O primeiro dia

Eu já estava há 3 semanas na Africa do Sul e chegou a hora de partir. Eu já tinha criado uma rotina e me sentia em casa em Cape Town. Mas o plano era outro…

De repente, a ideia de colocar toda a “casa” nas costas – ou melhor, na bicicleta- e sair fez com que a dor de barriga fosse inevitável. Eu fui super prudente e planejei apenas 40 km para o primeiro dia da Cicloviagem pela costa sul africana. Era um trajeto que eu já tinha feito, porém no sentido contrário, sem carga e com todas as ruas fechadas para o trânsito exclusivo de bicicletas. Eu estava com medo. Mesmo assim, por mais que as borboletas se revirassem no meu estômago, eu não desisti. Era mesmo hora de partir.

Por volta das 7 da manhã eu desci para a portaria do hostel com todas as minhas coisas e pela última vez pedi ao John pela Snow White. Aqui, cabe um à parte: minha bike ficava trancada na garagem do hostel, e apenas os funcionários podiam buscá-la. Uns faziam cara feia e outros tinham má vontade. Mas o John era diferente: ele acreditou que minha bike tinha alma e a chamava pelo nome. Quando eu saia, ele perguntava onde a Snow White me levaria. Na volta, perguntava o que ela tinha achado e escutava com atenção. Assim, que cada vez que eu tinha que pedir a bicicleta, torcia para que fosse a vez do John me atender! E  foi assim naquela manhã que também me presenteou com o encontro com uma outra brasileira que trabalhava no hostel e viajava de bike, da qual eu tinha escutado falar e nunca tinha encontrado. É sempre bom arrancar com uma palavra de conforto no idioma natal. E assim, boleei a perna, subi na Branca de Neve e comecei a pedalar muito devagar rumo ao sul.

Era eu diminuir o ritmo que os pedestres já vinham conversar. Perguntavam de onde eu vinha e para onde eu ia. Com certo constrangimento eu declarava que era apenas o primeiro dia, mas que eu teria mais de um mês pela frente. Eu nem ousava dizer o ponto de chegada, apenas a direção: PE (Port Elizabeth). Escutei muitas palavras de animo, carinho e de novo ouvi repetidas vezes, de várias pessoas a fala da motorista de uber em meu segundo dia no novo continente: “You are a very brave woman”. Não sei se sou corajosa…mas quero ser! 

Toda aquela energia compartilhada nas primeiras horas da manhã me fez avançar e quando percebi já estava diante dos Doze Apóstolos – uma série de montanhas de tirar o fôlego junto a Camps Bay. Naquele dia ainda mais lindas pelas nuvens de umidade em seu topo.

 A Africa do Sul é um país maravilhoso que respira esportes e desde manhã muito cedo já há praticantes na rua. Foi aí meu primeiro desafio: eu tinha vencido uma boa subida, estava por chegar em Hout Bay e a vontade de fazer o número 1 era incrível. Cada vez que eu via uma potencial moita e reduzia a velocidade, emparelhava outro ciclista para saber se estava tudo bem, conversar e desejar boa viagem. E eu era forçada a adiar esta parada estratégica. A situação hilária já tinha acontecido mais de meia dúzia de vezes e eu estava decidida a baixar as calças em plena estrada. Felizmente, encontrei uma árvore mais robusta onde pude apoiar a bicicleta e me esconder rapidamente antes de outro papo. Primeira grande vitória do dia.

Mesmo já conhecendo o caminho, foi inevitável não tirar muitas fotos e parar inúmeras vezes para acreditar que eu tinha conseguido finalmente partir. Cheguei em Hout Bay e lá tinha uma feira de artesanato. Eu sabia que qualquer coisa que eu comprasse teria que carregar toda a viagem, mas eu não resisti. Comprei uma canequinha para meu afilhado e outra para a filha do então amor e pendurei atrás, como um troféu.  Queria que as crianças fizessem esta viagem comigo, mesmo que simbolicamente elas  estariam lá, na retaguarda, para dar motivação nas subidas, paciência nas dificuldades, perseverança…

A próxima parada agora deveria ser a Chapman’s Peak Drive, uma estrada incrível, praticamente esculpida nas rochas e que fica tão na beirinha do Oceano Atlântico que em dias de vento forte ela é fechada e os veículos são proibidos de circular por uma questão de segurança. Este era um grande temor que eu tinha. Se ela estivesse fechada, teria que dar uma volta incrível e retornar da “estaca zero”. A África do Sul também é o país do vento, da ventania. Os grandes navegadores que o digam. Sua costa é um museu a céu aberto de vários naufrágios. Quando vi a placa anunciando o início da estrada e avisando que ela estava aberta, meu coração suspirou aliviado.  Meu ser sorriu de orelha a orelha. Num piscar de olhos eu estava por iniciar a cinematográfica Chapman’s Peak Drive, e resolvi parar para comer um sanduíche, antes que o sol comprometesse a deliciosa carne de  avestruz que o recheava. Mais conversas. E já aproveitei para pedir uma foto. O povo africano é incrivelmente simpático:  tem o calor latino e a correção européia.

 Sem acostamento e na mão inglesa, fiz a Chapman’s Peak com passos de formiga, quase caminhando para não perder nenhum centímetro daquela vista maravilhosa. Ao mesmo tempo, tinha a sensação de que meus alforges ocupavam toda uma pista e trancavam o trânsito. Era só impressão. Era o primeiro dia da cicloviagem e eu ainda não tinha incorporado minhas novas dimensões. Impossível também foi não pensar no meu amado pai engenheiro civil e no quanto ele ficaria fascinado com a grandiosidade desta obra. Em alguns trechos, eu estava pedalando dentro das rochas ancoradas por estruturas de ferro e concreto e admirando o Oceano. 

