vida para me ensinar suas lições.  

Minha gratidão ao homem que me ensinou a andar com as mãos.  

E a tantos outros que tiveram um porquê em minha vida…

E a tantos outros que ainda virão…

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