O legado do Pit Bull

Juro que é a última vez que escrevo sobre ele. Até porque, espero ter aprendido a lição e não quero – nem no pior pesadelo – um repeteco.

Peguei a estrada, desta vez, de uma forma convencional. A simples menção da parada 134 me causa arrepios na espinha. Mesmo assim, não há como negar o legado do pitbull. Meus amigos me encorajaram a escrever sobre ele. Nada melhor do que aproveitar a estrada e feriado do Páscoa – ressurreição! – para isso. Revisitar na segurança do carro as lembranças e aprendizagens agora digeridas…enterrar de uma vez a cruz e fixar na vida nova! Pois bem…

Há 3 meses atrás eu passava por esta estrada…voltava de um acampamento, para o qual tinha ido de bike, sozinha…e me divertido muito! Eu tomava banho de cachoeira e me enfeitava com sorrisos… tinha desapegado dos brincos, das roupas…dos cabelos…tinha me rendido aos tênis e rasteirinhas por me sentir completa e segura com o vento na cara e o horizonte no coração…eu ria sozinha e suspirava dando graças a Deus por conseguir levar comigo tudo que eu precisava para ser feliz…ia encontrando e fazendo amigos no caminho…

Mas tudo isto é passado. Vieram os caninos brancos. Assim como eles reviraram minha pele, também colocaram meu mundo de ponta cabeça. E eu, que já nem me olhava no espelho porque me sentia acima das aparências, me deparei com o predador e vi no seu ódio, toda minha “ogrice” refletida. Tenho a nítida impressão que o pit bull me atacou para dizer que eu sou mais do que ele e que não posso me esconder a vida toda. Ele me atacou para lembrar que estereótipos não são bons de forma alguma. Quem é a presa? Quem é o predador? Por que antes do Pit bull eu me deixei abater pela falta de coragem e imaginação da sociedade: é muito mais fácil fazer o que todo mundo faz, é muito mais fácil enxergar a beleza que está nas revistas. Eu discordei e ao invés de lutar, me escondi, a espera de um arqueólogo qualquer disposto a me descobrir…mas o Pit Bull chegou primeiro!

O ataque me fez pedir ajuda, pedir carinho, me olhar no espelho e buscar tudo que escondi… me fez querer voltar a ser mulher ao invés de apenas fêmea! E, para dar força a todo este movimento o médico que me acudiu ainda me orientou a voltar a usar salto, para ajudar na recuperação dos movimentos.  

Tão difícil como passar alguns dias de muleta esta sendo soltar os cabelos, retomar os brincões que sempre foram minha marca registrada, dar cor ao rosto, dar voz aos sonhos… eu sempre achei que qualquer dia destes meus sonhos iam me encontrar – realizados – e me surpreender em alguma estrada da vida…

Nestes anos de estradas e aventuras, fui aprendendo a ser invisível – por comodismo e segurança – e agora recomeço a enxergar, a me enxergar, a me assumir, com todas minhas formas, extravagâncias e diferenças… Retomo o desafio de me assumir e assumir a defesa diante dos pit buls do mundo: eu não posso deixar as coisas que amo e que fazem sentido para mim só porque na beira da estrada existem predadores em potencial. Eu não posso abdicar do meu direito de ser diferente, meu direito – e por que não dever? – de ser única!

É muito mais fácil estar sempre igual… a mesma cor de roupa, o mesmo penteado… até parece que a gente é capaz de parar o tempo…de ensaiar mil vezes para a grande estréia…

Mas, como já dizia o poeta Cazuza, o tempo não pára, não, não pára! E esta foi mais um lição do meu feroz amigo: não deixe para amanhã…ele pode não existir!

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