O segredo da Floresta

A frase não é minha…mas faz muito sentido para mim: para se encontrar, é preciso se perder. Talvez ela explique o meu amor pela floresta. Eu fiquei tão encantada em minha primeira pedalada pela Floresta da Tijuca, que resolvi que passaria minhas próximas férias no Rio. Dito e feito: foram 20 dias de muito pedal, mar, banho de cachoeira, uma meia maratona e alguns chopinhos, porque afinal, ninguém é e ferro! No último dia, tinha planejado pedalar e conhecer uma feirinha na Urca. Eu estava em Ipanema, mas é claro que não escolhi o caminho mais curto. Afinal, se o importante fosse mesmo chegar, poderíamos deixar a vida de lado e ir logo para a morte, que é onde chegam todos que vivem… Pois bem, o caminho que escolhi foi a encantadora e mágica Floresta da Tijuca: tinha tudo na cabeça, ia passar pela curva da felicidade, subir até a Vista Chinesa, pegar o Alto da Boa Vista, a Estrada das Paineiras, passar ao lado do Cristo e descer por Santa Tereza…simples assim! E lá estava eu, me deliciando nas subidas e curvas da floresta, quando flagrei uns macacos prego bem de perto e tive que parar para curtir. Um ciclista passou por mim, sorriu e foi adiante. Com as minhas paradas para lanchinhos e fotos, ele deve ter passado por mim mais uma ou duas vezes, até que me perguntou alguma coisa em inglês e eu disse que era brasileira. Ele perguntou se podia pedalar comigo e eu aceitei. Foi uma conversa boa que seguiu pela Estrada das Paineiras e lá pelas tantas, acho que ele perguntou para onde eu ia e diante da inusitada resposta, lançou a – para mim – mais inusitada ainda pergunta: você não quer subir até o Cristo pedalando? Eu não sabia que era possível e diante da possibilidade, é claro que aceitei! E foi maravilhoso… curva a curva fui vencendo as subidas íngremes, encantada com a vegetação do caminho e vendo, cada vez mais perto um dos ícones da Cidade Maravilhosa, que parecia dirigir uma benção especial a mim… E não é que até framboesas iguais aos do meu jardim eu flagrei no meio do caminho? Pronto, estava definitivamente conectada com o Rio. E lá em cima, falamos de novos termos, que na verdade, trazem antigas sabedorias com a biomimética, que olha para a natureza como sábia mor…e, falando dela, veio um novo convite, se eu gostaria de conhecer uma cachoeira na subida da Vista Chinesa. Será? Seria o adeus para a feirinha. Fiquei tentada, mas, a esta altura do campeonato, a minha preocupação era outra: desmontar a bike em tempo e não perder o avião. Fizemos as contas e eu acabei aceitando a proposta. Confesso, o desconhecido me fascina e foi irresistível aceitar. Era uma cachoeira que eu ainda não conhecia, dentre as tantas que nunca conhecerei. Não havia qualquer sinalização. Eu e meu amigo entramos na floresta e a uma distância segura da estrada, prendemos as bikes em uma árvore e seguimos a pé. As distâncias na floresta são relativas. Não sei exatamente quanto caminhamos até encontrar uma jóia no meio do verde: uma árvore tão, mas tão grande que me senti uma formiguinha no meio da mata. E seguimos pelo meio do verde, intercalando silêncios…eu não conseguia deixar de me deslumbrar com todos os detalhes infinitos da floresta…e, nas subidas e descidas, quando eu era obrigada a usar os quatro apoios como meus ancestrais, me sentia um pouco no filme Avatar, me conectando com todas histórias da humanidade. E enfim chegamos na cachoeira…gelada, divina…com peixes, com muita vida…tirei os sapatos para molhar os pés, mas não resisti a um banho de corpo inteiro – de roupa e tudo – e lá fui eu: ser parte da floresta! Lavei a alma, gelei o corpo, brilhei o olho…e, por falar em olho, de olho no relógio, acabei tendo que deixar a mata e meu novo amigo da floresta…voltei para civilização, desmontei a bike, peguei o avião e voltei para o dia a dia da cidade. Mas não esqueci a floresta. Voltei lá sozinha em outra ocasião. Prendi a bicicleta, passei pela árvore gigante, como se soubesse tudo, como se tudo estivesse dominado…e me perdi. E foi nesta perdição que me encontrei. É impressionante como a natureza sabe nos colocar no local exato – em todos os sentidos. Foi ao administrar o medo do desconhecido e infinitamente maior que eu pude enxergar com clareza o meu lugar, na trilha, no ecossistema, no mundo… Respirei fundo e fui lembrando cada detalhe, cada possibilidade e enxerguei com clareza o momento em que comecei a andar em círculos na floresta: o momento em que ignorei a natureza, em que achei que poderia dominá-la. E com esta clareza, como um passe de mágica, dei mais alguns passos, contornei algumas árvores e cheguei na cachoeira. Cheguei enorme. E minúscula, agora eu era parte da floresta. A floresta era parte de mim. Pode haver maior paradoxo…ou prazer? Gandhi uma vez falou que uma gota de água sozinha evapora, no entanto, esta mesma gota, diluída no mar, tem a fortaleza de um oceano. Ser menos, para ser mais. Esta lição só a natureza ensina. Se perder para se encontrar. A floresta me deu mais este presente! A propósito, na floresta é mais fácil se perder – e ou se encontrar – mas, na civilização é exatamente igual: na correria do dia a dia, as vezes esquecemos de olhar e sentir os detalhes maravilhosos da vida com a gratidão de fazer parte de um mecanismo perfeito, onde tudo tem seu tempo e medida exata; com isso perdemos o caminho, começamos a andar em círculos. E, para quem acha a vida diária uma chata rotina, é porque nunca se perdeu, é porque nunca teve coragem de ser menos, para ser “só” natureza e se deleitar diariamente com a alegria de viver e ser, floresta, com toda sua abundância…

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