Três semanas sozinha neste novo e encantador continente e nos momentos de emoção percebi que meus pensamentos já vinham embaralhados, um pouco em português, um pouco em inglês. Assim foi quando fiz um vídeo na última curva da estrada já enxergando ao longe a praia onde seria o meu pernoite. A visão da praia era maravilhosa, mas vinha acompanhada de um calafrio na espinha com a bandeira que sinalizava tubarões. Olhei para o lado contrário e me deparei com uma visão completamente inesperada: uma fazenda de Lhamas. Eu já estava em Noordhoek e quase comemorando o sucesso do primeiro dia. Muitas placas sinalizando o trânsito de cavalos não deixavam dúvida que aquela era também uma região de muitos haras. 

 Quase em “casa” e meu coração disparou quando vi o cartaz de uma fazenda onde era possível cavalgar. Foi bem na “esquina” onde 2 semanas atrás, durante a competição de ciclismo eu dobrei e achei que o vento ia me fazer andar para trás. Talvez por isso não tivesse reparado na Fazenda. Como eu estava tranquila no tempo, entrei para “assuntar”. Não me deram muita bola, o atendente não entendia porque eu queria andar a cavalo se estava de bicicleta. Resolvi não insistir. Peguei o telefone do lugar e segui viagem. Cheguei enfim no local do meu pernoite. Um senhor muito simpático me recebeu com seu cão mais simpático ainda. Eu perguntei o nome dos dois. O dele era Erik, o do dog Forrest. “Como Forrest Gump?” Eu perguntei. Erik riu e respondeu afirmativamente. Considerei a coincidência um  bom presságio para a minha viagem e resolvi ousar, afinal não eram nem 3 horas da tarde: pedi ao Erik que ligasse para a Fazenda a agendasse uma cavalgada para mim naquela mesma tarde. Deu certo!

Bike leve e em menos de 20 minutos eu estava lá. Quando fui deixar a bike no escritório para montar, outra coincidência: o nome do garanhão que tinha dado origem a fazenda era o mesmo do meu avô: Fritz. Foram mais de 2 horas de contemplação. Saímos da fazenda por uma trilha, atravessamos um pequeno banhado com uma maravilhosa diversidade de aves e chegamos a beira da praia. A mesma que eu tinha visto do finalzinho da Chapman’s Peak Drive: areias incrivelmente brancas, vegetação, nada de construções,  água divina… eu estava me sentindo em um filme e até arrisquei soltar as rédeas e dar  umas disparadas…olhei para as ondas e vi 2 golfinhos pescando. Fui ao céu. Estava nele. O dia rendeu como nunca.

Saí da fazenda e fui explorar uma igreja que tinha me chamado a atenção da estrada. Igreja de São José e o aniversário de seu patrono tinha sido há poucos dias atrás. Era de fato, muito linda e lá de cima contemplei parte do horizonte que tinha vencido naquele dia e agradeci. Quando vi, estava sentada em um banco dedicado a uma mulher falecida. Foi uma das dedicatórias mais lindas que já li. Adoraria que fosse para mim. Chorei. A esta altura da vida, sei que alguns sonhos são de fato impossíveis. Mas não tinha tristeza nas minhas lágrimas e sim gratidão. 

Segui viagem. Fui até a beira da praia e deixei a bike presa, me aguardando em um banco. A praia de Kommetjie é mesmo imperdível, como disse um amigo que sugeriu que eu a incluísse no roteiro. Na ponta em que eu estava, milhares de pedras perfeitamente redondas faziam as vezes da areia e davam um som todo especial as ondas. Me deliciei com um por do sol no Atlântico e logo outra prosa. Um senhor incrível que morava naquela praia e que me falou da natureza, da vida e do que lhe é caro com a propriedade de quem escolheu ser feliz de fato, acima de todas as coisas. Foi inspirador….teria virado a noite conversando com aquele senhor. Mas a orientação que eu tinha era bem clara: volte sempre para casa com a luz do dia. Eu me despedi e fui. Quando estava na esquina de casa, vi o restaurante que o Erik tinha sugerido e resolvi provar. Escolhi lulas com fritas e um pinch de cerveja, para repor as energias. O lugar imitava um farol e era muito agradável. Escolhi uma mesa ao ar livre, no pátio, e fiquei revendo as fotos do dia e sonhando acordada os próximos passos. Quando percebi, já era noite estrelada e qual não foi a minha surpresa quando o Erik apareceu lá. Ele disse que ficou preocupado porque eu não tinha levado luzes para a bicicleta e ligou para a fazenda. Avisaram que eu tinha saído há horas. Então a preocupação aumentou e ele achou melhor sair e me procurar, temendo que eu pudesse ter me acidentado ou estar perdida. Constrangida por não ter avisado meus planos (que aliás eu não tinha!) agradeci a gentileza e disse que voltaria assim que terminasse a janta. Sai do restaurante, passei em frente a 2 casas e estava enfim da minha: Duck and Doolittle Guest House. E lá estava Forrest, ansioso por minhas histórias… 

Primeiro dia da Cicloviagem pela Costa da África do Sul. Saí de Sea Point e fui até Kommentjie foram 45,6 km e 553 m de elevação. Nas voltinhas, incluindo a cavalgada na praia, foram mais 19,08 km e 156 m de ganho de elevação. 24 de março de 2019.
Confira minha atividade no Strava: https://strava.app.link/edilD0Osg5

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