Casar ou comprar uma bicicleta?

Já fiz os dois. E quero fazer de novo. Pois, graças a Deus, o tempo nos faz evoluir e as experiências se tornam cada vez melhores.

Lembro com brilho nos olhos da minha primeira bicicleta – na verdade um pequeno triciclo – e todas as outras que a sucederam. Lembro quando meu pai tirou as rodinhas sem que eu percebesse e fiz meus primeiros “voos solos”… Lembro de mim, garota traquina, deixando a marca dos freios na calçada do vizinho e saindo de lá carregada, com todos dentes quebrados pelo tombo memorável. Lembro quando herdei a monareta verde do meu irmão… e aquele Natal tão esperado no qual o Papai Noel trocou as renas e o trenó por uma linda bicicleta vermelha e branca…
Bicicleta sempre foi para  mim sinônimo de liberdade: aventuras na praia, vento na cara, a chance de passear sozinha e paquerar um pouquinho.
Mas, antes que eu tivesse oportunidade de comprar minha primeira bicicleta, veio o primeiro grande amor…arrebatador! E antes que eu percebesse, aquele estranho que pedia meu endereço – com cep! – para enviar convites de festas, estava colocando uma aliança no meu dedo. Como na letra de uma música do Legião Urbana, com muitas coincidências, flores e poesia, em menos de um ano, a aliança já tinha trocado de mão, eu já tinha  a casa, a geladeira e o fogão… mas a bicicleta ficou de fora desta história…

E o fato da bicicleta ter ficado de fora, não significou a negação a liberdade. O casamento foi uma experiência incrível…uma aprendizagem. Ter a mesma pessoa todos os dias, é ter a liberdade de ser cada vez mais inteiro… Contudo, os personagens deste conto de fadas, tinham valores diferentes. Assim, o príncipe virou sapo, e a princesa sonhadora resolveu partir em busca de seus sonhos.  Claro que a separação não foi assim tão simples nem tão poética. Acrescente-se uma boa dose de sordidez,  decepção e sofrimento, mortes em família e outras cicatrizes dolorosas. Mas, como tudo na vida, sarou.

E chegou a hora de eu me reencontrar com um grande amor: a bicicleta. Comecei a abusar dela como uma forma de dar vazão ao stress…e assim, nas noites frescas de Porto Alegre, eu deslizava pelas ruas deixando para trás um dia exaustivo de trabalho. Mas era uma bike emprestada. E quando eu decidi que enfim, deveria comprar minha bicicleta, ganhei uma no sorteio da festa de final de ano dos funcionários. Era vermelha e linda como suas antecessoras que acompanharam minha infância e adolescência. Batizei de Venturosa. E vivemos muitas “bem aventuranças” juntas por este mundão a fora. Pedalei com ela o suficiente para dar algumas voltas no Brasil. E poderia seguir com ela. Assim como eu poderia ter seguido casada. Mas decidi que eu merecia mais, que eu poderia mais. Poderia realizar mais sonhos, ir mais longe, ser mais feliz…

Foi neste ponto da história que surgiu a Flecha –  Venturosa – com o  “sobrenome” em homenagem a anterior. Ela entrou em minha vida em grande estilo: ganhando mala-bike e andando de avião, gastando seus pneus na Cidade Maravilhosa e também na maravilhosa Punta del Este, que anos antes tinha testemunhado meu noivado. Já desbravamos juntas muitos horizontes. Ela me desafia, mas me ajuda a comprovar que sou capaz de superar os obstáculos com perseverança.  Ela me estimula a cultivar a saúde e bons hábitos, a vencer o comodismo, a querer saber sempre mais… ela me aceita como sou, carrega minhas coisas, me leva para casa, me faz sorrir… ela faz bem para a pele! E é no mínimo isso que eu quero de um marido.

Decididamente, comprar uma bicicleta foi uma grande e bem sucedida decisão em minha vida. E com tudo que aprendi com esta relação, me arrisco a assumir que diante do dilema – casar ou comprar uma bicicleta – quero os dois! Sim, quero casar de novo! E desta vez não deixar de fora a bicicleta que pode nos ensinar tanto sobre o tempo e as infinitas possibilidades de uma parceria integral. E quero ser mãe, pois sei que tenho valores importantes para transmitir e perpetuar.

Meu amado pai, aos 75 anos, no leito de um hospital, pegou minha mão e com a sua outra mão a de uma mulher incrível (que não era a minha mãe!) e a apresentou para mim como sua namorada. Depois falou dos planos de irem a Paris. Ele faleceu no final daquele ano. Mas deixou mais este exemplo. Que eu vou seguir. Eu vou seguir casando e comprando bicicletas. Tendo a coragem de sair da zona de conforto e enfrentar as consequências para assumir meus sentimentos, como ele fez. Sem medo de ser feliz. Sem medo do tempo. Sem pretextos pra não viver integralmente os meus sonhos. Sempre inteira. Com força e disposição para construir tudo novamente, cada vez que for preciso.  Pois é… a bicicleta eu já tenho…

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