Receitas de Amor e Fé

Nós somos o sal da terra, a luz do mundo…

Lembro, ainda na época do colégio, que nas meditações que antecediam as provas finais: o pastor falou da importância do sal, que dá sabor à vida, que realça o gosto dos alimentos e logo em seguida, afirmou que nós somos o sal….que honra! Que responsabilidade! Que benção: está em nossas mãos: a tarefa de realçar o sabor da vida, de dar-lhe mais alegria, mais leveza, mais amor…Com esta inspiração, decidi fazer um pequeno exercício, e compartilhar um pouco da vivência com pessoas que me ensinam o sabor da vida, dando-lhe valor e mostrando, acima de tudo, o exercício diário da fé e do amor…

A Casa de Passagem São Lucas é um lugar especial, pois reúne e acolhe pessoas vindas dos mais diversos recantos deste Brasil, que trazem consigo uma história “triste”, temperos regionais e, o mais precioso de tudo: o amor pela vida! Pensada para oferecer abrigo as pessoas que precisam vir à capital gaúcha para tratamento médico, a grande maioria dos hóspedes aguarda um transplante de órgãos, um espera longa e penosa.

Durante sete anos participei ativamente da Paróquia São Lucas, conheci pessoas incríveis, que me ajudaram muito mais que possam imaginar a fortalecer minha fé e abrir meu coração para a beleza e simplicidade da vida. Continuo participando, mas bem mais esporadicamente, me dedicando agora ao Culto Infantil. Mas as lições ficam  e sempre lembro com carinho da Casa de Passagem. Queria que todos pudessem experimentar esta convivência amorosa e enriquecedora… então, pensei em reunir algumas receitas que aprendi por lá, na Casa de Passagem, sempre com suas portas abertas e sua enorme mesa farta, repleta de hospitalidade. Cada receita traz consigo uma história de vida, para qual precisamos também abrir ossos corações: para a importância da doação – de órgãos, de amor, de força, de compreensão – mesmo quando todos os caminhos parecem tortuosos, quando a doença parece uma sentença fatal, encontramos pessoas que sorriem diante de cada pequena conquista, que fazem planos para o futuro com a confiança e certeza de que ele virá: no momento certo, o tempo divino que conhece todo nosso íntimo e sabe, melhor do que nós, o que é melhor para nós… Vou deixar as receitas propriamente ditas para outra hora… vou apenas contar a lição dos temperos… Mas, quem quiser uma receita de kibe, bem mineirinha e saudável, de bolo de milho com sotaque pernambucano, ou uma massa de pizza bem gaudéria, é só fazer contato que eu envio!

A cozinha da casa é o lugar onde coloca-se sal nos alimentos, onde a magia dos temperos ganha forma, é um lugar muito especial, quase terapêutico,  cenário para receitas, histórias de vida e lembranças únicas. Na cozinha da Casa de Passagem, com suas mesas enormes, onde sempre parece caber mais um, é que começávamos – ou continuávamos –  a conversa, com aquele delicioso cheiro de café no ar, que vai trazendo sempre mais um para a prosa e enriquecendo a conversa com sua experiência, ou, mesmo com o seu olhar atento. Na Casa de Passagem era assim: o “oi”  pós culto virava um café, espichava até o almoço…a gente engatava na conversa – enquanto o telefone não tocava para dar uma boa notícia – e quando eu me dava conta, já estavam batendo um bolinho, passando um café novinho…fazendo um carinho para quem estava lá para ouvir, para dividir a ansiedade da espera…

Passei alguns natais naquela cozinha imensa… que só era menor que o coração daquelas pessoas…e quando eu até me preparava, pensando que seria uma noite triste, era surpreendida por alegria e versos de baião.

Lembro o Deusdete, um jovem do Piauí que aguardava transplante de pulmão – foi ele que me fez provar tapioca pela primeira vez – ofereceu seu prato, exercício sincero de doação… e são gestos como este que gostaria de partilhar, como forma de agradecer a todos que passaram pela Casa de Passagem e deixaram um pouco de si, que demonstraram uma fé que vai muito além  de palavras, que é testemunho prático, diário, desinteressado…uma combinação de muitos ingredientes.

Alguns dos hóspedes da Casa de Passagem não estão mais conosco… mas com certeza realizaram aquilo que todos – de uma de forma ou de outra  todo desejam: fizeram a diferença: impossível comer uma tapioca e não lembrar do Deusdete, ou quando bate frio e a manta aconchega, impossível não pensar na catarinense Marlene, que em sua espera por um pulmão, teceu para mim um lindo cachecol com matizes de azul, assim como o céu para onde ela foi tão de repente…

Nestes tempos eu estava começando a pedalar pela cidade, na subida de uma lomba acabei lembrando que há muito pouco tempo atrás tinha aprendido a trocar as marchas da bike, o que me deu a possibilidade de ir muito mais longe! Sim, é verdade! Todo domingo eu ia para o culto e na finaleira dos 15 quilômetros, me deparava com uma baita lomba e meu sonho era subi-la pedalando…e quando eu chegava na paróquia falava desta minha pretensão. Um dos meus ouvintes era o Lu, um biólogo mineiro que aguardava o transplante de pulmão. Enquanto eu sonhava em subir a lomba pedalando, ele sonhava em apenas voltar a pedalar. Combinamos que assim que o transplante acontecesse, pedalaríamos juntos. Foi uma das pedaladas mais emocionantes da minha vida, que virou até uma matéria de TV para o Canal Comunitário. Eu aprendi a trocar as marchas e o Lu conseguiu o pulmão. Tudo no seu tempo. Comemoramos juntos e pedalamos um pouco no calçadão de Ipanema e talvez nesta ocasião tenha ficado tatuado para sempre meu amor pelas lições da bicicleta e a busca constante pelo sentido da vida.

Das pessoas que aguardavam doação e se doavam inteiramente a vida, aprendi um pouco do verdadeiro sabor de viver… Não se trata de se consolar com a dor alheia, nem de se conformar, mas sim de degustar cada tempero que a vida no apresenta, tendo a fé que se no momento ele parece amargo, com certeza ele é uma preparação para um novo gosto. Assim como o ritual de mascar sementes de cardamomo  preparando a boca para sorver o café de um jeito especial…hábito aliás, que aprendi na paróquia…

            Sabe aqueles dias que acordamos tristes, pois sentimos que nossa vida está muito morna, que estamos no automático, fazendo por fazer, sem sentir o amor, sem sentir a vida que abunda em cada ato?  Pois é, esta é a hora de mudar e, de dar um sorriso, de caprichar o visual, de fazer uma visita há muito prometida, de fazer  algo de bom hoje, fazer do presente, um presente de fato, sem esperar passiva e desanimadamente o futuro perfeito!

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