Divino Desapego

Com a natureza a gente aprende tanta coisa…até o total desapego – que nada mais é do que a superação da ansiedade e a total segurança de que tudo tem o seu tempo e beleza certos!

Eu costumo dizer – e de fato acredito – que o que mais vale na vida é aquilo que ninguém me tira… mas como ter certeza? Me lembro certa vez na adolescência quando me encantei com os estudos da filosofia e tinha elaborado várias teorias sobre a vida, as relações e os pensamentos quando me deparei com uma situação real na qual poderia viver de fato tudo aquilo que até então eu teorizava. Era carnaval – eu amo carnaval! – eu estava na praia e chovia lá fora. Fui deitar contrariada e escutei entre pingos as marchinhas e barulhos de gente ao fundo. Meu impulso foi o de ir para rua,  mas meu irmão não quis me acompanhar e, sem ele saber, me ajudou demais: me debati, sofri um muito e resolvi: se eu amo carnaval, amo marchinhas e sou mais eu, que mal há em sair sozinha para dançar? Meus estudos filosóficos apontavam que o que importava realmente era quem eu era e não como os outros poderiam imaginar que eu fosse.  Decidi praticar e viver a teoria. Me arrumei, e para desespero da minha mãe, eu fui! Sozinha. Uma hora depois chegou meu irmão, de cara amarrada, para “me cuidar”. Tarde demais. Eu já tinha aprendido a me cuidar sozinha do jeito mais maravilhoso e libertador que existe: indo em busca da realização dos meus sonhos sem que  preconceitos ou fantasmas da sociedade fossem capazes de impedir. E viva Heráclito! E viva Platão! E viva Ceres, minha professora de filosofia! E viva a chuva que fez minhas ilusórias bengalas perderem sua função.

Neste momento vivi o desapego. Delícia!

 Em outras oportunidades pude também exercitar o desapego… mas acredito que uma das experiências mais radicais, marcantes e definitivas tenha sido bem mais recente…e como tudo na vida, só depois a gente entende que a vida é um quebra cabeças maravilhoso em que todas as vivências se encaixam…

Em uma de minhas viagens esportivas ouvi o interessante relato da vivência em uma praia de nudismo. A teoria parecia maravilhosa… libertadora. Faço ensaios na privacidade do meu jardim… mas nunca tinha ousado mais…e ao refletir sobre o tem, os dias de teoria foram esgotando-se… Era chegada a hora de, mais uma vez, viver a prática das teorias! Estava decidido: o que muitas vezes rondou minha mente, agora era palavra de ordem: eu devia experimentar e viver um desejo há muito tempo latente: desapego total- inclusive das roupas!

E que forma poderia ser melhor do que ir pedalando? Tudo planejado…Cidade Maravilhosa na mira…seria a mais perfeita das preliminares, senão fosse a dificuldade  de achar a tal praia… Da primeira vez, foram 100k de pedal e uma desistência temporária. Não achar a praia de nudismo – definitivamente – não seria uma frustração para toda a vida.

Uns seis meses depois, tentei novamente… desta vez olhei no site, decorei as referências e estava determinada a encontrar…novamente de bike, é claro!

 E não é que quando eu estava muito próxima, um ciclista se aproximou e puxou papo? E não queria me largar por mais que eu fosse seca nas respostas? E, na minha cabeça, ainda tão apegada, seria muito constrangedor: “com licença, eu quero ficar nua…”

Nem todo mundo entende. Principalmente quem nunca fez. E se o cara quisesse ir junto? Já estava quase adiando mais a vez meu desejo quando consegui me desvencilhar do ex novo amigo. E voltei para procurar a entrada da praia. Lá de cima da estrada vi umas bundas ao longe, por entre as árvores e pensei comigo mesma; é hoje! Voltei um pouco na estrada, vi um restaurante bonito – era uma das referências – e uma trilha em direção ao mato.

 Deve ser ali, pensei. Prendi a bike e segui pela trilha até um salva-vidas eu perguntei discretamente: para chegar na praia ao lado é por aqui? E o moço – será por implicância?- respondeu em altíssimo e bom som: “A praia de nudismo? Não, é pelas pedras…” Quem me conhece sabe que fiquei roxa de tão vermelha nesta hora… mas é claro que lá fui eu em direção as pedras….

Mal cheguei na praia, escutei o som de um apito e um homem veio em minha direção.  Era o fiscal. E ele estava a rigor: de apito no pescoço e mais nada, exatamente como Deus fez…ele me perguntou se eu estava preparada e eu respondi que achava que sim…ele deu orientações sob o mar e a conduta e me deixou a vontade para curtir o local. Foi uma experiência libertadora… tudo de bom mesmo. Abri minha esteira, coloquei o capacete e as coisas da bike na areia, tirei tudo e cai no mar… conexão direta com a natureza. Sem panos, sem preconceitos, sem pudores… cem por cento natural. Desapego.

Deitei para tomar um sol, tomei uma cervejinha para hidratar e fiquei curtindo o vento e filosofando porque as pessoas têm que complicar tanto as coisas simples. Animais não têm vergonhas e nem por isso são menos divinos… talvez seja até por estas rotinas que assumimos que tenhamos tanta dificuldade em assumir que somos divinos…tiramos a qualidade do ser e colocamos no objeto, nas coisas que nos tapam e nos cercam…nas roupas que nos rotulam e nos ícones que “provam” que somos bem sucedidos…nas coisas que escravizam.

Bonito não é o gordo nem o magro: é aquele que é inteiro – humano e divino – e que vive os sentimentos. Não interessam máscaras, interessa o coração – é lá que está a força que move o mundo, que transforma sonhos em realização.

Mas eu tinha 50 e muitos Km de pedal até a volta para casa… infelizmente, tive que me vestir e voltar para a pseudo civilização…

Mas é óbvio que a volta foi diferente: eu tinha transformado teoria em prática: agora eu era cúmplice da natureza – éramos parte do mesmo universo divino… sem segredos, sem pudores… Ser minúscula parte do infinito e ser muito mais.  Agora eu sou isso. Muito mais porque sou muito menos. E danem-se aqueles que pensam que podem me atingir com mentiras, com calúnias, com mundanices. Sou forte porque sou divina. E sou coração. E vou seguir assim: sorrindo para as verdadeiras belezas do mundo – aquelas que não pedem nada em troca, aquelas que não seguem padrões, aquelas que têm luz própria!

Desapego… divino! …e depois que eu tirei tudo, posso até me dar ao luxo de colocar algumas coisas, de fazer como a natureza e, de acordo com a estação, usar certos enfeites…

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