Ingênua, devassa e transbordante

Eu já falei dele aqui, em um de meus textos…de um querido professor de natação que me alertou que o caminho do conhecimento é sem volta. É.  Fato. E tão certo quanto isso é que algumas de nossas naturezas não podemos negar ou suprimir, sob a pena de deixarmos de ser. Eu penso – até demais! – quero ser uma pessoa melhor, mas hoje tenho noção de que algumas coisas em mim são indispensáveis! Sim: sou ingênua, devassa e transbordante… se eu não me permitir ser assim, me mato aos poucos do jeito mais doloroso possível: sedando os sentidos, anestesiando o coração, deixando escorrer pelos dias as horas como se fossem nada…

A criança arteira no melhor sentido virou gente grande para assumir uma mentira quando estava sendo protegida pela mãe e corajosamente entregou-se ao castigo!

A adolescente sonhadora e líder de turma passou o recado do grupo e pediu um aparte para dizer que não concordava com o boicote que os colegas tinham feito ao novo professor!

A universitária idealista achou que era estrela e ousou fotografar policiais em um registro de abuso de poder e acabou fornecendo provas para um processo ganho anos mais tarde.

A profissional apaixonada teve coragem de dizer “Não” ao Jornal Nacional e passou mais de mês amargurando sua inflexibilidade até que sua ideia original virou pauta e foi veiculada em rede nacional. Foi também esta profissional – ou passional? – que virou bicho e chamou de carniceira a maior rede regional de comunicação que preferiu fazer a cobertura de um homicídio do que de mais de 2mil pessoas reunidas celebrando a vida…

Nesses momentos – e tantos outros – fui tão eu que não pensei, fui ingênua, comprei briga com os grandes, com a maioria, com o poder… Nunca tive problemas para dormir…mas muito já perdi o sono por meus ideais…Já virei muitas noites e dias seguidos acordada para multiplicar o tempo e vencer um trabalho. Em nenhum destes momentos, pensei o que ia ganhar com isso, ou, como dizia uma chefe minha “o que Maria leva com isso?” E mesmo sem este questionamento, sempre levei muita coisa destas posturas e jornadas…levei mais do que poderia imaginar, levei coisas que ninguém pode me levar: vivências, experiências, carinho e consideração de pessoas simples, de pessoas gente, gente como a gente.

Dizem que experteza se aprende (sim, experteza com X de malandragem) e não posso negar que com o passar dos anos, começo a aprender quais as regras do jogo. Contudo, posso me gabar de escutar esta música e não conseguir dançar! Com mais de 20 anos de profissão e quase o dobro de existência tive, há pouco mais de um mês o privilégio de escutar de um colega de trabalho, ao qual pedi desculpas por uma involuntária omissão: “Está perdoada, ainda te considero pura”. INGÊNUA.

Por outro lado, sou devassa e não nego: gosto de ir à fundo, saber onde estou pisando, saber como funciona. Já deveria ter superado há muitas décadas a fase do “Por quê?” mas realmente não consigo. Não convenço ninguém do que não estou convencida. Mais do que reproduzir, preciso processar, entender, transpirar… e é assim, em todos os ramos da minha vida…minha eterna e incansável curiosidade, faz de mim DEVASSA.

Ingênua e devassa, que se joga na vida e depois pensa se há espaço, se é o momento. Que chuta o balde e chuta a água para fora dele!
Em uma recente pedalada pelo interior de Minas, encantada com as inúmeras cachoeiras que amo, ouvi de uma moradora local: “aqui tem muito morro, muita subida e descida, então, os rios encachoeiram”. Encaichoerar: não sei se este verbo existe, mas para mim fez todo sentido, deu nome a outra face que não tenho como deixar de lado – meu ser TRANSBORDANTE. Não sei me poupar do sofrimento, dos altos e baixos da vida… mas, felizmente, depois de muito “encaichoerar” aprendi a ver e sentir a beleza deste momentos, e aprendi que este movimento traz lições maravilhosas. Não tenho mais medo da queda – muito pelo contrário: adoro! Adoro me jogar de cabeça, penetrar o desafio e superá-lo!

É, definitivamente, não adianta lutar com a nossa natureza…o melhor é aprender com ela!

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