O maior exercício do mundo

Olhando para o ano que passou, naquele tradicional balanço de virada, eu pensava em escrever sobre um nova modalidade que se tornou a tônica em minha vida nos últimos tempos. Uma modalidade, que, como todo o bom exercício, no início, assusta, parece impossível, mas, depois, conquista à conquista, vai se tornando cada vez mais, parte indispensável da vida, tal como o ar. Contudo, antes que eu me focasse nos teclados, veio a vida e me transformou em uma “pentatleta”:  agora, além da natação, da corrida e do ciclismo, e da (re)decoberta do amor estou exercitando a humildade…. O desafio do amor nasceu de um convite, o de ser dinda. E a humildade, quem diria, chegou até mim avassaladora,  através de um pit bull raivoso, que paralisou a minha vida, que interrompeu abruptamente a contagem da minha quilometragem.

Em dezembro de 2012 aceitei o compromisso de ser dinda. Em janeiro de 2013 embarquei no sonho distante de nadar 6,5Km, de um continente para o outro. Mal eu podia imaginar que o desafio maior seria o primeiro, pois me fez ter de exercitar o amor – um exercício muito mais completo e complexo do que a natação. O amor, há muito adormecido foi ressurgindo por todos meus poros e me fez  descobrir, assim como no esporte, todo o meu potencial. E, depois que  gente aprende, depois que sabe que pode,  é um caminho sem volta…mas, confesso, foi uma dádiva descobrir  – e praticar – o amor como exercício.

 E é bem assim mesmo.  O amor é, sem sombra de dúvidas, o maior exercício do mundo.  Depois da decisão tomada, da inscrição feita, não há mais como fugir. Na natação, foi mais fácil: o desafio tinha dia, hora e local determinados.  Eu pude estabelecer uma planilha de treinos, comprar passagens, escolher o maiô.  Com o Mateus, meu filhado, foi diferente: ele estava tão ansioso quanto nós, decidiu chegar mais cedo. Ele me pegou desprevenida no meio de uma reunião. Eu não sabia se seguia o discurso ou se alugava um helicóptero, pois ele nasceu em Novo Hamburgo e eu teria que encarar a BR 116 para conhecê-lo. Decisão muito mais complexa do que cair n´água e ajustar a braçada para obter o máximo rendimento. E, a estrada pareceu infinita, ao contrário da contagem regressiva para embarcar para Istanbul, que parecia cada vez mais rápida.

Na primeira visita, eu não pude ver o Mateus, pois ele não esperou por mim e foi direto para a UTI. Eu só vi seus pais, meus amigos de juventude, e tive a certeza de que o amor existe. E se multiplica. Comecei a amar, sem mesmo ver, ao contrário da natação, na qual minha treinadora filmou minhas braçadas para que eu entendesse qual a mudança necessária e então ficou tão fácil…

Fui para a Bahia, nadar com tartarugas – pois há menos de três meses do momento derradeiro de me lançar em braçadas de um continente a outro, transformei toda mínima possibilidade em treino. Já na modalidade amor, que lógica tinha ignorar a Bahia de todos os santos em detrimento de uma fotinho de um desconhecido? Mas lá estava eu, em cenário paradisíaco, rindo como boba diante da tela de um celular. Eu até mandei um postal para aquele minúsculo ser, mas, eu acabei chegando antes – mesmo indo de bicicleta – e chorei ao dar o primeiro colo, mesmo diante da passividade daquele pequenino que só fazia dormir. Se eu já amava tanto antes mesmo de conhecer, tê-lo em meus braços foi a certeza de que milagres existem. A primeira vez que ultrapassei a marca dos 7km na piscina não foi tão marcante. A Travessia do Bósforo seria de 6,5Km, mas a favor da correnteza. A lógica indicava que não havia o que temer. Meu desempenho na Turquia era previsível. Com o Mateus não. O exercício do amor é imprevisível. A cada mês, a cada visita, é uma nova surpresa, uma nova emoção: o primeiro toque, o primeiro olhar, o primeiro sorriso. E eu nunca consigo olhar para a máquina fotográfica, pois fico praticamente hipnotizada por aqueles olhos azuis que refletem uma pessoa que eu não reconhecia…ou que estava bem escondida: uma nadadora que ama  vida, e que sabe amar também as pessoas, que está disposta a dividir e que reconhece com gratidão cada agrura da vida.

