Os cavalos em minha vida

No início do ano tive uma lesão que comprometeu bastante minhas atividades físicas – até de muleta eu andei – e como eu sou um ser dramático, senti, no momento exato em que tudo aconteceu, que eu estava bem próxima, na linha tênue entre vida e morte. Sim, de novo ele torna-se personagem das minhas viagens. Ele. O já famoso e sempre cruel pit bull. Os desdobramentos foram incríveis. Comecei a repensar toda minha vida…a ser mais humilde…a querer companhia, a querer, cada vez mais, ficar apenas com o que cabe no coração e com aquilo que um meliante não pode levar. Aproveitei então os quase 60 dias de limitações físicas para, dia a dia, olhar para um canto da minha casa e ver o que havia em excesso… perceber as coisas que com o tempo fui acumulando para que elas preenchessem vazios d’alma. Uma casa cheia de coisas, é menos espaço para pessoas…fiquei lembrando o quanto sou feliz em minhas aventuras de bike, o quanto sou feliz apenas com o que cabe na cesta e comecei então uma verdadeira operação desapego…uma operação abre-alas para que meu coração tenha também coragem de abrir a guarda…verdadeiramente!

E tem sido uma experiência incrível criar vazios e olhar para eles como possibilidades…que são para mim sempre encantadoras. Com este exercício maravilhoso de me fazer fraca para me fortalecer, fui também vencendo o medo de recomeçar… tudo sempre foi tão natural e de repente parecia uma montanha intransponível…É como aquela frase que diz: “não sabendo que era impossível, ele foi lá e fez!” Assim foi com minhas pedaladas, com minhas travessias, com minha vida repleta de magia e histórias encantadas. Nesta reflexão, lá pelas tantas fui percebendo que era só medo…e não mais restrição física. E neste exercício de racionalidade extrema, fui ganhando do trauma na razão e ainda estabeleci para mim mesma um marco. Uma prova concreta de que o pior já passou. E me inspirei nos cavalos. Os cavalos de corrida. Os Puros Sangue Inglês. Estes monstros que também desafiam a razão nas raias correndo muito mais rápido que qualquer humano sonharia com seus próprios pés, que com todo seu peso, são um belo exemplo e inspiração para qualquer atleta. Disse para mim mesma que quando estivesse boa ia dar duas voltas correndo na raia do Hipódromo. E dane-se o peso extra de ansiedade que acumulei nestes tempos de aprendizagem. Dito e feito…chegou a semana derradeira…a vontade estava cada vez maior…e isso é bom, muito bom! Por dois dias tive que adiar o teste de fogo… mas o terceiro dia chegou…e com ele uma chuva fina para abrandar o calor e com água suficiente para lavar meu coração…Final da tarde. Só eu e Deus – minha melhor companhia, sempre! . Lá fui eu. Lá fomos nós. Aquela raia gigantesca chamava por mim. 1500 metros de circunferência, 20 de largura, hectares e mais hectares de horizonte…e quando cheguei na primeira curva, parecia que o coração ia saltar pela boca…eu me encaminhava para a “reta final”, vislumbrando um imponente conjunto arquitetônico onde a platéia torce pelos seus ídolos. E eu, ali, como protagonista, pude entender, sentir na pele toda a paixão e adrenalina de uma corrida de cavalos…e mais, me senti poderosa para ir adiante…e fui! Duas voltas para vencer o medo, duas voltas para marcar minha história. Me lembrei de Amir Klink e sua frase que amo:
“Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver”.

E eu fui lá e fiz. Fui lá e vi. Fui lá e senti que quem tem horizontes nunca estará perdido. E assim, os cavalos estão em minha vida com a lição da determinação, com a gana de vencer, com o desafio de lapidar toda a força bruta para transformá-la em vitórias.

