Boa Esperança

No dia em que meu pai foi sepultado uma das falas marcantes do Pastor foi a de que a esperança nunca morre, senão não teria este nome. Sempre achei a palavra e o sentimento lindos. Inclusive, tenho uma vontade louca – até então controlada – de usá-la como o meu nome em um restaurante de grande movimento no centro da cidade, onde os pedidos são entregues pelo nome. Nos meus devaneios, fico imaginando qual seria a reação do público ao chamado insistente do garçon: “Esperança, Esperança, Esperança…” É claro que eu ficaria alguns minutos em silêncio, para aumentar a reflexão e, só depois, entregaria, com sorrisos, minha localização. Afinal…quem é a esperança? Onde está?

Meu nome não é esperança, mas meu coração está cheio dela. E com atenção, dia destes flagrei e acompanhei uma conversa entre duas senhoras no ônibus, afirmando que a grade crise do mundo é que as pessoas não tem mais esperança. Não tinha me ocorrido esta teoria, mas fez todo o sentido. Dias depois, recebi um ligação mágica de uma amigo que não via há anos, me convidando para falar com jovens, contar minhas aventuras de bike e compartilhar com eles sonhos e esperanças. Como me emocionei com o convite! E desde então comecei a pensar o que afinal eu poderia ter de mensagem relevante…que orgulho, que responsabilidade! Para reavivar minhas lembranças e lições, planejei para um feriado próximo, uma cicloviagem de 5 dias pela Serra Gaúcha, em um Circuito denominado Cascatas e Montanhas.

Algumas roupas, o meu carinhoso saco de dormir para neve, barraca, mil e um belisques e lá fui eu na minha bike desbravar horizontes. Foram muitos sinais e surpresas ao longo do caminho que com certeza outras histórias virão. Mas esta merece uma especial: Boa Esperança. O nome tão lindo quanto o lugar. Foi o segundo dia do roteiro. A menor quilometragem, o maior esforço…uma subida inacreditável….e inacreditavelmente linda.

Cheguei em Boa Esperança no final da tarde e  me encantei ao ser transportada para uma pedacinho da Itália e de quebra, ter uma cachoeira maravilhosa – Das Três Quedas – para ser contemplada através de um poético trapiche. Como se não bastassem os 34km e mais de 1.200m de elevação, ainda encarei os degraus para contemplar a força da natureza. Chegando no pé da cascata, um cachorro latia inquieto e parecia estar ilhado em uma pedra. Não me contive: pulei a cerca, escalei a pedra, venci o medo, peguei o cachorro no colo e o recoloquei no trapiche. Ele se foi feliz da vida. E eu senti como se tivesse carimbada minha entrada naquele lugar. Uma oração me fez chorar encheu meu coração. Perdi um pouco a noção do tempo com estas sensações, embalada pelo mágico barulho d´água até que resolvi me mexer, pois ainda precisava encontrar um lugar para armar minha barraca e passar a noite. Eu tinha duas indicações: uma escola e uma cantina. Quando percebi que para chegar na escola eu teria que subir e para a cantina descer, fui lomba abaixo – ainda que isto significasse o movimento contrário no dia seguinte. Mas, o amanhã é outro dia. E a esperança nunca morre. Ainda mais em Boa Esperança.

O Restaurante e Cantina Basei era um lugar lindo de decoração inspiradora, mas já tinham me avisado que podia estar fechado. Cheguei e bati palmas…senti o cheirinho gostoso de lenha. Um moço saiu lá de dentro de avental. Perguntei acanhada se poderia acampar por ali…e se era possível que ele me preparasse uma janta. Ele disse que já estava se preparando para sair, mas a resposta foi duplamente positiva. Quando fui pegar a barraca na bike para começar a lide ele voltou e disse: “Mellhor! Você encosta dois bancos e dorme dentro da cantina, eu deixo o café da manhã pronto e quando você sair encosta a porta” Eu achei que não tinha escutado direito.  Mas tive certeza que o nome do lugar não poderia ser outro: Boa Esperança. Minutos depois, ele perguntou se eu preferia café ou sopa de capelleti. É claro que fui de sopa e, diante das facilidades, sentei na frente da cantina, olhando o horizonte, e fui repassando como um filme – digno de oscar de fotografia – as aventuras do dia. Foi neste momento que eu me dei conta do nome do lugar: Boa Esperança…e por acaso existe esperança ruim? A esperança que não morre, que constrói, que colore sonhos? Não! Não existe esperança ruim. Se fosse ruim, seria ilusão.

