Vidas Divididas

Me lembro bem, em uma sessão de terapia quando eu descrevi como gostaria de um namorado: resumidamente, que me permitisse ser livre e, quando eu voltasse, me recebesse com todo o carinho do mundo, escutasse minhas história, vibrasse com minhas conquistas, sem cobranças. Veio então aquele momento de silêncio constragedor e eu corriji meu desejo: afinal, o que eu queria, só um cachorro para me dar. Fidelidade, plena aceitação, triste quando saio, feliz quando volto, não importa o tempo. Amor incondicional. Sensibilidade extrema para antever meus próprios sentimentos, saber quando preciso parar, quando preciso sorrir, quando preciso de carinho..

Nessa constatação e já que o namorado nunca apareceu, comprei uma casa, não sei como. E no dia seguinte, quando fui na imobiliária assinar os papéis e tomei um chá de cadeira, já sai de lá com uma linda guaipeca no colo e um saco de ração debaixo do braço. Ela foi minha parceira de explorações em um novo e lindo território. Em uma nova vida. No começo, eramos só eu e ela. Companheiras inseparáveis. Eu andava em um ritmo enlouquecido de trabalho e ela me ensinou a me espreguiçar de manhã e a escolher as mais doces amoras para o café da manhã. De noite ela me protegia e fazia eu me sentir uma rainha em meu reino cor de rosa, minha Passárgada. Depois de muito viajar em seus olhinhos, dei-lhe o nome de Lilica. Um pouco Lili inventa o mundo, do meu querido Quintana,  um pouco Carol.

Meu ritmo de trabalho que já era louco, ficou mais ainda e eu achei que ela precisava de uma companheira para minhas longas ausências. Veio a Love, outra guaipeca legítima. As duas se uniram, começaram a fazer muita arte e ganharam casa no pátio. Eu tive altos e baixos e em todas as alegrias e crises e elas estiveram sempre ao meu lado, com aqueles olhinhos expressivos e o rabo balançando sem moderação a cada chegada. A Lilica sempre teve um instinto maternal gigante – foi ela que acolheu e cuidou quando um gatinho chegou a nossa família para ajudar a patrulhar o jardim. Os anos foram passando e ela nunca perdeu a vontade de brincar. Nem a euforia de mostrar suas caças, por mais  exóticas que fossem. Quantos camundongos ganhei de presente? Nem sei…foram muitos, ou todos que passaram por aqui. Uma vez, ela decidiu pescar o peixe vermelho da minha fonte. Ficou lá 2 noites à fio, focada. Até que conseguiu. Ela sempre adorou roer ossinhos e claro que  não deixou passar quando esqueci o capacete da bike no seu alcance. Me pareceu muito lógico atacar aquele bicho estranho que subia na minha cabeça e me roubava dela.

Foi nesta casa e já com a companhia da Lilica que a minha relação com a bike começou a ficar cada vez mais séria e eu ganhei o mundo. Minhas ausências e distâncias percorridas foram aumentando e sempre minha chegada foi uma festa. Só alegria, zero cobranças.Quando eu tentei um amor do outro lado do mundo, a Lilica estava junto, olhando com curiosidade aquelas palavras estranhas que eu falava. Ela testemunhou toda minha vida e todas minhas tentativas…

E passaram os anos….mais de um terço da minha vida e ela sempre comigo. E quanto o mundo se apavorou com a pandemia, ela ao contrário, acho que nunca sentiu tanta felicidade! Ela nunca teve a sua tutora tão presente. Eu, na minha rotina de isolamento social, decidi acordar sempre bem cedinho e estabelecer um hábito. Foram 2 meses que como um reloginho, no exato instante que eu abria a porta, já vinha ela contornando a casa, toda balançada pelo rabo, olhinhos brilhantes, para me encher de carinho. Agora pensando, acho que foi alegria de demais. O ponto fraco de nossa “família” é mesmo o coração…

Há 7 semanas atrás, fui receber uma encomenda no portão e ouvi um grunido. Ela estava caída no chão, assustada. Mas ela voltou. Fiquei observando e naquele mesmo dia levei ao veterinário. Ao que tudo indica, ela teve um infarto. Quando veio a receita de uma medícação para “toda vida” o meu coração é que começou a bater descompassado. Dias de observação se sucederam, assim como novos ataques cardíacos. Eu em choque, sem saber o que fazer e pensando os limites tênues da vida. Das inúmeras reflexões que a pandemia tem me trazido, com certeza pensar sobre a ” Boa Morte” foi até hoje a minha reflexão mais desafiadora e dolorosa. Como a morte pode ser boa? Consultei alguns amigos queridos, que passaram por situação semelhante e eles me disseram: “Tu vais saber. Olhe nos olhos dela e saberá se ela ainda quer lutar”. Eu fiz isso. Incessantemente. Me mudei para a sala com ela para poder dar as medicações nos momentos exatos…e para tentar ler seus olhos. Eu entendi que ela ainda queria tentar. E fiz tudo o que pude. Exames, medicamentos, cuidados… como esquecer aquela tarde gelada em que implorei aos prantos para passar com ela na hora da eco: “estou limpa doutor, faz 2 meses que não saio de casa, pelo amor de Deus!” . Loucos estes tempos de pandemia…me senti uma extraterrrestre.

Nas minhas reflexões entendi que a Lilica fez minha casa, se transformar em um lar – aquela diferença amorosa que dá vida a um teto e quatro paredes…Eu segui olhando seus olhos como se estivesse buscando uma agulha em um palheiro. Eu segui ao seu lado em cada síncope, tentando ocultar minha dor. Foram muitas. Instantes de medo e impotência. Levei ela para fazer um hemograma e o veterinário pediu que eu a deixasse, pois estava muito desidratada. Voltei a pé para casa, sozinha e completamente desarvorada, com medo que o telefone tocasse a qualquer momento avisando o pior. Eu tinha clara na memória este momento: minhas avós, minha mãe, meu pai…não queria viver tudo isso de novo ainda que já estivesse vivendo…

Quando a reencontrei, ela parecia até melhor, mas começou a desviar o seu olhar.Acho que ela entendeu minha tática.Conversando com meus amigos na África do Sul, ainda fiz uma selfie nossa para enviar para eles. Eu devia ter olhado com mais atenção aquela foto…estava claro nos seus olhos: ela tinha desistido de tanto remédio e procedimentos. Ela só queria aquela vida de latidos, caças, explorações e liberdade…Naquela noite, não quiz comer. Ainda levantou na madrugada para ir ao banheiro. Quando eu acordei ela estava dormindo, para sempre…serena…Foi impossível não chorar, mas também sentia que precisava ser grata e admitir que ela não merecia permanecer só de corpo presente do lado de cá. Lilica virou estrelinha e nestes tempos doidos de pandemia, ela deve estar feliz e livre correndo lá no céu enquanto eu – ironia do destino- estou presa aqui dentro de casa. Lilica partiu e nos deixou partidas, tentando aprender a lidar com os vazios que nunca serão preenchidos, mas, quem sabe um dia lembrados com mais saudade e gratidão do que tristeza…

2 comments

    • Obrigada Débora! Sim, o texto é triste também…mas, como diz uma grande amiga minha, dividir é fundamental: dividir tristezas para que elas diminuam e dividir alegrias, para que aumentem!

      Like

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s