Entrincheirada

Escutei de um jornalista português a seguinte frase, retirada por ele das redes sociais: “aos nossos avôs, pediram que fossem para a guerra. Para nós, pedem que fiquemos em casa”. Esta frase calou fundo em mim – mais que qualquer notícia ou video explicativo do poder de destruição do COVID-19. Meu avô paterno, lutou na Grande Guerra. Ele foi um sobrevivente. Vendo sua pátria arrasada, quis recomeçar a vida em novo cenário. Veio para o Brasil…trabalhou duro, conheceu minha avô, mudou a sua história, criou a minha…

Há poucos dias atrás, conversando com uma prima que conviveu com ele, perguntei se esta história era verdade, pois ele faleceu quando eu tinha 2 anos e só me lembro dele por foto. Ela comfirmou, fez relatos emocionantes de quando meu avô esteve entrincheirado, rodeado de morte. Ano passado, eu fiz de bicicleta o caminho daqueles que atiram no meu avô e mataram seus amigos. Estive em uma área de trincheiras e me pareceu impossível que meu avô tivesse sobrevivido (por isso questionei monha prima).  Senti uma gratidão infinita por ele não ter desistido e por eu estar ali graças a ele. Segui o caminho e no Museu da Grande Guerra vi os trajes e “apetrechos” dos soldados alemães e dos aliados. A diferença era gritante…de novo: como meu avô pôde sobreviver com tão pouco a horrores tâo grandes? Ele fechou olhos de amigos e pisou – ou rastejou? – em poças de sangue. Mas sobreviveu. E nestes campos, que foram o cenário de tantas atrocidades, hoje há muitos memorias em homenagem aos mortos e rios de papoulas vermelhas – escolhidas como um símbolo da guerra e da cura necessária. 

Março de 2020  e eu hoje me lamuriando porque tenho que ficar em casa. O dia está lindo e eu adoraria sair…quem sabe até colher flores…. Eu gostaria de fazer um doce, mas faltam alguns ingredientes…Só porque não posso, queria tantas coisas! Mas eu vou ficar em casa! É o mínimo que posso fazer: ficar na minha trincheira que felizmente tem muitas plantas – inclusive comestíveis – e animais queridos. Devo isso ao meu avô. Devo isso a humanidade que o poupou para que eu existisse. 

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