A primeira vez no Rio

A primeira vez a gente nunca esquece.. ainda mais quando são várias: a primeira vez no Rio sozinha, a primeira vez num hostel e, enfim: o clímax: o primeiro pedal na Cidade Maravilhosa!
Era junho.. tinha acabado de realizar um grande evento em Porto Alegre e o convite de uma amiga querida para participar do TEDxRio+20 caiu como uma luva,  nem pensei duas vezes. Comprei as passagens e saí de 8 graus para 20 e tantos…guardei o sobretudo e as botas no armário e fui desbravar o Rio. Através da internet – santa rede! – descobri uma loja que alugava mountain bikes, troquei alguns e-mails e já fiz a minha reserva de uma magrela para o final de semana, pois o evento seria apenas na segunda e terça-feira.
Quando o sábado amanheceu com uma chuvarada, quase não acreditei e tive vontade de fazer como o céu: chorar…Mas, felizmente, eu sempre tenho muitos planos e decidi que iria conhecer a Cadeg, uma espécie de “mercadão” carioca, já munida de capacete, pois neste meio tempo a chuva haveria de parar e lá ia eu, buscar minha bike. E lá fui eu: metrô, trem, algumas quadras de caminhada e finalmente o GPS do celular me colocou no prumo e encontrei o meu destino. A princípio, fui tomada por uma certa frustração, pois parecia apenas um prédio comercial…mas ao subir as escadas rolantes, me deparei com um novo mundo que me encantou: flores, frutas.. comidas… gente com todos sotaques…tão mágico e único quanto o Mercado Público de Porto Alegre e o de São Paulo, mas com um charme- ou seria xiado?!? – a mais!!!

O mais engraçado desta história, é que como toda primeira vez, teve vários quases e mil e uma outras histórias que antecederam a “hora H”!  Pois bem, sigo então com a narrativa das preliminares….

Encostei em um restaurante na CADEG com o melhor bolinho de bacalhau e chopp black de minha vida e já estava quase filosofando, quando lembrei que a magrela estava a minha espera. Na saída, ainda me encantei com uma treliça de bambu e resolvi exportar o adereço de quase dois metros para Poa… mas no caminho de volta e percebendo que a chuva não ia se entregar, aproveitei para conhecer a Feira de São Cristóvão….foi outra sequência de acontecimentos impagáveis….Desci na Quinta da Boa Vista e ao pedir a indicação sobre a feira, os policiais me aconselharam a cortar pelo caminho pelo  Parque e conhecer a Festa de São João. E não é que tinha a maior festança lá, com direito a quadrilha, quentão e até show de Gilberto Gil e Elba Ramalho? E eu seguia com o capacete da bike e agora também a treliça. Fui a feira, repus meu estoque de farinha d‘água e voltei para  o São João e dancei na chuva “Festa do Interior”…e ainda tentei a sorte do dardo e ganhei um ursinho de pelúcia…e nesta brincadeira a bike ficou para domingo…

10 de junho…

Café da manhã reforçado e ansiedade mil que parecia multiplicar os minutos do caminho em horas, até que ,enfim,  cheguei na lojinha, montei na bike e me fui…quando vi a Lagoa Rodrigo de Freitas o coração começou a disparar…fui contornando devagarinho e querendo deixar que todos poros sentissem aquele momento…

Parei para comprar um Gatorade e resolvi perguntar como chegar ao Alto da Boa Vista e a resposta foi de espanto: “mas para quê?!!!? É muito longe, nem tem como explicar…” Mas, como diz o poeta, longe é um lugar que não existe e já que sonhos não se explicam, lá me fui eu…Fui pedalando pelas ruas do Alto Jardim Botânico e me encantando com os casarios, flores e tudo ao redor, sem imaginar que ainda viria muito mais…

Quando  em uma curva escutei o barulhinho de água, não hesitei em “embicar” a bike no meio o mato e seguir por entre os pés de jaca até um pequeno córrego…e  eu ainda nem tinha ultrapassado a entrada do parque. Nunca imaginei que a Floresta era tão grandiosa e confesso que deu vontade de chorar quando me percebi em meio a toda aquela natureza e tão parte dela: “bem vindos a Floresta da Tijuca”…mais umas tantas pedaladas lombas e curvas acima e uma baita cachoeira. “Apeei” novamente. Encantamento. Fotos. Emoção.