Embarquei para Istanbul em uma viagem dos sonhos, que me conectou com deuses e atletas, que me pôs de peito aberto para o mar grego de azul infinito. No raiar do dia, subi de balão nos céus da Capadócia e cochichei no ouvido do Todo Poderoso meus mais íntimos desejos. E, mesmo que ao final de cada dia agradecesse pois  a vida poderia terminar naquele instante que eu teria só gratidão, ainda completei a travessia em menos da metade do tempo limite. Fiquei em  25º lugar entre quase 100 atletas da minha categoria, das mais variadas partes do mundo. O desafio da natação, estava vencido. Vencido com louvor. Já o exercício do amor…está só começando: cruzei continentes, pedalei montes e montanhas e nunca imaginei que esta modalidade me proporcionaria tantas surpresas. Foi quando completaram-se nove meses – justamente o tempo de uma gestação, que, diga-se de passagem, nem o Mateus quis esperar – que ao escrever um cartão de Natal, justamente para ele, meu amado Mateus, eu percebi que o amor é um exercício: que quanto mais eu me dedico, mais eu posso!  Meu amado afilhado me fez treinar, mesmo antes do primeiro contato, me mostrou que posso muito, que eu posso mais, que eu posso ficar boba diante de outro ser, da mesma forma que fico em estado de graça ao cruzar mares e horizontes, seja nas travessias ou nas cicloturísticas pedaladas. Ele me mostrou que a fonte não secou. Que ainda sei amar. Que mesmo sem praticar, uma vez atleta, sempre atleta. Foi justamente na volta de uma das minhas pedaladas – quando eu ria à toa enquanto enchia meu coração de horizontes – que o exercício do amor ganhou um aliado, que a história se completou e eu me tornei uma verdadeira pentatleta: um pit bull me atacou, eu fui parar no hospital e dei o braço à torcer:  é impossível ser MAIS feliz sozinha. Sim, o pit bull não me derrubou da bicicleta, mas na tentativa de me mastigar, ele me dobrou:  me fez ser humana e pedir ajuda. Eu desmaiei de dor e recebi medicação na veia. Mas tudo o que eu queria era um abraço. O cão assassino me fez admitir que está na hora de praticar mais amor,  de exercitar humildade, humanidade. Já superei a completa imobilidade, as muletas, os pontos…mas ainda não consegui superar a estagnação a qual o pit bull me condenou: são mais de 20 dias sem nadar, sem pedalar, sem ter autonomia! São mais de 20 dias admitindo diariamente minha impotência… Mas, se por um lado o pit bull me ensinou a ter humildade de admitir que chega de andar por aí sozinha, ele também me ensinou – literalmente na pele – que de nada adianta uma companhia que nem ele: que surge do nada, me foca como uma presa e me abate. Que não sabe nem quer saber minha história. Que cumpre seu desejo e vai embora sem perguntar o meu, que deixa tudo machucado por dentro, sem nem pensar em dividir comigo os momentos difíceis da recuperação, ou o desafio da paciência, que me impede por um tempo (que hoje parece infinito) de fazer coisas que amo demais. Escuto um latido e meu corpo paralisa…sinto um arrepio na espinha…corre um adrenalina extra: a lição está viva – só o maior exercício do mundo pode me curar, só o amor me fará pentatleta de verdade! Correndo, pedalando, nadando…sendo humilde para admitir que só o amor pode tudo e pode sempre mais… logo, logo não devo mais estar manca e vou seguir como Lutero “inspirou”: agindo como se só dependesse de mim e confiando como se só dependesse de Deus. Aberta por caninos vorazes, aberta para as lições da vida – com ou sem anestesia!

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