Preparando um sonho

La Encantada, Km 0 e 92 kg de pura ansiedade. Xingam as pessoas de lesma, mas é um desafio em tanto carregar a casa nas costas, ou ao menos tudo que se precisa para transitar em vários mundos durante onze dias. Vou pedalar, nadar, tomar banho de cachoeira mas também quero praticar meu espanhol, curtir os lugares – hogares? – que amo em Punta del Este. Descobrir outros novos… Tenho planos….muitos planos…sonhos malucos….desejos tão simples e poéticos…

Depois vou para Montevideu, curtir meu trabalho, alimentar a inspiração e a informação para um ano que promete se depender da minha disposição…

E, depois de muito curtir os preparativos e chegar a segundos da exaustão, decidi que precisava de alforjes e uma mochila maior para fazer a sonhada cicloviagem parte Punta-Montevideu. São 60 litros nas costas e 100 na bike. Mas aguentei bem: subi a lomba com todo o meu peso extra – o de dentro e o de fora –  passei no Hipódromo para deixar meu trabalho organizado e depois ainda dei um pique até a rodoviária. Como estava folgada no horário ainda tomei uma água de coco enquanto curtia o corpo suado – salgado – como nas minhas saudosas aventuras. Como pude deixar de lado parte tão importante da minha essência? 

2014 começou na bike, mas já no segundo dia um acidente me tirou do prumo e colocou a minha vida de pernas pro ar….ou melhor: com os pés no chão (ainda que, devido a uma violenta mordida de um pit bull, literalmente isso não fosse possível).

Eu que subia no telhado, que dormia na rede, que andava na rua, que circulava pelo morro sem ver a metralhadora…nao sei exatamente em que ponto da vida o medo – ou o juízo – me alcançou!?!? O fato é que comecei a contabilizar o perigo e acabei ficando imovel,  achando que estava só cansada de ser onipotente, imbatível, errante. Cansada de sorrir e chorar sozinha…Cansada de tentar domar o mundo…

Passei o ano tentando me entender. …me adaptar…me reencontrar e mais ou menos agora, nos ultimos segundos da prorrogação percebo que foi só um estado de choque passageiro. Percebo que posso absorver tudo: aprender a lição e seguir pedalando, com mais cautela, com mais plano B além do batalhão de anjos que sempre me acompanha…com mais juízo… Mas, nem por isso, com menos horizontes, menos sonhos ou menos poesia!

Eu amo o esporte com todas minhas células – acho que está tatuado no DNA – não posso deixar isto de lado por um susto. Durante esta pausa em minha vida de atleta surgiu em minha vida um novo amor. Na verdade um novo esporte do qual comecei a fazer parte pelos ossos do ofício e que me ajudou a ter mais ganas de quebrar a estagnação.  É impressionante a potência dos cavalos. Performance que não vem do nada, mas de muito treino e vida regrada. Disciplina que eu preciso. Viajei no tempo e nas comparações e lembrei de uma aventura de bike na qual consegui uma pousada de última hora e o dono disse que eu podia colocar “meu cavalo” no quarto. Ele estava falando da minha bike.

 E eis que estou aqui, na estrada, disposta a recomeçar minha vida. Do sonho de pedalar Poa-Buenos Aires, encurtei para Punta-Montevideo. É o começo. Um treino valendo. E nem por isso estou frustada. O desafio é imenso.

Cheguei na Rodoviária de Porto Alegre pedalando,  com minha bike montada e no carão coloquei ela assim mesmo no bagageiro para facilitar minha vida e  a posterior cicloviagem: a mala bike seria um volume a mais.

E, como a sorte estava do meu lado, o passageiro do meu lado fez forfait e eu vim de camarote pensando na vida. Lá pelas tantas, comecei a sentir muito frio e me odiar: como uma macaca velha como eu pode ser tão amadora e trazer pouco agasalho para a viagem? E lá estava eu me martirizando quando veio a idéia de gênio e eu reassumi minha identidade ninja: peguei a capa de chuva na mochila da bike e dormi quentinha até Punta del Este…

Acordei bem na hora que o onibus embicou e fui revendo a paisagem e fazendo mais planos. Sim! Esta é a Carol que eu conheço: cheia de pensamentos se atropela do a cada segundo! 

Descer na rodoviária e reencontrar a Flecha Venturosa no bagageiro me encheu de ânimo. Foram poucos minutos para eu recompor os volumes e sair pedalando… a cidade dormindo e eu acordando…Não só para o dia mas também para a vida….revi o mar e fiz o caminho mais comprido para curtir o momento…fiz minha selfie de turista e segui pro Hostel…uma grata surpresa: redes ao vento, palavras do mundo, artes…até parece minha casa.

Deixei as coisas e fui pedalar…Já fui as compras de coisas gostosas e saudáveis: mirtilos, framboesa, meu amado aipo e uma pequena travessura – chocolate de menta! Só por aqui tem estas delícias!

E os dias  vão ser assim: na paz e segurança de Punta del Este eu vou pedalando e ganhando confiança – e força – para mais uma cicloviagem. Os primeiros 30km já foram. E eu ai da nem almocei. Muitos outros virão! Amém!

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