A liberdade da água

Tive a benção de ter ótimos professores, verdadeiros mestres, que me ensinaram muito além do currículo. Hoje pela manhã, na aula de natação – recém a segunda após o ataque do pit bull – eu me lembrei de um deles, memorável, o professor de filosofia da comunicação, nos primeiros semestres da faculdade. Este mestre dedicou praticamente todo o semestre para que a turma, em conjunto, pudesse ler e discutir, linha a linha, palavra a palavra, o clássico De Cives, de Robbes. Muitas vezes, a aula era nos jardins da Faculdade, com a turma sentada à vontade, na grama. Tenho até hoje o meu exemplar – maravilhosamente marcado e remarcado, pelo manuseio e “exploração”. E, de repente, entre um braçada e outra, sentindo novamente no corpo a maravilhosa potência de cortar a água novamente, eu me flagrei  pensando na liberdade deste movimento e lembrei de Robbes: o homem nasce com direito a tudo, mas abdica desta condição pelo medo da morte violenta. “O homem é o lobo do homem” – repetia muitas vezes o professor, com uma pausa instigante, que nos fazia pensar em tudo que podia nascer – ou ser barrado – além daquelas palavras…
Para mim, a água, além de pura vida é pura liberdade…e é aí que se encontram Robbes, o pit bull e minhas braçadas…
A violência deste cão, me fez repensar a minha liberdade de ir e vir – sozinha – e buscar companhia para a minha próxima aventura. Esta tarefa me parece inglória e confesso que tenho muita vontade de desistir… é difícil encontrar alguém com a mesma intenção e disposição do que eu. Não faz sentido abrir mão do meu bem mais precioso se não for com alguém que realmente faça a diferença. E assim, a liberdade – que pode tudo – também é extremamente cruel, é exigente, seletiva. É restritiva.Com toda minha liberdade, me sinto extremamente solitária e penso se não é causa e consequência. Casualmente, um amigo querido, disse certa vez que eu sou como o mar, bonito porque não pertence a ninguém de modo exclusivo, porque é a natureza… porque está à disposição e todos, mas ninguém detém sua posse. Nem ousa almejá-la. Se ele tivesse limites, donos, talvez perdesse todo seu encantamento. Assim, a liberdade é solitária. O mar é solitário. Mas será que eles precisam, assim como sugere Robbes, abdicar de alguma coisa para garantir sua existência? Talvez…se isso fosse possível…mas não é! E daí, entra em cena outro sábio mestre: o professor de natação da minha adolescência! Dentre os bons conselhos que me deu, nunca vou esquecer seu comentário quando eu contei meu encantamento com as aulas de filosofia na escola: “este é um caminho sem volta. Quem adquire consciência, nunca mais poderá ser ignorante”. Eu fiz minha opção. Neste momento comecei a me tornar mar. Mar que é solitário mesmo com toda a sua imensidão. Mar que nunca mais poderá ser lago, piscina, poça…Quem tem a liberdade tatuada no coração, também não consegue voltar atrás.

Fevereiro de 2014

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