Desapega que eu pego: o rapel e a quaresma

Hoje pela manhã lembrei da primeira vez que fiz rapel, há uns bons 20 anos atrás…saímos do nível da rua, para chegar no segundo subsolo, onde ficava a sala da JE na paróquia.  Havia uma passarela, que levava para a Igreja e, para baixo, uns quatro lances de escada e várias salas de trabalho. Eu estava bem presa e segura, com cabos, cadeirinha, oitão – equipamento profissional de alpinismo mesmo – e não conseguia me soltar, me lançar ao vão.  Lembro como se fosse hoje: eu com os dois pés do lado de fora da passarela que levava ao templo e cada vez que eu tentava soltar as duas mãos e confiar apenas no cabo tantas vezes conferido, eu acabava pegando outra coisa: largava o corrimão e pegava o braço de um colega…e largava o braço e voltava para o corrimão…e assim sucessivamente sem cessar…até que foi! Fui! Cheguei bem e louca de vontade de repetir a experiência. 

A vivência do rapel voltou com o desafio da quaresma.  Em outros anos, durante estes 40 dias de reflexão eu abdicava voluntariamente de alguma coisa que gostava muito: bebidas alcoólicas. Devo ter feito isto uns 5 anos seguidos. Até que percebi que a renúncia tinha se transformado mais em uma boa “dieta”: eu acabava perdendo peso, ganhando vitalidade e desfocando da intenção espiritual do ato. Desde o final do ano passado, tenho repetido instintivamente a experiência do primeiro rapel ao não ter coragem de deixar ir – coisas, pessoas e situações desta vida  – e me agarrei na comida. Como sempre, intensa, com volúpia e apego. Comi carências, comi saudades, comi angústias, comi até o impensado… e, ao invés de me libertar, não saí do lugar. Perdi mobilidade. Perdi confiança. Até que veio o Carnaval…a terça-feira gorda, a  quarta-feira de cinzas…e iniciou-e o tempo santo da quaresma. Acabei indo no culto e tenho a convicção de que ele foi feito sob medida para mim: o sofrimento já passou…deixe ir… Na ocasião, conversamos sobre o significado do tempo de quaresma e o real sentido de fazer algumas renúncias durante este período. Não se trata de sofrer, mas de se desnudar, de abrir o coração para o que realmente importa e com certeza isso não está em roupas, comidas, coisas que pegamos para não ficar de braços e peito abertos para sentir a vida…para sentir o vão…para confiar na corda divina  – tal como no rapel – que nos coloca livres e em segurança. O pastor propôs que escrevêssemos em um pedaço de papel angústias e colocássemos o papel para queimar. Não tive a menor dúvida das cruzes que quero deixar de lado. Sim, cruzes! A cruz que pesa e nos faz diminuir o ritmo, desanimar diante do caminho. Cruz. Cruzes. Plural – várias delas. Pois nesta ânsia de pegar e pegar, a gente acaba também abraçando sofrimentos e tornando-os muito mais presentes em nossas vidas do que eles merecem. Do que nós merecemos.

Destas reflexões e de meu histórico pessoal de sentir esta época entre o Carnaval e a Páscoa como um tempo único e especial, decidi então escolher dois dias alternados por semana para fazer jejum. E já no primeiro dia me deparei com o desafio do rapel: cadê a coragem para confiar na corda e me lançar? Foi uma verdadeira e ferrenha queda de braço: a mente tentando vencer o corpo… Felizmente, cada vez que pensava em fraquejar e adiar os planos pensava que cada recuo era mais uma cruz que eu abraçava, mais um motivo para me enganar, para esconder a verdadeira força dos meus sonhos.  E eu persisti, em um duelo quase visceral. E ganhei. O segundo dia foi muito mais fácil. Assim como o segundo rapel, que foi naquela mesma e memorável noite, lá, distante no tempo…

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