Lembro a primeira vez que andei a cavalo e que tinha receio de usar o chicote para aumentar a velocidade… Mas é sem duvida nos momentos dolorosos da vida que a gente mais avança, que mais vai em frente se realmente tem o desejo de vencer. E, depois que esta certeza consome nossos poros, nada mais pode prejudicar nosso galope. Como é triste um cavalo domado, que desiste da corrida quando percebe que não pode mais ganhar, que tem seus instintos sufocados por humanos medíocres… Graças a Deus eu não sou um destes: eu posso vencer a dor, eu posso vencer o medo, eu posso vencer os apostadores que me colocam com azarão…eu tenho horizontes. Acredito neles. Vou cruzar o “winning post” com a certeza de que dei o meu melhor. Não vou deixar que os medíocres me contaminem.  A areia “nas patas”, a chuva no corpo, a alegria diante da imensidão me provaram isso mais uma vez. E nesta certeza, montei meu cavalo de aço e pedalei serra acima, até Gramado. Sabia que não seria fácil. Mas tinha certeza de que seria maravilhoso. Foi. Dez horas de vento, 100km de pedal, infinitas paisagens, cheiros e lembranças que vão transbordando em meu coração…histórias que eu vou contar para meus amigos…e para meus filhos! Sim, meus filhos! Porque todo cavalo de corrida que tem vitórias passa isso adiante. E, mais uma vez, voltando para o cenário do turfe e para os cavalos em minha vida, quando eu mal tinha completado do trigésimo quilômetro e me sentia bastante inquieta, Deus me mandou um punga. Sim, um cavalo manso que me ajudou a segurar o ímpeto. Estava eu repassando o protetor solar e comendo uns pimentões quando um cicloturista passou por mim e perguntou se eu estava viajando. Quando eu respondi que ia para Gramado ele perguntou se poderia me acompanhar e eu consenti. Foi para mim um desafio, uma aprendizagem boa e, acima de tudo, uma ótima companhia que me fez rir até em um momento tenso da viagem quando cruzei, em plena ciclovia, com um senhor e dezenas de cachorros. Sim, o caminho ficou mais leve ao ser dividido. E, se eu tinha alguma dúvida, tenho convicção plena que é como diz a Bíblia, em Mateus, 6, versículos 26 a 28:

 “Vejam os passarinhos que voam pelo céu: eles não semeiam, não colhem, nem guardam comida em depósitos. No entanto, o Pai de vocês, que está no céu, dá de comer a eles. Será que vocês não valem muito mais do que os passarinhos? E nenhum de vocês pode encompridar a sua vida, por mais que se preocupe com isso. E por que vocês se preocupam com roupas? Vejam como crescem as flores do campo: elas não trabalham, nem fazem roupas para si mesmas.”

Amo pássaros. Amo as flores. Não quero ser mais do que ninguém. Fico feliz em me sentir parte da natureza divina e acredito que Deus sabe o que faz. Sempre. Só nos cabe entender…e se encantar com sua criatividade e perfeição. Amém.

PS.: A alegria da realização foi tanta, que no dia seguinte, ao sair para uma caminhada, me empolguei e não vi um pequeno  degrau e dei uma topada cinematográfica: caí de boca na brita e ao levantar vi que eu tinha destruído o tal degrau…sim, quebrei o concreto em duas ou três partes. E, de repente, o dedão do pé começou a inchar…cada vez mais roxo…infelizmente lembrei que já tinha vivido isto antes e o veredito tinha sido cruel: fratura, 4 semanas de molho. Pensei em ir ao Hospital, lá mesmo em Gramado, mas racionalizei: da outra vez eu tinha ido ao médico só 48 horas depois da topada, tinha andado de salto, nadado, e até pedalado bem uns 30km sem ter a mínima idéia que o dedo estava quebrado. Com esta consciência, poderia pedalar uns 100Km com cuidado. O que eu não podia era interromper mais uma cicloviagem, alimentar um trauma. Então, engoli em seco a dor e o medo e tentei não pensar. Imobilizei o dedo por minha conta, como se fosse um abraço e ajeitei cuidadosamente dentro do tênis.  Pedalei com o calcanhar. Vim sem pressa, para não forçar – mas pareceu a pedalada mais longa da minha vida. Mesmos nas descidas, eu ia com calma…uma pisada brusca com o pé esquerdo poderia me fazer ver estrelas. Felizmente, o meu caminho foi de sol…muito sol! Cheguei em Porto Alegre por volta das 18 horas, tomei um banho e miss e me fui para o hospital. O médico nem perdeu muito tempo, me mandou direto para o raio-x. Eu fui preparada para o pior. Me sentindo  um cavalo daqueles de filme, que vence horizontes apesar da dor. Mas, mesmo depois de fazer muita cara feia diante da tela, o médico disse que não havia fratura. Apenas me deu medicação e quando eu perguntei se podia nadar, ele me pediu que eu ficasse uma semana em repouso, sem colocar o pé no chão. Diante deste diagnóstico, preferi comemorar e deixar em segredo a pedalada Gramado-Porto Alegre.

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