E como esperança é sempre linda, Boa Esperança caprichou na dose. Horizontes cheios de mata, vinhedos começando a brotar, vinícolas, flores e cores em todos os cantos, refletindo vida em cada quadro. Uma igreja linda e bem cuidada abençoando o lugar.  Efeitos especiais da fumaça dos fogões a lenha, aquecendo e perfumando o ar fresco de final de inverno.  Neste meio tempo, a sopa ficou pronta e pude conhecer um pouco mais meu anjo da guarda… Ele contou que morava em outra localidade, já tinha viajado por toda a América, mas tinha escolhido aquela localidade para fazer seu negócio pois era a terra de sua mãe, onde tinha iniciado a sua vida…que história bonita, que história de esperança! Neste momento, entra na Cantina uma moça e pergunta se o meu anjo da guarda poderia fazer janta para o grupo que estava asfaltando a localidade, pois tinham acontecido uma série de problemas e eles precisariam trabalhar até mais tarde pois o asfaltoa já tinha sido carregado e não poderia esfriar… interessante com as histórias se cruzam, assim como os ramos da videira. Naquele momento, diante daqueles dois personagens da vida real me senti entrando para a história de Boa Esperança.  Um dia, quando eu voltar lá (e creio que voltarei muitas vezes) vou contar a história dos incontáveis caminhões de asfalto, da máquina que atolou, do poste derrubado, da forasteira (eu, no caso) que segurou o Restaurante aberto, conseguiu pouso e garantiu a janta de um grupo de pessoas raramente lembrada, mas que está fazendo algo que fará a diferença na vida daquela lugar.  Admirei a moça que coordenava o grupo e tinha que lidar com todo o tipo de imprevistos e resolver. Que apesar de estar ali – naquele belo e ermo local, tinha uma vida e uma família esperando há uns 50 km dali.

Enquanto esperávamos o grupo para o jantar (para liberar minha cama) conversei mais com o meu anjo da guarda, sobre a importância de aplicar algumas lições que quem viaja aprende e pratica com maestria: a arte da acolhida, do fazer sentir se bem, de abandonar preconceitos e abrir-se sem medo para o novo. Eu perguntei como ele, que nem me conhecia, me deixaria sozinha em seu restaurante. “Imagina se tu farias todo este caminho de bike, com todo este peso, só para me fazer mal”. Ele tinha razão. O cicloturista na essência, tem um espírito aberto que parece fazer com que todas as portas se abram, que parece transformar todas as aspirações em “Boa(s) Esperança(s)”. Parece que somos contadores de histórias natos, que ao invés de ler e reproduzir, vamos descobrindo e construindo os “causos” da vida…  Ele me contou de outros ciclistas que passaram por ali, vários estrangeiros inclusive. Me deu uma aula de esperança e amor pela terra.  Fui dormir nas nuvens, na minha cama de persianas, no ambiente acolhedor da cantina, ainda aquecido pelo fogão a lenha.
Quando acordei,  vi as bandeiras alegres do teto, as flores da mesa ao lado e um baita café da manhã montado, com direito a leite de verdade e café quentinho e ainda dois cuscos abanando o rabo para mim e fazendo caras de triste na mina partida. Foi o máximo me sentir “dona da casa” em Boa Esperança.  Eu nem tinha combinado o preço das refeições, então deixei algum dinheiro e um bilhete, gostaria de ter deixado mais, mas também sei que aquela vivência tem um valor que dinheiro nenhum paga. Antes de subir para a próxima cidade do roteiro – São Francisco de Paula –  ainda dei uma volta por Boa Esperança e no raiar do dia comecei a cantarolar em italiano….justo eu que não parlo niente, mais umas das mágicas da minha vida. Um pouco mais adiante, cruzei com meu anjo da guarda voltando para a Cantina, ele parou a moto, eu parei a bike, apertei sua mão e lhe agradeci. Segui viagem. Agora, quando voltar a Porto Alegre, vou poder realizar aquele sonho de dizer que meu nome é Esperança. E dizer onde ela se esconde. Dizer que ela está lá no alto, bem no alto de Rolante, em um destes lindos cantos do Rio Grande do Sul.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s