Jardineira…ou mulher árvore?

Uma vez assisti a uma entrevista de uma pseudo celebridade que declarava, para surpresa da platéia, sua opção sexual: pansexual.  Para explicar a incomum opção ele exemplificava falando de sua faceta natureza…como ele adorava abraçar uma árvore, fazer amor com ela…

Esta recordação bizarra me veio a mente como motivação para uma reflexão maior: de que forma a árvore encontra forças quando falta água ou nutrientes? Em sua raiz! Ah a raiz! É ela que guarda toda a memória de uma vida e seus desafios. É ela que dá forças e nutrientes quando aparentemente a árvore não recebe nada do ambiente. Assim também é conosco: quando tudo parece dar errado, quando falta uma boa notícia para dar animo, precisamos olhar para nossas raízes, encontrar nos antepassados a motivação e exemplo para não desistir, nunca! E este olhar não é uma sentença de que os caminhos serão idênticos, nem uma garantia de sucesso,  mas um estímulo a utilizar as memórias para fazer as podas e ajustes necessários. Eis a arte da jardinagem!

Não sei ao certo como começou….se foi nas aulas de ciência, quando coloquei o primeiro grão de feijão para brotar no algodão, ou se quando li o inesquecível “O menino do dedo verde”, de Maurice Druon…ou talvez o encantamento tenha sido inevitável e arrebatador quando encontrei um texto que contava que minha avó paterna conversava com as flores e tinha o jardim mais bonito e perfumado de Cachoeira do Sul… lembro até hoje do perfume de mel de suas floreiras…
Na infância minha mãe – cujo maior orgulho era se declarar carioca – ensinou desde cedo as marchinhas que cantarolava no carnaval: “ó jardineira por que estas tão triste….” De fato, parecia encantador ser jardineira…tanto quanto ser árvore.

E assim, com estímulos de todos os lados, eu fui crescendo e na mesma proporção o meu amor pela natureza, pelo contato com a terra, pelo cultivo das flores e frutos…pelo prazer de comer o que a terra oferece e floresce, pelo prazer de aguardar – e curtir! – o tempo da maturação. O tempo abençoado da morte da semente, do nascimento do primeiro broto, do primeiro botão, da morte da flor, da benção do fruto que traz novas sementes…as lições dos intemperes climáticos e surpresas de cada estação.

Hoje vejo que além disso, há muito mais que aprender com o cultivo da terra. E que bom que posso ser árvore, e também jardineira! Assim,  olho para a história da minha vida e me surpreendo com os frutos que sem perceber colhi, quando tudo o que eu queria era crescer. Mas não, não foi fácil. Eu fui drástica. Fiz mais que podas. Cortei raízes. Me transplantei. Virei árvore exótica em território completamente estranho, confiando na engrenagem perfeita de Deus, me entregando as possibilidades da simbiose. Briguei com a mãe e perdi metade da família. Me afastei dos amigos. Mas vivi o amor. Assumi ele com seus ônus e bônus. E não morrerei com a dúvida do “se”. Não morrerei com qualquer culpa delegada a outrem. Sou, tal qual o Pequeno Príncipe, eternamente responsável pelo que cativei…ou melhor: responsável por tudo aquilo que cultivei, que podei e deixei crescer!…e isso é bom. Bom demais! Das raízes que ficaram, das raízes em comum, dia destes encontrei um outro galho que me deu o mais valioso de todos os presentes: a sua versão dos fatos. As suas histórias das raízes mais antigas. A prova que eu precisava para ter a convicção de que neste corte, fiz diferente. Mudei a história. Mudei a minha história. Quebrei padrões. E desenvolvi galhos fortes e flexíveis o bastante para olhar para trás e acolher toda a experiência dos meus antepassados, com o respeito as suas angústias e a coragem de fazer diferente, por mais difícil que seja.

Este galho, esta prima de mamãe, ainda contou histórias da minha matriarca, e me deu um dado para mim quase mágico: o nome da rua onde minha mãe nasceu e morou na cidade maravilhosa. Então, está explicado, porque no caminho de Ipanema para a Lagoa, aquela rua me olhava diferente, com todas suas orquídeas me reverenciando…está explicado porque eu dava mil voltas e acabava sempre passando por aquela rua e olhando com curiosidade para sua geografia, como se quisesse escutar o canto de suas raízes…de minhas raízes!

E como jardineira eu sei, que alguns ramos não voltam mais. Mas, a natureza é sábia: não preciso deles, posso escolher só alguns, que darão mais perfume as flores, que darão mais vigor aos frutos. Por que as raízes, as raízes estão sempre lá, como uma provação diária de fé: invisíveis e poderosas!  Foram estes galhos que escolhi, – que também me escolheram – primos segundos, terceiro, quartos…que me fizeram enxergar o quanto sou árvore, o quanto sou jardineira. O quanto sou tão igual e ao mesmo tão diferente de minha mãe.

E, nesta força de cultivar a minha história, mas fazer do meu jeito, nas minhas andanças pelo mundo, fiz um amigo na Floresta (outro! – mas sempre único!) que me deu um dos presentes mais lindos que já recebi e que parece firmar – e reafirmar mais uma vez, a  beleza e importância da minha trajetória: uma árvore plantada para mim na encosta do Pão de Açúcar, na face leste : “uma parte de você estará sempre espiando o Rio”, disse ele, contando que escolheu um Pau Brasil, árvore símbolo do país, árvore rara, mas que poucos conhecem, árvore alta de raízes profundas…e me passou também o endereço do GPS, para que eu possa sempre visitar e  acompanhar o crescimento da “minha árvore!

Assim, pela poesia da vida, pelas linhas tortas de Deus e graças a alguma tecnologia, esta gaúcha-árvore-jardineira, tem certeza de suas raízes no Rio de Janeiro, sejam elas feitas de matéria muito concreta, ou de belas recordações que correm nas veias e escapam pelo sorriso…

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