O direito de ficar triste

Sou feliz. Com todas as letras e sentidos, mas isto não quer dizer que minha vida seja um conto de fadas ou mesmo um comercial de margarina. Tenho muitas histórias tristes para contar. Mas, não preciso fazer drama! Já aprendi com elas e sou grata pelas lições. Além disso, graças a Deus, já chorei até secar quase todas elas e sigo sorrindo. Mesmo assim, um dia desses, não muito longe de hoje, eu transbordei as cachoeiras da Tijuca com meu pranto. Eu tinha que chorar e dizia para mim mesma: chora guria, chora tudo que tens direito, pois não mereces ficar com esta dor dentro de ti, pesando… E ninguém melhor que a natureza para dividir comigo a dor de enfim enxergar claramente o meu papel na vida de outrem. Não se passaram nem dois meses e aconteceu de novo, outro amor que não foi, que se foi de novo…E eu, neta de alemão, que não nega suas origens nem mesmo na fisionomia, mais uma vez me transformei em uma sansei, com olhos puxados, inchados de tanto chorar. Foram duros golpes da vida, mas, afinal, golpes que só recebe quem tenta. Eu tentei, tento, e sempre tentarei, inclusive, digo para minhas amigas e coração, que caso eu morra cedo, elas não se esqueçam de registrar na minha lápide:  “ela tentou”.

Nestes momentos, foram raras as pessoas que acataram meu pranto e infinitas aquelas que tentaram me consolar e trouxeram um  a um, mil outros motivos para eu voltar a sorrir. Raras foram as pessoas que respeitaram meu (meu – ainda que estranho!) direito de ficar triste.

Lembro de um evento que ajudei a organizar cujo tema central era justamente a felicidade e, um dos speakers alertou para a “ditadura da felicidade” – uma espécie de obrigação de ser feliz 24 horas por dia, 7 dias por semana, todos os meses do ano, de ser sempre uma pessoa que irradia só felicidade e sentimento nobres. Que responsabilidade, que dificuldade…que peso nos ombros! Mesmo assim, parece que “ser feliz” está na moda e eu, para variar, resolvo inventar uma nova  moda: o direito de ficar triste. Aliás, é mais do que isso: é o direito de ser inteiro, de ser pleno – sem culpas, sem pesos. O eterno mestre das curvas de concreto, Niemeyer, disse que a escuridão da noite é necessária para o nascimento de um novo dia. Assim como ele, eu acredito realmente, que para ser feliz é preciso assumir e viver todos os sorrisos velados, os sentimentos menos nobres, as relações imperfeitas… exercer todos nossos direitos – mesmo que eles sejam avessos!

Não, este não é um texto depressivo, apenas uma carta de alforria: assim como eu tenho a obrigação de ser feliz, pelas infinitas bênçãos que recebo diariamente, também tenho o direito de ser triste em alguns momentos, e, ao invés de olhar para o horizonte e todas as surpresas que ele me reserva – sim, eu acredito! –faço questão de olhar para o lado e perceber que estou sozinha nesta luta…

Sim, estou triste. Como já estive tanta vezes. Olho para os lados e nada me ampara. Mas, se eu não viver e sentir este vazio, exercer meu direito de ser triste, como reunir forças para mudar esta situação? Simultaneamente, recebo tantos feedbacks positivos…mesmo assim,  não posso me culpar, posso sim –  e preciso! –  exercer este meu direito: ficar triste. Ficar um pouco quieta e me desidratar… A tristeza não impede que eu pedale, não impede que eu viaje, que eu tenha sonhos…mas precisa existir para que eu seja verdadeiramente livre, para que eu siga leve. Afinal, o que seria do branco se todos só gostassem do preto?

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