Pai

Meu pai era um cara extraordinário. Era O cara. Casou duas vezes, teve cinco filhos, plantou inúmeras árvores e construiu algumas das mais belas casas que já vi- com seus incríveis telhados de madeira. Além de engenheiro civil atuante, era professor universitário – então, se faltou a ele escrever um livro, com certeza algum de seus milhares de alunos o fará e com certeza suas sementes estão por aí! Sua especialidade era cálculo estrutural, mesmo assim, este homem magnífico que quando eu ainda era criança juntava as pontas do canudinho de suco para formar um triângulo e falar do teorema de Pitágoras, ou que me fazia contar o tempo entre o raio e trovão para que eu aprendesse a velocidade do som me ensinou muito de sentimentos.  E, mesmo no andar de cima – talvez para poder me cuidar melhor! – ele continua me ensinando.

Entre as muitas coisas extraordinárias que ele fazia – plantas, queijos, doces, vinhos e ouras artes… – estava o hidromel. O hidromel é uma bebida dos deuses nórdicos, uma espécie de “vinho” feito à base de mel. Sempre me deleitava com sua produção e nunca me preocupei em saber qual era a “mágica” que ele fazia… Assim como meu amor por ele, eu sempre achei que ele seria eterno. Mas, quando eu menos esperava, ele me deixou. Eu fiquei sem chão. Mas fiquei com algumas garrafas de hidromel. Guardei-as como relíquias e volta e meia encho a boca e esvazio o coração para contar o quão maravilhoso é este líquido e seu criador, sem coragem de abrir… sem coragem de consumir uma das últimas provas concretas…

Um dia destes, um dia comum, um vendaval de saudades me invadiu e resolvi abrir uma garrafa. A penúltima. Depois de 14 anos, criei coragem e saquei a rolha. O aroma de mel perfumou o ambiente. Mas não era mais “vinho”, era uma lição…uma doce lição… Lição de que o tempo passa e que a espera do “momento ideal”, pode ser uma espera eterna…e inútil!

No alto dos céus, na doçura de seu legado, meu Pai encontrou um jeito de me alertar para a efemeridade do mundo, para a urgência de viver e desfrutar sem medo da finitude. Se por acaso o mundo acabar amanhã, de que adiantam os sonhos de um momento perfeito, ou a leveza de viver sem culpa, ou o peso de ter cedido demais em busca da aparente felicidade? Meu pai – das ciências exatas – teve coragem de abrir a rolha, degustar o vinho, teve coragem de mudar de vida para não engarrafar sentimentos.

Eu nem precisei me entorpecer com vinho – que nesta altura era apenas doce… – para abandonar a culpa de extinguir o último gole. Agora falta a vida. Antes que vire vinagre.

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