E uma chuva fina começou a cair mas nem passou pela cabeça voltar, pois cada metro revelava uma natureza pujante que encheu meu coração de vida…cada detalhe, cada estalo do mato…tudo era encantamento. Pouco a pouco, a cada curva, um novo estímulo para querer subir ainda mais. E não é que quando eu percebi estava na Vista Chinesa? Inacreditável! Mas, felizmente, era tudo verdade…e outras boas surpresas ainda me esperavam pelo caminho.

Resolvi ir adiante e descobri a Mesa do Imperador. Estava admirando a paisagem e tentando  tirar uns autorretratos quando um senhor se aproximou e perguntou se eu gostaria que ele tirasse uma foto minha. Como era ciclista, achei que era confiável e entreguei minha maquina. Aproveitei a deixa e perguntei onde era o final daquela estrada econversa vai, conversa vem, ele me disse que eu deveria ir até a Estrada das Paineiras, que era um lugar lindíssimo e tinha cachoeiras pelo caminho. Me encantei com a perspectiva mas quando ele me explicou como chegar devo ter feito uma cara de espanto tão grande que ele olhou no relógio e disse que iria me acompanhar. Aceitei.

No caminho descobri que ele era um padre, um padre espanhol que além da humanidade,  amava o Rio e sua bicicleta.

Cruzamos o Alto da Boa Vista e quando chegamos no início das Estrada das Paineiras, ele parou a bicicleta em um descampado na beira do caminho com uma vista incrível, me mostrou o visual, indicou a direção que eu deveria seguir, fez o sinal da cruz, me deu a benção e se foi, como em um passe de mágica…

E lá estava eu, novamente sozinha, pedalando na floresta, rumo ao desconhecido…e quando vi a primeira cachoeira se deleitando por cima do asfalto entendi porque o Rio é, sem sombra de dúvida, “A” cidade maravilhosa. Tomei banho de roupa e tudo…puro oxigênio, delícia, delícia!

Neste meio tempo vi uma mensagem de que o grupo que já estava no Rio para o TEDx ia almoçar em Santa Teresa. Segui na pedalada, dando o almoço como grupo como carta fora do baralho quando vi o braço do Cristo Redentor. Fiquei matutando  uns minutos sobre minha localização e dois ciclistas pararam e um deles perguntou se eu queria que tirasse uma foto minha. Claro que aceitei. Precisava de provas concretas que não era tudo “apenas” um sonho divino…E, mais uma vez aproveitei a deixa e perguntei: “Santa Teresa é por aqui?” Relembrando, hoje vejo o quão insólita deve ter sido a minha pergunta: uma “gringa” deslumbrada no meio da floresta, sem saber da onde estava vindo ou para onde estava indo, tirando um monte de fotos como se a criminalidade não existisse  perguntando por um bairro com a naturalidade de quem pergunta por uma loja dentro de um shopping…

Pois bem, os moços disseram que iriam me acompanhar, e pedalaram comigo até Santa Teresa! Um era brasileiro e já tinha morado em Santa Teresa e sabia onde era o restaurante que eu queria ir. O outro, mais tímido, era russo. E no caminho, fizeram as contas e disseram que eu completaria uns 70Km de pedal…e diante deste prognóstico, quando passamos em frente a entrada do mirante de Dona Marta meu instinto foi negar mas eles me encorajaram e, mais que isso – outro momento inesquecível! – quando reduzi a marcha  diante da subida íngreme, eles ficaram um de cada lado de mim, colocaram a mão nas minhas costas e “deram um empurrãozinho” lomba a cima e o russo ainda foi me orientando, para que eu cuidasse a respiração e deu estímulos para que eu vencesse mais este obstáculo. #Foto de cartão postal.

Minha dupla de anjos da guarda foi me escoltando até a porta do restaurante, em um pedal encantador por entre os trilhos do bonde, esperou que eu confirmasse se a turma estava lá mesmo e deu as dicas de como voltar para Copacabana.  Como se não bastassem todos estes momentos mágicos, o Russo ainda me deu a dica do melhor lugar para nadar no mar, indicou amigos,  e virou meu guia-anjo da guarda oficial no Rio.

Encontrei o grupo, tomei uma cachacinha, dei boas risadas e antes da noite cair, desci rindo à toa até o nível do mar e com tanta adrenalina que tive que pedalar até o Leblon para só então retornar ao Leme para uma água de coco e uma oração de agradecimento por uma primeira vez tão maravilhosa. E confesso que foi difícil dormir…

Junho de 2012

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